CARTA DA AMÉRICA SEM TÍTULO |
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Hoje, 6 de Março de 1998, é um dia comum. Para mim, no entanto, é um
dia especial. Hoje marco cinquenta e dois anos de vida nos Estados
Unidos. É dizer, já me encontro nos Estados Unidos há mais tempo que o
próprio presidente, o qual nasceu em 1946 - mas após minha chegada cá. Desconhecia a língua inglesa. Naquela época, no primeiro ciclo liceal de então, a única língua estrangeira que aprendíamos nos liceus portugueses era o francês. O que comprova que, quando um sistema educacional é altamente centralizado como o de então, quem perde é a nação por reduzir opções oportunísticas à sua gente. Me sinto seguro de que, tendo o povo açoriano uma opção de que língua estrangeira deveria estudar naquela época, a preferência seria pelo inglês. Poucos açorianos emigravam para países francofones. Nem sequer para Québec, no Canadá. Com tal afirmação não pretendo insinuar que o francês acabaria como língua desprezada. A gente açoriana ainda se preza de suas raízes francesas, apesar de que as zonas francesas de alguns de seus antepassados terem tido pouco a ver com a língua oficial do que é hoje a França. Além disso, o mito de "la culture" não é algo que morra facilmente. Aqui ao oeste da cidade de St. Louis, onde resido, por exemplo, temos localidades e mais localidades onde nomes franceses predominam apesar de franceses nunca terem passado por cá, a não ser em números relativamente minúsculos. Por exemplo: Esta crónica está sendo escrita em Olivette, a qual tem cidades adjacentes que se chamam Crève Coeur, Ladue, e Frontenac. Além disso tem outras cidades relativamente cerca com nomes como Florissant, Des Pères, St. Charles, Bellefountaine, etc.. Ironicamente, visto tais nomes estarem influenciados pela pronúncia inglesa, Olivette e Frontenac são as únicas duas cidades acima mencionadas cujo nomes seriam entendidos na França. No entanto, apesar de tal realidade a Societé de la Alliance Française continua funcionando, seus membros sendo geralmente senhoras - muitas que nem sequer descendentes de franceses são - que, para que não se tornem em vegetais humanos, tiveram a sorte de casar com quem tivesse meios de as suportar "avec la culture". Me desculpem, por favor. O que acabo de narrar não tem nada ver com o dia de hoje. Nem com o aniversário que celebro. Foi uma pequena digressão, nada mais. Há que reconhecer, no entanto, que, para quem vive nos Estados Unidos, o país apresenta tantas possibilidades de digressão que fazê-lo em forma escrita nem é má literatura nem sair do assunto original. Portanto regressarei ao dia 6 indicando que não tenho nada importante a dizer hoje. Aliás, se há algo que devo escrever, aproveito de meu aniversário para chamar à atenção que há três anos escrevi um pequeno trecho que Manuel Adelino Ferreira (Portuguese Times), António Matinho (Luso Americano), e Gustavo Moura (Açoriano Oriental) tiveram a gentileza de apresentar em suas respectivas publicações. Para quem já ocasionou de o ler, sugiro que olhem para outro artigo. Para quem desconhece o que escrevi, ei-lo então: Quarenta e nove anos, sem que eu saiba onde os coloquei. Perderam-se num mundo chamado vida sem que me permitissem o que eu ambicionava da juventude. Por favor não me perguntem o que fiz com eles. De pouco me recordo - a não ser de seus primeiros onze dias gastos entre São Miguel e Nova Iorque, tendo partido do primeiro lugar à noite e chegado ao segundo igualmente à noite. Quanto aos demais, desapareceram. Dizem-me que os desfrutei. Mentira. Foram anos, nada mais, nada menos... Talvez os tivera perdido da mesma forma caso nunca tivesse abandonado São Miguel. A última vez que passei pela ilha, por exemplo, encontrei-me com um amigo do Liceu cujo último nome me escapa, mas de quem nunca me esqueci. "Olá, Amâncio," disse quando o vi. O Amâncio, por sua parte, nem ligou para mim. Olhou para o Dr. Jacinto Maria de Sousa, outro colega da época. "Oh, Jacinto. Eh, homem!" Começaram a falar, até que o Jacinto perguntou se o Amâncio se recordava de mim. Não me lembro do que respondeu. No entanto, enquanto os dois falavam, descobri que o Amâncio se encontrava aposentado após uma longa carreira com o mesmo patrão, e que nunca havia estado fora de São Miguel. "Imagina, Manuel Luiz," disse o Jacinto. "Da nossa idade e nunca esteve fora da ilha." A ironia é que, ao observar o Amâncio, não descobri nada fora do ordinário, a não ser que não se recordava de mim. Poderia haver sido que eu já não era o rapaz de catorze anos e meio que, a 22 de Fevereiro de 1946, tomou o São Miguel - na época, o melhor barco dos Carregadores - sem saber que na manhã seguinte encontrar-me-ia no alto mar totalmente distante de qualquer terra, e onde as únicas montanhas eram as ondas. Arrependi-me. De tal forma que perguntei a um dos pilotos se teríamos oportunidade de de pelo menos ver a Ilha das Flores. "Para quê?" Me perguntou. Não me recordo do que respondi. Basta dizer que, se o São Miguel tivesse atracado nas Flores, lá ficaria. Quarenta e nove anos... O que me faz recordar que, anos após haver aprendido inglês, descobri que o que sentia não era raro. Todos somos resultados de passos inesperados, como indica Robert Frost no seu poema, ESTRADA POR SEGUIR,
Em algum lugar em anos distantes: Duas estradas divergirem num bosque, e eu - Seguindo a menos viajada, Encontrei minha diferença. Ontem à noite, no entanto, recordando nostalgicamente minha partida de São Miguel, saí a passear com meu cão só para ver se a estrada onde "encontrei minha diferença" havia justificado os quarenta e nove anos perdidos. A temperatura, graças aos efeitos da corrente marítima, "El Niño", a qual de quando em quando confunde a Natureza fazendo do inverno no "Midwest" uma primavera inesperada, proporcionou-me a possibilidade de caminhar aproximadamente quatro quilómetros sem nenhum inconveniente. Não sei porque acabei comparando o ambiente onde me encontrava com uma das melhores zonas residenciais de Ponta Delgada, convencendo-me que, talvez, havia feito bem em emigrar. Ao regressar a casa, no entanto, sentia-me um pouco fora de mim. Olhei para minha mulher, Katherine, e disse-lhe algo em português. "What?" Respondeu-me, trazendo-me novamente à realidade. Não respondi. Foi então quando me lembrei de telefonar ao Prof. Dr. Walter Ehrlich, da Universidade de Missouri em St.Louis, cujo curso na História da Imigração Americana é altamente frequentado. Perguntei-lhe se lhe seria possível participar comigo no dia 6 de Março na estação radiofónica WGNU, de Granite City (Illinois) e St. Louis (Missouri) discutindo em forma aceitável ao público geral os fundamentos de seu curso ou, melhor, como o americano tradicionalmente se sente perante uma invasão constante de gente que o país necessita mas que, simultaneamente, pretende não querer aceitar. "Porquê a 6 de Março?" Perguntou. "Porque naquele dia celebro minha entrada nos Estados Unidos. Cheguei a 6 de Março de 1946." Ehrlich aceitou. Agora resta saber quais serão os temas que discutiremos dentro do tema escolhido. Verdade que, sendo o programa em parte "Linha Aberta", a audiência terá muito que dizer para influenciar a sessão. No entanto, dada a imensidão do tema, sinto que Ehrlich e eu apresentaremos algo que talvez acabe por abrir à audiência novas "estradas" mentais, ou solidificar posições - tanto positivas, como negativas - seguidas há muito por aderentes indispostos a abandoná-las. O que me leva novamente à ESTRADA POR SEGUIR, onde na estrofe anterior à acima mencionada, Frost escreve:
Em folhas por nenhum passo enegrecidas. Reservei a primeira para outro dia! Ciente de, como rota que sempre abre outra, Reconhecendo que jamais regressaria. Quarenta e nove anos... Numa estrada ainda por descobrir...Viajando onde o tempo não espera por ninguém... Olivette (St. Louis), Missouri 23 de Fevereiro de 1995 Submetido para republicação a 6 de Março de 1998. Manuel L. Ponte Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o JavaScript terá de estar activado para que possa visualizar o endereço de e-mail Acrescentar como Favorito (222) | Refira este artigo no seu site | Visualizações: 2357
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