CARTA DA AMÉRICA "O SENHÔ FALA INGLÊS TAMAM?"

A crónica que segue, apesar de haver sido escrita originalmente em Fevereiro de 1985, nunca foi publicada. No entanto, li novamente o poema de Jorge de Sena, onde o protagonista desespera por ouvir seus filhos - nascidos em Portugal e criados na América - falando inglés. O incidente que descrevo, portanto, não foi raro, mas, sim, um que, em muitos aspectos, faz parte da vida cotidiana da nossa gente.

Encontravam-se à minha frente - pai, mãe, um filho e uma filha. Os filhos falavam inglês. Os pais? Só Deus os entendia. Estávamos no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, a segunda maior cidade de lingua portuguêsa. Na mão do pai quatro passaportes portugueses.

"Porque não falam português, pelo menos aqui no Brasil?" Perguntei.

Os pais olharam para mim. Os filhos ignoraram-me.

"Because, you know. Os coriscos só falam inglês."

"E que língua falavam lá na ilha?"

"E com'ó senhô não sabe. A gente em casa já 'tamos mais acostumados a falá inglês. É mais better já que'tamos na América."

"É mais quê?"

A fila avançou. No entanto pensei em não abandonar os meus conterrâneos. Avançámos até ao balcão da imigração, apesar das insistências que só membros da mesma família podiam ser atendidos em grupos. A obediência à regra é contrária à realidade brasileira. Mantive a conversa, a qual de quando em quando salpicava-se, graças ao casal, com um idioma inglês que eu pretendia desconhecer. Aliás, inglês mal era.

Com nossos passaportes já carimbados, caminhámos à alfândega, quando a senhora comentou:

"O senhô tem passaporte americano. É alto com'americano. Parece americano. Mas fala bem português."

"E porque não, se sou corisco," respondi.

"O senhô fala inglês tamam?"

"Falo sim."

Chegou a bagagem, e, sem despedidas, o incidente passou aos rumos que tomámos.

Há tempos recordei-me do caso, depois de falar com dois amigos. Um, Juan Carden, e médico equatoriano radicado em St. Louis, e parcialmenbte de ascendência portuguesa (do Minho). Carden, apesar de altamente conceituado como médico, é poeta frustrado. Tinha escrito uma poesia a qual, como minha ajuda, havia traduzido para português. Como frequentemente acontece em tais traduções, a obra tinha uma daquelas palavras difíceis de se transferir poeticamente de um idioma para outro. "Suenan las ranas...", começava o trabalho. Nenhum dicionário consultado nos oferecia tradução adequada. Então telefonei a um outro amigo para que nos ajudasse.

Ebion de Lima é brasileiro e professor de português na Universidade de Missouri. "Ebion," disse-lhe. "Sei que há outra palavra. No entanto não me lembro qual." Ebion de Lima nem pensou para responder. "Você quer a palavra coaxar."

Juro que não me recordava. Nem se se escrevia com "x", ou com "ch". Em São Miguel, lá p'ró lado do Estanqueiro, onde ouvi rãs por primeira vez, e pensava que sua barulhada procedia de feitiços escondidos entre lírios, as rãs não coaxavam. Só faziam barulho e saltavam para a água quando alguém se aproximava. No jardim liceal havia também um tanque. Suas rãs, talvez preocupadas com a garotada, nem se atreviam a coaxar. A palavra, portanto, não foi difícil de esquecer após os anos que eu havia vivido na América.

No entanto é interessante reconhecer que, apesar de todas as deficiências que eram parte do nosso ambiente natalício, herdámos um idioma rico e adaptável que, de braços abertos, aceita de corisco a carioca. Que haja quem o abandone com seus "you know", porque "os coriscos só falam inglês", ou porque assim esperam melhorar seus padrões económicos no ambiente americano, é ajudar sua marcha ao retrocesso - no seu caso à pobreza gerada pela má comunicação. Imigrantes, não importa quem sejam, chegando a um centro metropolitano americano com tenra idade, aprenderão inglês - pelo menos o suficiente para que se possam defender. Eu, por exemplo, cheguei com catorze anos e meio, e hoje não exagero quando afirmo um conhecimento do inglês superior ao da maioria dos norteamericanos, britânicos, australianos, etc.. Não necessitei abandonar o que era para ser o que sou. Verdade que desconhecia, ou não me recordava, da palavra coaxar. No entanto, se tivesse sugerido a Juan Carden a tradução "Roncam rãs" por "suenan las ranas", não ficaria envergonhado. "Time and distance memories dull..." escrevi há anos na pequena poesia que enviei de Paris à minha senhora. "Tempo e distância recordações embaçam..."
Mas nem tempo nem distância ao espírito humano matam - a não ser que o queiramos. A nossa língua, sinto, é parte do nosso espírito. Subjugá-la a outra, onde a comunicação torna-se em caricatura é subjugar-nos espiritualmente. A América tal não merece de nós. Nem tal busca. Ambientar-nos na América não é sinónimo a destruir-nos na América. Os dois pais micaelenses que encontrei no Rio, por examplo, não falavam inglês. Infelizmente, nem já português falavam. Haviam-se trocado por dois seres sem bandeira apesar de terem passaportes. E, no processo, haviam roubado aos filhos o que haviam em tempos tido na Ilha de São Miguel.

É pena. Nem uma rã que "suena", "croaks", ou coaxa tal faria ao seu som nativo uma vez trasladada por qualquer razão. Agora pergunta-se: Vem isto por a rã ser mais adaptável, ou por ter melhor memória que uma família de coriscos?

St. Louis, Missouri
8 de Março de 1998
Manuel L. Ponte
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