CARTA DA AMÉRICA "Thank you...Thank you..." / A Sanduíche de Atum

A maior deficiência no país mais rico do mundo é a grande falta da sardinha assada na brasa, servida com limão fresco, pão um pouco endurecido, e um bom vinho branco e barato. Esqueçamos a pimenta picante e moída, visto que nem em Lisboa há quem pense em tal condimento. Tal é privilégio do micaelense - do homem mais sacrificado do mundo.

Sacrificado, sim. Com que outro título podemos designar quem abadonou a sardinha assada com todos seus requisitos para viver na América, onde, há anos, o peixe era considerado penitência católica? É necessário ser sacrificado para suportar aquela insolência.

Além disso, quando o micaelense, como eu, se casa com uma bostoniana de ascendência irlandesa, é necessário chamar o facto à atenção. Bostonianas de ascendência irlandesa podem ser bonitas, simpáticas, carinhosas, mas, Deus meu, o que fazem com o peixe - ou melhor, o que fazem ao peixe só o diabo entende.
Ainda hoje, após mais de quarenta anos de vida conjugal, Kathy está por preparar uma boa sardinha assada - acto naturalmente difícil visto a nossa residência estar a dois mil quilómetros do Atlântico. No entanto, vivo sempre a temer o dia em que ela abra uma lata de atum. Eis a razão:

Em 1955 e 1956 trabalhei para uma companhia de seguros em Boston. Escolhi aquela posição porque, assim me disse um amigo universitário, uma das melhores maneiras de se ganhar dinheiro na América era ser agente de seguros. "O americano protege sua riqueza empobrecendo-se por pagar pelos seguros que a protegem," afirmou. Logicamente, após ter vivido tantos anos sem dinheiro, foi natural que o buscasse da forma mais fácil descoberta até hoje. "Trabalhar é p'ra burros," dizíamos lá em São Miguel.

A verdade é que não me senti satisfeito. Era um trabalho chato onde o objectivo era medir-me em cifras, e não na totalidade do meu próprio ser. Lembro-me, por exemplo, que na agência onde trabalhava, o ideal era ultrapassar um certo Yale Goldman, que, apesar de jovem, sofria de grande ansiedade causada por um estômago nervoso. Era uma pressão constante, um tipo de doença onde todos os valores se reduziam ao dólar - e nada mais. Um dia, após haver conseguido, as "honras" de chegar ao "President's Club" e "Honor Underwiter of the Month", larguei a "profissão" para jamais regressar.
Ainda me recordo do Agente Geral, Henry Faser, quando me disse: "Estás abandonando uma carreira que poderia te trazer grande segurança financeira, tanto a ti, como à tua familia. Seguros ajudam a construir esta grande América."

Enquanto o Henry falava, pensava em meu pai, um simples carpinteiro que, com um serrote, umas tábuas, uns pregos, um martelo, etc. sabia construir uma casa. Ou em minha mãe, uma simples costureira, que, com uma agulha, linha, um pouco de tela, etc., podia me fazer um par de cuecas. Eu, no entanto, que fazia? Tirava dinheiro de pessoas que, jogando com cartas favoráveis às seguradoras, pretendiam defender os futuros das suas famílias sem reconhecer que, simultaneamente, ajudavam a me manter no presente. Se a grande América do Henry existia, era porque certa gente se levantava de madrugada e, pegando no arado, ou em qualquer outro utensílio, fazia com que comida brotasse da terra, ou um lar se levantasse do chão, etc. Verdade que o agente de seguros era extramente necessário no esquema. No entanto, eu necessitava algo mais - ou diferente. Tendo o dinheiro como único objectivo, acabei por reconhecer que vivia sem objectivos.

Não posso, no entanto, dizer que minha vida como agente de seguros não me preparou para o futuro. Se não tivesse trabalhado com um bostoniano, Dick Casey, talvez teria vivido na escuridão do que é ser bostoniano de ascendência irlandesa. É dizer, teria vivido com uma mulher bonita por mais de quarenta anos sem nunca descobrir porque razão Katherine não sabe preparar uma salada de atum.

Sim. Salada de Atum.

Dick Casey passou um dia por casa de meus pais em Cambridge. Era a hora do almoço, e minha mãe, em forma totalmente informal, insistiu que o Dick se sentasse a comer connosco. Coisa simples.
Comida farta, "à moda das ilhas". Batata cozida, couves do quintal, e um atum de lata. Azeite e vinagre, naturalmente. Tudo sem cerimónia.

O Dick não dizia nada ao comer a batata e as couves, apesar de nunca haver saboreado tais legumes à nossa moda. No entanto, ao comer o atum, olhava para minha mãe, e, com um sorriso onde se notava o mapa da Irlanda na cara, bradava: "Thank you, Mrs. Ponte. Thank you, very much."

Minha mãe, com seu sotaque do Pico das Canas, em São Roque, só me perguntava: "Co's diabos. 'Dank you, dank you'. P'ra quê? É só atum, nada mais." E, após um ou dois segundos, continuava: "Só s'ele soubesse o qu'é comer um bonitinho salgado, com'eu fazia nas ilhas.
Aqui n'América não há tempo p'ra isso."

O Dick, no entanto, continuava com os seus "thank you, Mrs. Ponte."

Já se passaram mais de quarenta e três anos. Muitas vezes antes de morrer, minha mãe ainda se referia ao meu amigo, o 'Dank you'.

Dois anos após o incidente, encontrei-me na Igreja de S. Tomás Aquino, em Boston, onde casei com Katherine Gerada Mulvey. Já havia terminado a minha primeira carreira universitária, assim delegando a protecção de viúvas e orfãos a quem estivese pronto a construir uma América sem nunca construir nada visível. Enfim, a quem, em busca do dinheiro, estivesse disposto a delegar a produção industrial do país ao que eventualmente se tornou no colosso chamado Japão. Que tal país hoje também seja sede de grandes instituições financeiras, talvez não seja por um acaso, mas, sim, por sua capacidade de produzir algo visível além da simples trasferência de dinheiro de pessoa a pessoa, onde o objectivo principal é uma alta comissão para o intermediário.

Não tardei em descobrir a razão do extase do meu amigo Dick. Um sábado, Katherine preparou umas sanduíches que levámos à praia. Vivíamos em Long Island, Nova Iorque, e, como não tínhamos ainda filhos, era nosso costume passar parte dos fins de semana estivais onde podíamos disfrutar do tempo na famosa Jones Beach (Praia Jones). Katherine, não sei porquê, sempre gostou de galinha. Eu, no entanto, passaria a vida sem nunca sacrificar animal com pena e asa, digam o que digam os sabichões para justificar o valor nutritivo da ave. Para mim, tal bicho nasceu para voar, cantar, ou desovar (Sou perdido por todo o tipo de omeleta), etc.. Não para sacrificar. No entanto, o matrimónio é um compromisso, e quem em seu caminho entra tem que de quando em quando render parte de suas preferências. É dizer, em mais de quarenta anos tenho sofrido vários domingos, quando seria meu prazer pegar no prato de galinha preparado por Katherine e, berrando simultaneamente, jogá-lo pela janela às profundidades do jardim.

Foi, então, natural que eu abrisse o embrulho contendo a sanduíche e começasse a comer. Ora, os americanos nunca preparam sanduíches de galinha só com galinha. Adicionam ápio, maionese, taladinhas de cenoura, bocadinhos de salsa, pimentão verde, etc.. Os nutri-economistas que vendem seus artigos a revistas dedicadas a donas de casa chamam tais condimentos "esticadores de comida", os quais fazem com que o produto principal renda um pouco mais. Dizer, portanto, que em comer a sanduíche preparada por minha mulher não era sacrificar muito, já que a galinha se encontrava escondida, não seria exagerar. Portanto, não me molestou comentar positivamente, aliás, a cumprimentá-la pelo exito.

" Que galinha?" Perguntou Katherine.

"A galinha na sanduíche," respondi.

" Galinha? Não era galinha. Era atum."

De repente comecei a rir. Na minha frente encontrava-se a figura do meu amigo Dick Casey, bostoniano de ascendência irlandesa, olhando para minha mãe dizendo: "Thank you, thank you, Mrs. Ponte." O pobre nunca havia comido atum na sua vida. Ou, aliás, se o havia comido, alguém o disfarçara com maionese, ápio, cenoura, etc., para que o esticasse e o fizesse render. Minha mãe, que nunca falou inglês bem, desconhecia a arte das revistas domésticas normalmente vendidas perto da caixa nos supermercados americanos. Para ela, o atum era para ser comido e apreciado em sua forma mais pura, com batatas cozidas, couvinha, um pouco de azeite e vinagre, e, quando não há "vesitas de fora", uma boa pimenta salgada.

"Thank you, Mrs. Ponte. Thank you."

E a Katherine, bem, amanhã celebraremos quarenta e dois anos de matrimónio. "Thank you, too, Mrs. Ponte."

Olivette (St. Louis), Missouri
1 de Março de 1998
Manuel L. Ponte
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