CARTA DA AMÉRICA REMÉDIO DE AGUARRÁS |
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Batiam papo ao lado de fora da "Praça". Era Domingo, mais ou menos meio
dia, e toda a hortaliça já vendida. Fumavam seus Cigarros Santa Justa.
Mais tarde talvez atravessariam a Rua da Graça, à taberna em frente, a
tomar meio copinho antes de seguirem para casa. Comentavam do tempo. "Graças a Deus, Joaquim, não temos tido má tempe 'té 'gora. Já tá tudo plantadinho p'rá primavera." "Graças a Deus,' respondeu Joaquim. "Mas neste mundo nunca sabemos o que vem. P'rexemplo: Eu também ja tenhe tude plantado. Tive dinheire bastante p'ra pagá os campónios que 'tão ganhando bem, como tu sabes, mas, graças a Deus o dinheirinho chegou. O diabo é que tenho o cavalo doente. Não me puxa carroça porque não pode. É velhe e fraco." "Tei cavalo que tem?" Perguntou Mané. "Eh, 'Tá velhe. Chei' de soltura." "O meu 'teve assim também," disse Mané, atirando a última ponta do cigarro para o chão. "Tu que fazeste?" Perguntou Joaquim. "Home. Eu dei-lhe aguarrás, p'ra lhe fazê limpeza." Encontraram-se novamente na "Praça" duas semanas mais tarde. "Olha, Mané," ofereceu Joaquim para abrir conversa. "Sabes qu'estou pedindo dinheiro emprestado p'ra comprá novo cavalo. Como tu, eu dei aguarrás ao bicho. Não demorou muito e logo morreu." "Exactamente o que aconteceu ao meu," respondeu Joaquim. "Exactamente." Ridículo? Bem. Peço desculpa. Não sei porquê, mas, ultimamente, parece que não sei apresentar nada sério sem primeiro contar piada. Talvez sejam as pílulas de COUMADIN que, ao abaterem a "grossura" de meu sangue, me hajam levantado o nível do humor. Quem sabe? No entanto, há que recordar que em São Miguel de meus tempos existiam coisas ainda mais ridículas que a piada que contei. Não pelo povo ser estúpido, mas, sim, pelo isolamento e tradições que a era nos imponha. Muitas de tais tradicões vieram connosco para os Estados Unidos - o que em certos aspectos acabavam algumas vezes causando divergências inesperadas entre os recém chegados e os hábitos de quem cá havia nascido, ou já há muito cá vivido. De tais formas que para os "nativos" a nossa gente era muitas vezes alvo de piada. Por outra parte, eram nossas tradições que nos seguravam no difícil modo de vida que a América nos impunha. Como imigrantes buscando aquele "pão nosso de cada dia" que nos fez emigrar em primeiro lugar, muitas vezes não nos importavam os salários mínimos de que éramos vítimas logo que tivéssemos onde trabalhar. Verdade que para sobreviver pagando renda, comida, transporte, aquecimento de casa, etc., talvez era necessário que toda a família participasse nos ingressos familiares, que os filhos "fossem p'rá fábrica o mais pronto possível, e qu'a escola se lixasse". No entanto, vivendo à nossa maneira, e dentro de nossos costumes, defendíamo-nos. Tão notável era a situação que, na década de setenta, Owen MacGowan, Bridgewater State College, usou aquela atitude da nossa gente como base de sua tese doutoral. Naturalmente, haviam excepções. Como, por exemplo, o filho que insistia em estudar. Ou a filha que queria namorar ao estilo americano quando quem vinha lá da "Santa Terrinha" sabia que qualquer rapaz que agarrasse rapariga em casa de janela baixa não esperaria muito em querer satisfazer a curiosidade hormonal de ambos. Imaginemos, então, o que era deixar uma filha sair com um rapaz, em noite escura, sentada num carro com tanque cheio de gasolina barata, sem ninguém para tomar conta. Era questão de que só quem não tinha "vergonha" consentir. E, como sabemos, ou pelo menos deve ainda viver quem se lembre dos mesmos tempos a que me refiro, na história do mundo nunca houve ninguém mais vergonhoso que um micaelense "decente". Pobre, mas decente, graças a Deus. Verdade que, durante a Segunda Guerra, o governo salazarista despachou várias divisões militares para São Miguel, entre as quais encontraram-se alguns jovens continentais incapazes de manter suas braguilhas abotoadas, os quais encontraram raparigas micaelenses igualmente incapazes de não satisfazer as normalidades do amor jovem. O que, em alguns casos, resultou em tragédia tanto para o rapaz, como para a rapariga e seus familiares. De tal forma que o governo militar, para satisfazer a moralidade local, acabou por abrir uma área da Cadeia da Boa Nova que, por muitos anos antes da chegada dos "Cabrões de Lisboa" (Eram assim os continentais designados por muitos dos micaelenses, mesmo que fossem oriundos de Viseu), era mais curiosidade que prisão. Quatro anos, dez meses, e um dia era a punição ao soldado que, engravidando qualquer rapariga de menos de vinte anos, a qual havia consentido ao acto sexual, não casasse com ela. A honra da família era, e talvez ainda seja, a cola essencial que unia a nossa gente, e o que nos permitia "andar co'a cabeça no ar" na Freguesia de São Roque, como dizia um marceneiro que conheci, e que era uma dos maiores caloteiros na Praia dos Santos. "Olha, Cabrão, ou casas co'minha filha, mesmo que não tenhas condição económica p'ra casar, ou tu vás p'rá cadeia." Muitos acabaram por casar. A cadeia, no entanto, encheu-se apesar das janelas e paredes que à noite separavam os jovens, e as vigias cujas missões consistiam em impedir a Natureza. Imaginemos, pois, os problemas que o "namoro à americana" causava dentro duma família das nossas que há pouco havia testemunhado o "desastre" dos alegados soldados de Lisboa. Era traumático, realmente. É chato. Chato mesmo. De tal forma que quem, entre nós, tinha filha casadoura na América, vivia aflito à cata de genro. É dizer, de rapaz sério. Tão chata era a situação que um dia descobri que, se tudo procedesse como esperado, eu casar-me-ia com uma rapariga, filha de uma família amiga de meus pais, boa pequena, realmente, bonita, bem feita, que sempre acompanhava os pais à igreja. Uma tia dela havia feito o casamento. Havia somente um pequeno problema. Eu nunca na minha vida tinha falado com a rapariga, ou conhecido o som de sua voz. Tão forte era a novidade que uma noite de festa em New Bedford, a mais de noventa quilómetros de Cambridge, onde eu vivia com meus pais, uma senhora que nos conheceu em São Roque, acabou felicitando-me por haver escolhido uma rapariga tão moral - "e da nossa gente". Sentia-se admirada que a rapariga não estivesse comigo na festa, "Ninguém iria dizê mal," comentou. "Vocês 'tão p'ra casá, e tei pai e tua mãe estão aqui contigo. Não é que vocês não tenham niguém p'ra vigiá." Quando respondi que ainda não tinha intenções de me casar, a senhora olhou para mim e para meus pais com um olhar triste e meio zangado. Mais ou menos uma hora após, ouvi a mesma senhora falar de mim com um outro casal micaelense. "E mulhé," dizia. "Não. Não se vão casá. Imagina. Filho único dum casal com'ó João e a Isabel. Infelizmente estudou demais p'rá nossa gente. Deve ser paneleiro". Felizmente não me acusou de dar aguarrás em cavalo. Aquela senhora regressou tempos após a São Miguel, onde tinha uma casa no Terreiro, em São Roque, e havia herdado alguns valores. Se por acaso ainda vive, espero que esteja bem. Quanto ao "filho único", bem, namorei estilo americano - uma "airicha" (*1) de cabelos vermelhos e olhos verdes. Tivemos três filhas, a primeira nascida aproximadamente dois anos após nosso casamento na Igreja da São Tomás Aquino, em Boston, o que comprova que nem todos os namoros à americana resultam em gravidez pre-matrimonial. Já as três filhas nos apresentaram nove netos. Estamos ainda casados há aproximadamente quarenta anos - um ainda com o outro, caso raro nesta época. Infelizmente, João, meu pai, só conheceu Katherine, minha neta maior. Mas, pelo menos, soube que sua linha não terminaria comigo. Isabel, minha mãe, ainda vive.*2 É conhecida como "Avó" pelos bisnetos. Não tem outro nome. St. Louis, Missouri 27 de Novembro de 1996 Manuel L. Ponte Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o JavaScript terá de estar activado para que possa visualizar o endereço de e-mail (*1) "Airicha" - Versão açor-americana do feminino de Irish (irlandesa). (*2) A 17 de Dezembro de 1996, minha mãe, Isabel de Jesus da Costa Afonso Ponte, faleceu em Bridgeton (St. Louis), Missouri. Tinha 88 anos. Suas cinzas encontram-se sepultadas no Cemitério de Cambridge, em Cambridge, Massachusetts. Acrescentar como Favorito (210) | Refira este artigo no seu site | Visualizações: 2464
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