CARTA DA AMÉRICA BALADA DE NEVE


"Batem leve, levemente,
como quem chamam por mim.
Será chuva, será gente?
Gente não é, certamente,
e a chuva não bate assim.

Fui ver. A neve caía,
branca e leve, leve e fria..."

Não me lembro se tenho a pontuação exacta. Nem sequer me lembro de quem escreveu BALADA DE NEVE, onde encontrei tais versos. Talvez Augusto Gil, mas não apostaria. Lembro-me somente que uma tarde em 1943, a Dra. Judite da Silva insistiu que eu recitasse aquela poesia frente aos meus colegas, um dos quais, Luiz Augusto da Silva, insinuou depois da aula que eu era um idiota, um desgraçado, e um imitador de continentais. "Tu és micaelense," disse o Luiz Augusto, "e cá na ilha não se fala assim."

Coincidentalmente, hoje o Luiz (Luís) Augusto vive em Lisboa, onde é presidente da Filmes Luso Mundo.

A verdade é que, no momento em que recitava, não tentei imitar o sotaque continental. Aliás, se há todavia algo que se possa dizer de mim, após mais de cinquenta anos na América, é que ainda tenho o sotaque de corisco, apesar de me exprimir muitas vezes com alguns brasileirismos quando tento falar a única língua que minha mãe me ensinou. Isabel de Jesus da Costa Afonso nasceu em São Roque, Ilha de São Miguel. Além disso, se há algo que me chateia, é escutar micaelenses tentando falar à continental. Para mim cometer tal 'crime' é tão ridículo como esperar que uma sardinha nade na areia. No entanto há quem o faça descaradamente. Como o líder do governo açoriano, o corisco Carlos César, por exemplo.

Não escrevo, no entanto, para criticar meus conterrâneos "entreguistas". Afinal, cada um é dono de sua própria voz. E num país de liberdade, cada cidadão tem direito à sua própia burrice. Quero somente dizer que quem escreveu BALADA DE NEVE vivia talvez em São Miguel - é dizer, pessoa que nunca viu neve cair. A neve, se bate, não faz barulho. Isto sei, sendo já conhecedor de neve desde 1946. Aliás, agora mesmo neva em Saint Louis, Missouri - agora mesmo, ãs 0:50 da manhã, 2 de Março de 1998, dia de meu aniversário matrimonial.

2 de Março de 1998? Ora essa! Parece mentira. A 6 de Março de 1946 chamava-me Manuel Luiz da Ponte Rezendes, e entrava na América por primeira vez. Doze dias antes tinha 14 anos e residia na Praia dos Santos, ali na entrada de São Roque, caminhando para o leste, procedendo de Ponta Delgada. Lembro-me que, na noite de 22 de Fevereiro, minha mãe e eu tomámos a lancha do Manteiga, lá no cais, e que em poucos minutos encontrava-me a bordo do velho São Miguel, o melhor barco dos Carregadores Açoreanos, hoje talvez convertido em latas de conserva, ou em sucata. Não me recordo de nada mais, a não ser que quando despertei tentei ver o verde que havia conhecido toda a minha vida e nada encontrei além do azul do mar que rodeava o barco. Senti-me temeroso, e, como se a cama fora uma forma de protecçao, regressei ao leito, onde fiquei até já não poder suportar mais a fome.

De tal momento até hoje, continuo sofrendo o corte umbilical que aquela manhã representou para mim. Em muitos aspectos, sou todavia aquela criança que, apesar de já haver vivido mais de cinquenta anos na América, ainda não conseguiu abandonar o congelamento mental causado por sua última noite no cais. Como tenho tanto para contar...quantos recados para amigos...quantas poesias por recitar...Não me sinto bem recordando que a última vez que o vi, o Santa Clara perdia um partido com um ridículo Micaelense - um jogo que nunca deveria haver perdido, mesmo com um Micaelense possuidor do Manuel "Talefa" e do João Maciel. Porque, afinal, o Santa Clara tinha o "Genina", o "Ratão", o Fernando Ferreira, o Henrique "Lombriga", etc. Aliás, o Santa Clara, vencedor da primeira volta, acabou em penúltimo lugar seguido do miserável Marítimo, onde só o Manuel "Viuva" figurava.

Há anos estive em Massachusetts, onde uma prima, Maria Leonilde da Ponte Tavares, reside. O ano antes, a Leonilde e o marido, Luiz Tavares, estiveram em São Miguel assistindo às Festas do Senhor Santo Cristo. O Luiz era perdido por videogravações. Foi natural, pois, que gravasse o evento em todo seu esplendor. Por acaso, ofereceu-me uma cópia da gravação...Uma vez mais, a juventude - desta vez, no entanto, com uma pequena diferença. Quando era criança tentava o melhor para ver a imagem do Senhor Santo Cristo quando se trasladava do Mosteiro para a Igreja no dia antes da procissão. Mais tarde, no mesmo dia, permanecia escutando as várias bandas que pareciam querer tocar todo seu repertório. Os músicos eram geralmente homens adultos. De repente, ao ver a gravação do Luiz, percebi que São Miguel havia cambiado. A Rival das Musas, aquela banda de pedreiros, empregados de escritorio, pescadores da Calheta, etc. era agora uma banda de jovens, aliás, na frente, tocando clarinete - e bem - encontrava-se uma linda moça, talvez mais jovem de que qualquer uma das minhas filhas. Senti-me como se o mundo houvera passado por minha porta e se esquecido de me convidar ao passeio. As lágrimas começaram a brotar. Minha mulher, que no momento entrava, me viu chorar. "Anything wrong?" perguntou.

"Anything wrong?" Eis onde o corte umbilical a que me referi se encontrava. Agora a língua era outra... "Anything wrong?" pode ser traduzido como "Que há de mal?" ou "Não te sentes bem?" etc. A verdade é que, em todos aspectos, me acho relativamente bem. Tenho suficiente para viver. Não me sacrifico para pagar minhas contas. Já conheci a Ásia, a Austrálasia, as Américas - do Alaska à Argentina - a Europa, aliás já cheguei a estar em Cairo, como em Durban, na Africa. Tenho amigos em mais de trinta paises. É dizer, tenho tido sorte. Minha senhora é uma magnífica e carinhosa pessoa. No entanto, no momento em que me viu chorar Katherine desconhecia São Miguel. No dia seguinte decidi assistir às Festas. Katherine sentia-se pronta para me acompanhar. Por sorte, e no dia após minha decisão, nossa filha, Laura, convidou a mãe para acompanhá-la à Europa em Julho, por duas semanas. Laura e a mãe dão-se muito bem. Então concordei que seria melhor que Katherine acompanhara nossa filha. Katherine era funcionária universitária com direito a cinco semanas de férias anuais. Por sorte, as restantes três semanas já estavam comprometidas para uma outra viagem à Europa, onde, depois da Feira do Livro de Frankfurt, tínhamos programada com amigos uma viagem à Espanha e a Portugal. Além disso, aconteceu um caso no meu trabalho que talvez não me permitiria assistir às Festas, mesmo viajando só - como se, por um acaso, uma força superior insistira que meu lugar era realmente na América. Eis, então, a razão nostálgica que me fez recordar a BALADA DE NEVE.

Talvez o Luiz Augusto tivesse tido razão. Não sei porquê, mas toda a minha vida tenho fantasiado que encontrarei aquela terra que, lá no horizonte, se levanta como a Ilha de Santa Maria se levantava do mar em manhãs claras. Quando era criança perdia horas na "Relvinha" olhando para o sul só para observar o levantar do monte azulado que era aquela ilha na distância. Horas inúteis - mas horas de imersão. Então me imaginava e transformava em mariense e muitas vezes, se alguém se aproximasse de mim e me dissesse algo, sentia que respondia imitando a pronúncia do Sr. João Baptista, um mariense que morava um pouco mais abaixo de nós. Excepto dos "Contos Tradicionais" de Teófilo de Braga, da poesia de Cortes-Rodrigues, e de Espínola de Mendonça, tudo que lia no Liceu era de autoria "estrangeira" (Continental). Verdade que à nossa volta figurava Antero de Quental, e que antes de frequentar o Liceu, eu havia sido aluno na Escola Feliciano do Castilho, ambos açorianos incorporados ao ambiente continental. Aliás, na Feliciano do Castilho li mais pronunciamentos de Salazar de que qualquer escritor açoriano. Dada, então, aquela necessidade de emergir nas sociedades que obliteravam a minha, talvez tivesse recitado BALADA DE NEVE como o afirmou o Luiz Augusto. Se assim foi, e, se na minha recitação fui tão convincente, fazendo com que meus colegas sentissem o bater da neve, peço-lhes desculpa. No entanto, ao ver a neve cair em Saint Louis, Missouri, na manhã de 2 de Março de 1998, sinto uma afinidade com o poeta. Recordo-me de suas duas últimas linhas:

"...cai neve na natureza,
e chora o meu coração."

No meu caso, de saudade, talvez.

Olivette (St. Louis), Missouri
4 de Março de 1989
Manuel L. Ponte
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*1 Esta crónica modifica e actualiza outra publicada originalmente no AÇORIANO ORIENTAL (Ponta Delgada) e PORTUGUESE TIMES (New Bedford, Massachusetts). Dadas as coincidências, tanto da vida do autor, como da Natureza, espero que o leitor perdoe a similaridade entre as duas publicações.
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