Carta da América - "E-MAIL" SEM RESPOSTA

Talvez seja por falta de talento. Ultimamente tenho escrito pouco. Nada, de facto. Anteriormente teria culpado a depressão. Hoje não encontro desculpas além da preguiça.

Há dias, no entanto, recebi uma "e-mail" na qual um certo José Teixeira me perguntava o que fazia um micaelense em St. Louis, visto esta zona não ter nada mais que uma companhia fabricante de cervejas, um enorme arco monumental, e um clube de "football", o Rams, talvez o mais inferior dos elencos profissionais americanos daquela actividade desportiva.

Para dizer a verdade, não foi possível responder. Não que Teixeira tivesse, mas, simplesmente porque não me interessou a pergunta. Já há muito venho falando de St. Louis em várias publicações e indicando que já vivi nesta zona mais tempo que tenha vivido em qualquer outra parte do mundo. Nunca trabalhei na Anheuser/Busch, a fabricante de cervejas a que teixeira se referia, apesar de possuir um número minúsculo de acções naquela companhia. Quanto ao Rams, é algo que pouco me importa. Nunca os vi jogar, nem tenho intenções de fazê-lo futuramente. Aliás, no primeiro jogo que disputaram em St. Louis para o Campeonato da Liga Nacional, meu amigo equatoriano, Dr. Juan Cárdenas, me convidou a assistir ao evento com ele e, eu, por minha parte, inventei todo o tipo de desculpa para não sceitar. Não por não gostar do football americano, mas, sim, por reconhecer que naquele dia, em Orange County, Califórnia, estaria sofrendo sua ausência visto o Rams ter abandonado Anaheim em favor do dinheiro que St. Louis ofereceu àquela organização.

A zona metropolitana de St. Louis é a décima-quarta maior zona do gênero nos Estados Unidos e tem aproximadamente 2.500.000 habitantes. A cidade de St. Louis, no entanto, consiste de 400.000, os quais parecem igualmente divididos entre brancos e negros. Quando eu vim para St. Louis originalmente, em 1961, a cidade tinha aproximadamente 800.00 habitantes., tendo perdido população devido a vários factores, alguns reais, outros imaginados. Eu resido numa pequena cidade da área, Olivette, local que adoro, e que me permite um nível de vida relativamente confortável. Minha casa tem um dimensão de aproximadamente 300 metros quadrados num andar único, situados num terreno cuja dimensão excede 3.000 metros quadrados. Em São Miguel seria espaço para várias residências. Apesar de tal bem estar, não sou rico, e, agora que estou aposentado, jamais o serei. Não que anteriormente eu tivesse sentido a necessidade de o ser. Aliás, se anteriormente demonstrei ambições, tais foram motivadas mais pelo desejo de me realizar profissionalmente que economicamente. Hoje, no entanto, tenho dias em que nem sequer atendo ao telefone - ou à máquina contestadora - nem saio de casa. É dizer, vivo mais ou menos confortavelmente sob a realização que aquilo que o mundo me proporcionou até hoje basta para que me ocupe.

Ironicamente, meus amigos americanos parecem não me entender. A maioria continua trabalhando, alguns dizendo que continuarão até ao dia em que o patrão lhes mande embora. Não discordo do que fazem, ou dizem. Por outra parte, apesar de viver nos Estados Unidos há mais de cinquenta anos, nunca me considerei totalmente e, incondicionalmente, convertido aos valores americanos. Como bom micaelense considero honestamente que o trabalho está reservado para outros. Vim para a América por duas razões. Uma, porque meu pai chegou cá dois anos antes de mim e me mandou buscar. Outra, porque esperava um dia ter dinheiro suficiente para regressar a São Miguel e viver o resto de meus dias confortavelmente. Aconteceu, porém, que o destino tinha outros factores que um dia alternar-me-iam as intenções. Casei com uma americana. Tivemos três filhas e, elas, por sua parte, optaram por terem filhos também. Ora, se há algo que represente a maior vitória humana, tal factor se chama ser avô. Este último Natal, por exemplo, minha mulher, Katherine, e eu tivemos o imenso prazer de termos nossos netos connosco em várias ocasiões. Que mais posso dizer?

O inquérito do Sr. Teixeira, portanto, foi um que, apesar de não conseguir resposta de minha parte, teria sido fácil em responder. "Que faz um micaelense em St. Louis," perguntava. Resposta: "Vive no paraíso, meu caro senhor. No paraíso, vendo a continuidade de seu ser em caras alegres, e na felicidade de crianças portadoras de seu sangue. Vive alegre em saber que Katherine, Dena, Jonathan, Sarah, Matthew, Addison, Elizabeth, Whitney, e Donald fazem parte de seu contributo à humanidade, esperando que, antes que feche os olhos permanentemente, possa deixá-los algo de valor intelectual - algo com que eles, por sua parte, possam beneficiar mundos futuros. No entanto, o micaelense diverte-se ao presenciar as vidas que o rodeiam. Há dias, por exemplo, quando meu neto, Jonathan, de nove anos, me indicou que estava começando a jogar futebol (soccer) na escola, eu aproveitei a ocasião para lhe dizer que ele ainda tem um primo que hoje é um dos melhores futebolistas na Europa. "Como se chama," perguntou Jonathan.

"Paulo Miguel Resendes," respondi, "Mas é mais conhecido por Pauleta."

"E joga bem?" Perguntou Jonathan novamente.

"Joga, sim," respondi. "Está em terceiro lugar como marcador na Primeira Divisão Espanhola."

"Então não se esqueça de falar com ele a meu respeito a próxima vez que o veja," respondeu Jonathan.

"Talvez ele queira entrar em contacto comigo," continuou.

Quem sabe? Talvez um dia, num Mundial futuro, será Pauleta a dizer aos que o rodeiam. "Estão vendo aquele rapaz americano, de cabelo preto, e perdido pela bola - o Jonathan? É ainda primo meu..." Que faz um micaelense em St. Louis? Bem, vive ansiosamente aguardando o futuro.

Manuel L. Ponte
St. Louis, Missouri
1 de Janeiro de 1997
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