Carta da América - "A LOT OF BULLSHIT" |
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Cheguei a Londres pela madrugada. Meu destino era Berlim e,
eventualmente Barcelona, onde assistiria a um congresso de odontologia.
Era sexta-feira. Charles e Diane haviam casado no dia antes e a capital
britânica mantinha ainda um certo ar ilusório. Visto eu nunca haver
sido um dos admiradores da família real, para mim o casamento valeu
pouco. Verdade que meu hotel, o Cavendish, estava localizado na mesma
rua onde aquela malta tem um dos seus palácios, o St. James, mas a
verdade é que considero a monarquia britãnica já há muito um
anacronismo - o que em inglês americano do «midqest» é normalmente
definido como «a lot of bullshit». Aquela família, apesar das vantagens
e privilégios que o mundo tem proporcionado a seus elementos, tem-se
distinguido principalmente mais por seus idiotas que por seus génios. Os jornais ingleses, no entanto, reconhecendo que seu primeiro dever era vender jornais, e que Charles e Diana ajudar-lhes-iam, aproveitaram o evento de tal forma que ao meu ver chegaram a reportar quando os dois respiravam. Na tarde de sexta-feira, no entanto, em lugar de falar dos recém casados com um dentista com quem almocei, decidi falar propositadamente da Princesa Margaret, a qual supostamente havia violado algumas das regras às quais a família real necessitava obedecer para assim justificar suas qualidades de sanguessugas. «A Princesa Margaret é uma vaca», respondeu o dentista. Pretendi desconhecer o significado de «vaca», insinuando que aquela princesa era relativamente pequena para que fora comparada com aquele animal. Foi quando o dentista me respondeu dizendo que a família real tinha certos códigos sexuais a obedecer, e que Margaret, tendo como amante do presente um homem supostamente comum, desobedecia aos «tabus» que a história havia imposto na família real. Uma vez mais pretendi ignorância, chamando à atenção do conceituado dentista que Rosa Lewis, uma americana sem títulos reais, a quem o hotel onde eu me encontrava homenageava, havia sido amante do avô da presente raínha e de Margaret. O dentista ficou parcialmente engasgado sem saber o que me responder. Após o almoço, e, como era sexta-feira à tarde, decidi imitar os ingleses, fazendo o mínimo possível. Peguei num London Telegraph e preparei-me para um fim de semana que permiti-me-ia habituar o meu ritmo cardíaco ao horário europeu, o qual andecedia o de St. Louis por seis horas. Acidentalmente descobri que numa das luxuosas lojas de Regent Street, no dia seguinte, uma artista da fabricante de porcelenas Royal Doulton esperava demonstrar como aquelas eram desenhadas. Entrada: grátis. Visto possuir algumas estatuetas daquela companhia, a primeira coincidentalmente comprada em Londres, e hoje considerada «Collector's Item» (artigo de colleccionista), por já haver ultrapassado o catálogo da companhia apesar da demanda, decidi assistir à conferência e assim aprender algo mais sobre o que tinha a meu redor. Foi tempo bem passado e aproveitado. Após a conferência, no entanto, a audiência foi convidada a perguntar algo que lhe havia faltado de aprender, e eu, tendo todo o tempo do mundo a meu dispôr até ao dia seguinte, decidi fazê-lo, assim demonstrando meu sotaque americano. A artista respondeu detalhadamente à minha pergunta. Agradeci e procedi a esperar por outras perguntas de outros na audiência. Uma senhora extremamente britânica, no entanto, tocou delicadamente no meu braço e perguntou: «O senhor está cá para o casamento?» Minha resposta foi imediata. «Não, minha senhora. Mas espero regressar para o divórcio.» Exagerei. Quando Charles e Diana se divorciaram, encontrava-me em St. Louis. No entanto houve um outro pequeno detalhe. A senhora olhou para mim desgostosamente e, como para me fazer recordar do que a Inglaterra estava passando, disse: «Precisamos de Diana para salvar o país». O que para mim foi uma grande surpresa. Diana tinha aproximadamente 19 a 20 anos. Nunca havia escrito nenhum livro, feito nenhuma descoberta, obrado nenhum milagre, e sua educação era relativamente mínima. Era bonita, e talvez como concorrente em alguns concursos de beleza, poderia ter ganho alguma medalha, ou taça. Mas mulher com a capacidade para salvar a Inglaterra? Duvido. Salvar o país de quê? Se a Inglaterra necessitava de alguma mulher para a salvar, tal mulher já a tinha na pessoa de Margaret Thatcher. No entanto, já o mito de Diana havia começado. Ou entrado em fabricação, como a porcelana da Royal Doulton. Passaram-se anos. Deixo-os para a história e historiadores. Aliás não comentarei nada adicional do que já foi escrito sobre Diana. Morreu, talvez a caminho da cama no apartamento de seu presente namorado, com quem talvez esperava dormir naquela noite. Morreu num carro cuja velocidade era difícil de se explicar. Morreu mãe de dois filhos, os quais já haviam vivido grande parte de suas vidas internados em escolas preparatórias, e quem, no momento da morte da sua mãe - a qual se divertia em Paris - se encontravam de férias com seu pai. Não duvido de que os dois, William e Harry, sintam a falta da mãe. Da mesma forma que qualquer outro jovem cuja mãe lhe falte na adolescência sinta algo similar. No entanto, vivo com certas perguntas das quais ainda estou por achar resposta. Diana, por exemplo, viajou muito e, graças aos esforços de uma «media» por ela usada oportunisticamente quando da mesma necessitava, teve oportunidade de chamar à atenção muitas das deficiências - aliás crimes - das quais nos devemos envergonhar e que é dever humano e humanitário resolver. Que Diana foi usada por aqueles que diariamente batalhavam contra tais crimes, nunca tive dúvida. Há que reconhecer, no entanto, que Diana tinha meios que a suportavam para que seu esforços fossem em parte realizados. Que Diana semanas antes de falecer vendeu seus vestidos, oferecendo seu rendimento à caridade, não foi nada diferente de qualquer outra mulher que ofereceu seus desusados a qualquer loja de São Vicente de Paula, ou a qualquer do Exército da Salvação. Aliás, comparado á última, o sacrifício de Diana foi talvez relativamente mínimo. A mulher «comum» normalmente paga por seus vestidos. Quem sabe quem pagou pelos de Diana... Há adicionalmente um outro ponto que me tem preocupado. Se Diana merece todas as adulações que o mundo lhe tem proporcionado por sua generosidade, como se pode explicar que sua fortuna pessoal será passada a seus filhos, os quais já antes da morte da mãe estava garantidos, com seu quinhão da enorme fortuna Windsor, entre este, naturalmente, a coroa britânica? Irónico. Não? Ou será possível que os bons trabalhos de Diana tivessem sido, como dizíamos no meu tempo, e talvez ainda dizemos, só p'ra inglês ver? Manuel L. Ponte St. Louis, Missouri Acrescentar como Favorito (299) | Refira este artigo no seu site | Visualizações: 2627
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