Abril..

É sempre tempo de falar
de um Abril que aconteceu,
de remoer um Abril que se não deu.

Em Abril renascemos.
Respirámos tão fundo que à nossa volta estremeceu o mundo.
Assim fizemos nós, os já cansados, os sofridos,
os ansiosos pela luz tardia no brilhar.

Assim falo eu dos que Abril aguardaram
em silêncios redondos de medo e solidão.
Dos que mais longe foram e rasgaram o escuro
e por isso pagaram com o corpo e o coração.

Depois de Abril nasceram.
Não trouxeram consigo a memória das sombras.
Não precisaram de aprender da liberdade o nome,
porque ela os inundou como se seiva fora, primordial e imensa.
 
Assim falo eu dos que souberam pelos pais e os pais dos pais
que um outro mundo houvera em que o Adamastor
impedira a dobragem do Cabo das Tormentas
que em Esperança se tornou para lá dos temporais.

Abril ainda aqui está.
Filhos irão nascer, netos dos netos a haver.
A pouco e pouco Abril se irá esbatendo,
a lembrança dos homens esmorecendo.

Assim pergunto eu:
Que restará então?
Que histórias contarão?
Quem falará da dor do camponês a mendigar o pão?
Quem lembrará o operário banido pelo patrão?
Quem chorará do bravo resistente a vil prisão?

Agora afirmo eu:
Aos novos comedores do sangue da manada,
aos velhos fazedores do mito e da traição,
saberemos dizer, com o queixo levantado,
do nosso amigo segurando a mão,
a palpitar, festivo, o coração:
Abril nos deu a hora e nada foi em vão.

Licínia Quitério