Carta da América - O PECADO DO PADRE JOÃO

Pedi ao motorista que nos levasse até à Canada das Silvas e que regressasse à cidade pelo Pico das Canas. Antes, no entanto, pedi que ele parasse à porta da casa de meu avô, a última no lado da rua antes de chegar à canada. Casa de meu avô, como quem diz. A casa havia tido pelo menos dois proprietários adicionais desde que meu avô a perdeu na década de '40, tendo sido forçado a vendê-la ao Domingos Dias Machado por preço de penhora.

Minha mulher desconhecia o que eu esperava fazer. Katherine após uns dias em São Miguel já nem me perguntava o que eu lhe mostraria em seguida. Desci do táxi e fui bater à porta da casa. Ninguém respondeu, infelizmente. Era minha intenção mostrar à Katherine com se parecia uma casa de lavoura à beira da estrada e a magnífica paisagem do terreno que fica para o norte por detrás do pomar que faz parte da propriedade. Bem. Fica para outra vez. Katherine por muitos anos havia escutado a história daquela casa, e o que meu avô, António da Costa Afonso, (O Tio António Figueira, como era mais conhecido no tempo) havia feito para a perder. Entre os vários vícios que tinha, meu avô era também alcoolatra.

Regressei ao táxi. "Nos leve `a Canada de João Leite," disse. "Suba ao fim, e desça em seguida. Quero mostrar outra coisa à minha mulher." O motorista obedeceu. No fim da canada, na Estrada da Ribeira Grande (Hoje talvez com um outro nome oficial) saímos do táxi e, chegando-nos ao muro à beira da estrada, mirámos a paisagem que ia além da Igreja e Praia de São Roque. Vista daquele ponto, a igreja apresenta o valor de sua arquitectura com mais elegância que de perto. Regressámos ao táxi e, como solicitado ao motorista, seguímos para baixo, para o Poço Velho. Antes, no entanto, parámos onde meu pai e um compadre "faziam" terra na João Leite. Infelizmente, como em casa de meu avô, ninguém me respondeu quando bati ao portão. Caso alguém nos atendesse, pedir-lhe-ia para me autorizar a mostrar à Katherine como em tempos passados quem queria ganhar com um cerrado de dez alqueires em São Miguel necessitava aproveitar todos os bocadinhos de terra por todo o ano. Em dez alqueires cultivávamos milho, vinhas, bananas, tremoço, tabaco, melancias, araçás, etc. Um ano chegámos a cultivar trigo, onde antes tínhamos tabaco. Ainda me lembro do verão em que ajudei a "vigiar praga" puxando uma corda ligada a um sino no lado oposto ao onde me encontrava. Me encantava ouvir o badalar. Coisa insignificantes na vida de cada um, mas, no entanto, parte de nossas respectivas recordações.

Esperava fazer desta viagem a São Miguel uma em que minha esposa, após mais de quarenta anos de matrimónio, me conhecesse melhor através da simplicidade e complexidade micaelense. Pena que em ambas paradas foi impossível realizar meus objectivos. No dia antes, no entanto, graças ao meu amigo, Dr. Jacinto Maria de Sousa, e sua senhora, D. Ana Maria, Katherine por fim viu o que eu, em várias ocasões nos nossos quarenta anos juntos, muitas vezes acabava por chateá-la ao falar dos dois anos necessários para um ananás de São Miguel chegar à mesa, e porque razão eram poucos os da minha época com o privilégio de o comer - mesmo quando tínhamos estufas.

Havia no entanto um pouco mais em São Roque que eu necessitei mostrar - a casa onde viveu o padre que casou meus pais e um ano após me baptizou, o tal Padre João (João Amorim, de facto). Era na época uma das melhores casas do Terreiro, mais ou menos onde a estrada se curvava. O Padre João, nem só ajudava almas a conseguir o paraíso, mas, quando os corpos que as transportavam durante a vida necessitavam remédios homeopáticos, era ele quem os surtia gratuitamente, logo que o doente tivesse um frasquinho limpo, caso o remédio fosse em líquido. Num sistema onde curandeiras e benzedores eram seres aceitáveis, o Padre João era para muitos a última opção "científica", ou clínica..
O Padre João, infelizmente, tinha uma "mancha" que talvez jamais deixaria sua alma enfrentar São Pedro ao começar sua vida na eternidade. Vivia com uma mulher, talvez por sofrer da mesma moléstia que forçou Adão a pedir a Deus por algo mais. É dizer, o Padre João era humano normal.

Além disso, o Padre João, na sua juventude, e sem dúvida com a mesma doença acima mencionada, havia sido transferido do Cabouco para São Roque pelas autoridades eclesiásticas de sua época, para que assim estivesse afastado da filha que ajudou a procrear naquela freguesia. Pena que Eça de Queiroz nunca conheceu o Padre João, já que, com seu exemplo, o Padre Amaro jamais teria cometido seu crime. No entanto, vejamos o que a literatura portuguesa perderia...

Não quero detalhar o resto da história do Padre João, visto não querer me elogiar em afirmar que tenho algo valoroso por haver sido baptizado por um padre reconhecedor da aberração que é o celibato. Digamos somente que o neto do Padre João, o António Frazão, foi aluno comigo durante três anos no Liceu Antero de Quental. Pena que não sei por onde o Frazão se encontra, e quantos netos já tem.

Naturalmente, Katherine, como boa católica bostoniana de ascendência iralandesa, não gostou daquela parte da viagem. Verdade que há muito já tinha ouvido a história do Padre João. No entanto, em passar pela casa onde ele havia vivido em "pecado", e em saber que eu havia feito com que ela conhecesse o local, foi algo mais do que ela esperava de São Miguel. Por minha parte, senti no entanto a necessidade de mostrar aquela realidade à minha mulher. Não por querer magoá-la, mas, sim, por querer proporcionar à nossa vida conjungal que todavia nos resta um pouco mais de entendimento. O resultado é que hoje, quando qualquer padre se apresenta frente a nós com qualquer tipo de proposta, já minha mulher me entende melhor quando afirmo que, talvez, seja "conto de vigário". Não que eu considere o Padre João vigarista. Pelo contrário. Se vigarice existiu no seu caso tal se deveu mais às injustas imposições de um sistema que tenta anular a realidade da vida. Sei lá, por exemplo, quanto sofreu o Padre João quando foi forçdo a afastar-se de sua filha? Sei lá quanto sofreu o Padre João ao descobnr que tinha um neto mas que não podia bradar perante seu mundo da alegria que tal evento oferece às nossas vidas?

Por outra parte talvez a alma do Padre João tivesse bradado silenciosamente. Foi interessante, por exemplo, ouvir Katherine ao comentar da viagem a São Miguel, enquanto ainda a bordo da AZORES EXPRESS, dizer que apesar de se sentir feliz pelo que viu, e pela gente que conheceu, sentia-se simultaneamente triste pelo Padre João. "Não é justo," disse, "que um homem seja forçado a nunca abraçar seus netos."

Manuel L. Ponte
St. Louis, Missouri
6 de Janeiro de 1998
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