REVELAÇÃO |
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Ruano apontava para o inventário, queixando-se. "Veja. Tenho milhões de
bolívares investidos nestes livros. Milhões. E cada vez mais caros. É
um beco sem saída..." "Ruano," respondi. "Quantas vezes já lhe disse que você pensa como bibliotecário quando deveria ser livreiro?" "É que você não entende, Ponte. Os caras entram e pedem tal título. E, se não o tenho disponível, são dez semanas para que chegue de fora. Por isso necessito ter todos os títulos possíveis no depósito ou na prateleira." "E para que os tenha você necessita investir. É dinheiro parado, Ruano. Nada mais. Você deveria se dedicar principalmente a livros vendáveis, dos quais há muitos. E, se por acaso um cliente necessitar um livro que você não tenha no momento, tome o pedido e depois mande buscar. Além disso, não há razão para que demore como você pensa. Que venha por avião, logo que o cliente pague os custos adicionais. Se o cliente não aceitar a proposta de antemão, que se lixe. Que mande buscar o livro pessoalmente e veja quanto terá que pagar e quantas chatices terá que suportar. Você pouco perderá. Aliás, por não ter seu dinheiro empatado como o tem com livros invendáveis, acabará realizando muito mais no fim do ano." "Não é tão fácil," Ruano afirmou. "Para trazer livros de fora necessito importar quantidade, ou os custos tornar-se-ão imensos. Além disso, nada se faz em Caracas sem compensar a vagabudagem na alfândega..." Uma vez mais vi que a conversa não iria a parte nenhuma. Já era de anos sem que chegássemos a uma conclusão. Ruano continuaria a trabalhar, esperando um dia realizar o suficiente para justificar seus esforços. O que jamais aconteceria. Pelo menos como dirigia sua livraria. No dia seguinte parti não sei para onde. É dizer, continuei minha viagem. Tempos após, necessitei regressar à América do Sul, desta vez dirigindo internacionalmente uma outra companhia que publicava livros em vários idiomas, um deles, FUNDAMENTOS DE PROSTODONCIA FIJA, do Professor Dr. Herbert Shillingburg, da Universidade de Oklahoma, de grande aceitação no mundo espanhol. Foi então que decidi ensinar ao meu amigo Ruano o que deveria fazer para melhorar sua vida como livreiro. Parei novamente em Caracas, trazendo uma enorme mala de mais de quarenta quilos carregada com a obra de Shillingburg. Por sorte, e por conhecer pessoal de balcão das linhas aéreas em St. Louis, não necessitei pagar cargos adicionais. É dizer, a mala chegou à Venezuela como parte da minha bagagem sendo despachada na alfândega sem que a abrissem. Era uma mala de turista que, graças às rodinhas de sua base, e ao facto que era nova, eu não tive dificuldade em puxar até ao táxi ao lado de fora do aeroporto. No Hotel Tamanaco, no entanto, o bagageiro queixou-se da carga, sendo a queixa abafada por uma generosa gorjeta. Dirigi-me imediatamente ao telefone, o qual liguei para Ruano. Sentia-me alegre, reconhecendo que no dia seguinte ajudaria a um amigo de muitos anos e a comprovar o que havia afirmado em várias ocasiões. Ruano não estava, disse-me sua senhora. Mas esperava chegar de Valência no dia seguinte e se encontrar comigo no Tamanaco pela tarde. Apesar de ter outros clientes em Caracas, não os visitei. Aquela paragem era para Ruano e mais ninguém, o qual, assim esperava, seria doravante meu trunfo na Venezuela. Através de seus esforços já me imaginava vendendo milhares de livros odontológicos naquele país, onde a falta de material actualizado em espanhol era notável. Além disso, em Ruano teria um homem que se esforçava, e que abriria campo para outras obras que minha companhia esperava publicar em espanhol. Dizer que a manhã do dia seguinte, portanto, foi uma que desfrutei sob o sol tropical e a beleza da piscina do jardim do Tamanaco não seria exagerar. Quando chegou a hora do almoço, senti-me rico e feliz. Eu, Manuel Luiz da Ponte Rezendes, de São Roque, Ilha de São Miguel, neto de camponeses... Eu, Manuel Luiz da Ponte Rezendes...no Hotel Tamanaco, servido à mesa com a maior delicadeza, no alto de Caracas, onde as montanhas na distância eram meu horizonte, minha vitória. Ruano chegou pelas quinze horas. Infelizmente, como indiquei, Ruano era mais bibliotecário que livreiro. Quando o levei ao meu apartamento para mostrar-lhe os livros que haviam chegado a Caracas sem cargos aéreos, sem gastos alfandegários, e que, além disso, teriam grande aceitação nas faculdades do país, como entre dentistas, esperava que Ruano se sentisse tão contente como eu. Ruano, no entanto, necessitou examinar os livros um por um, tirando-os da mala como se a carga consistisse de vários títulos. "Ruano," por fim disse. "São todos iguais. Com este título você quebrará galho e verá que os demais que publico em espanhol terão grande exito. Este título, por exemplo, você venderá a gerações de dentistas. É um livro que você importará futuramente em grandes quantidades. De repente Ruano começou novamente seu miserável "fado" de anos anteriores. "É que você não sabe, Ponte. Neste país o mercado não é tão fácil como você julga. O dólar do livro hoje vale sete bolívares e meio, o que faz este livro valer mais ou menos trezentos e quinze bolívares. Ninguém paga este preço por um livro deste género em Venezuela." "Ruano," respondi. "Você cobraria trezentos e quinze se tivesse que pagar frete, direitos, etc. Verdade que o livro tem um preço de U. S. $42.00, mas eu faço-lhe um desconto de 40%. É dizer, você compra o livro por U. S. $25.20. Já ganha um montão logo que venda o que eu trouxe por $50.00. É dizer, se o vender por mais ou menos duzentos bolívares, que é realmente o câmbio oficial." Ruano pensou. Por minha parte, sabia que Ruano era comerciante e que aproveitar-se-ia da oportunidade. Além disso, sabia que Ruano iria estudar o mercado com aquela carga e descobriria que eu lhe havia proporcionado uma belíssima oportunidade. Foi então que me entusiasmei ao ver Ruano pegar em dois livros que havia colocado sobre uma mesa do apartamento. "Bem," por fim disse, "levo estes dois exemplares." Não sei que senti naquele momento. Dirigi-me a Ruano e pequei-lhe pelo fundo das calças, levando-o à porta do apartamento. Enquanto o fazia, gritava loucamente. "Filho de p..., filho de p..., trouxe quarenta quilos de livros só para ensinar a você que não é necessário que um livreiro tenha um livro de cada título publicado para que ganhe a vida. Ofereci-lhe uma oportunidade, e você prefere continuar chorando, desfazendo minha integridade..." Não sei que mais disse. Só me lembro de que quando terminei, já Ruano estava fora do apartamento a caminho do elevador. Quando me acalmei, reconheci um outro problema que não tinha programado nos meus planos originais. Na noite seguinte teria que viajar a Buenos Aires. Verdade que naquela cidade encontraria mercado para os livros. No entanto, faltavam-me a força e o incentivo para carregar novamente com a enorme mala. Desanimado, abandonei o apartamento, descendo novamente ao jardim. Ao chegar a hora do jantar nem apetite tive. No entanto, enquanto meditava, ocorreu-me que, em realidade, talvez eu tivesse vivido minha vida sem reconhecer que o que eu fazia não era tão importante como eu julgava. Como foi possível que apesar de meus conhecimentos, e da atenção que me era prestada, havia quem não confiasse de mim? Ou gente a quem eu jamais influenciaria, nem com actos de boa vontade? Não hesitei em me recordar do tal provérbio de "quem lava cabeças a burros..." Pouco a pouco, no entanto, a estrelas começaram a aparecer e, sob sua luz, os sons da noite tropical a penetrar minha meditação. Foi então quando me senti extremamente solitário, apesar de conhecer todos os rincões ao meu redor. Senti necessidade de regressar a casa, ao seio de minha família, ou de abandonar minha carreira de uma vez para sempre. Havia chegado por primeira vez a Caracas vinte anos antes e parado naquela cidade em várias ocasiões, sempre tentando deixar algo atrás que justificasse meus esforços. A verdade, no entanto - e isto foi o que mais me decepcionou - é que havia feito somente o que os que lá se encontravam me haviam permitido. Parte de meus feitos consistiam em haver escutado Ruano lamentando sua sorte, quando, realmente, o miserável tinha solução de seus alegados problemas à sua frente. É dizer, sentia que, apesar de meus esforços, pouco havia feito com relação ao meu próprio trabalho. No entanto, assim assumi, na distância e na minha ausência, minha família em St. Louis talvez vivia crendo que algo positivo resultaria do tempo que eu passava fora de casa. "Una pantalla," como dizem os argentinos ao reconhecerem o falso valor do que lhes é de quando em quando apresentado. "Una pantalla," comentei olhando para o céu. Foi talvez naquele momento que decidi me aposentar uma vez que a idade e meus poderes económicos me permitissem. No entanto tinha que despachar os livros de qualquer maneira. Regressei ao apartamento, onde os coloquei novamente na mala. Como se a verdade me tivese sido revelada durante o dormir, pela manhã sabia que os livros não partiriam comigo para a Argentina. De tal forma que, após o pequeno almoço, peguei na mala e dirigi-me ao lado de fora do hotel onde tomei um táxi. O motorista não sabia o que dizer ao colocar a mala no automóvel. Perguntou-me para onde. "À Faculdade de Odontología da Universidade Central," respondi. Ao chegar, peguei novamente na mala, levando-a ao vestíbulo da faculdade. Uma vez dentro, informei ao primeiro estudante que encontrei que tinha uns cinquenta Shillingburgs em espanhol para vender. Abri a mala e mostrei-los. "Como os conseguiu," perguntou. "É um dos dois livros recomendados em prótese, mas é raro que o encontremos. Quanto cobra por cada?" "Cento e oitenta bolívares," respondi. Na época tudo era caríssimo na Venezuela. O dólar valia pouco e por isso sua conversão em mercadoria era multiplicada por um factor absurdo. Cento e oitenta bolivares, apesar de ser oficialmente o equivalente de quarenta e cinco dolares, era algo dentro do padrão económico de muitos venezuelanos - um valor, no entanto, que pouco comprava na Venezuela. Vendi todos os livros que tinha em menos de duas horas, ficando somente com a mala. Desta vez, completamente vazia. De repente, enquanto caminhava à parada de táxis cerca do hospital universitário, ouvi um grito. "Caballero! Caballero! Oiga!..." Sabia que o que eu tinha feito não era permitido, visto haver no edifício adjacente à Faculdade de Odontologia uma livraria universitária cujo proprietário, um colombiano chamado Sandoval, era conhecido meu. Aquela livraria era a única entidade autorizada pela universidade a vender livros naquela zona. Não me senti bem, portanto, ao ouvir a voz. Continuei caminhando quando um estudante sorridentemente me ultrapassou, pronto a entregar-me duzentos bolívares. "Um Shillingburg, por favor," disse. Por um momento fiquei sem saber como responder. Por fim, pedindo desculpa, disse: "Pena. Mas já não tenho mais." "Vem mais tarde," perguntou o estudante. "Não," respondi sem saber como conter as lágrimas que se aproximavam. "Não, não venho mais. Me desculpe." Acabei oferecendo-lhe a mala vazia. "Talvez possa usá-la," disse voltando as costas. Foi a última vez que o vi. Regressei ao hotel antes do meio dia. Fui à caixa e paguei minha conta. Era hora de almoçar. Após o almoço, dirigi-me ao meu apartamento para colher a bagagem antes de a deixar com o "concierge" até minha partida para o aeroporto. Ao chegar ao apartamento, no entanto, encontrei uma nota indicando que eu telefonasse ao Ruano, o que fiz imediatamente. "Ruano," disse antes de pedir-lhe desculpa por meu procedimento da noite anterior. "Se você me chama para aumentar sua compra, esqueça-se. Esta manhã vendi os livros no vestíbulo da Faculdade de Odontologia." Ruano não respondeu imediatamente. "E por quanto vendeu cada um," por fim perguntou. "A cento e oitenta bolivares." "Cento e oitenta bolivares," gritou Ruano. "Você foi defraudado. O livro valia pelo menos trezentos. Duzentos e setenta após o desconto, e se for pago à vista. Você foi defraudado..." Não. Não fui. Aliás, o evento ensinou-me muito com relação à vida. Nos incidentes que descrevi apresentei um homem (Ruano) que já há muito havia decidido sofrer sua alegada má sorte. Por outra parte descobri que nem todas as más sortes são casos sem solução. Muitas vezes vale mais deixá-las continuar que tentar resolvê-las. Verdade que quando levei os livros para Caracas não o fiz por altruismo, mas, sim, para comprovar que havia mercado para minhas publicações na Venezuela do qual eu esperava desfrutar. Talvez, como indicou Ruano, tivesse vendido minha mercadoria abaixo de seu preço normal naquele pais e sido "defraudado". Se assim foi, não sei. O único que descobri, no entanto, foi que em tudo o que fazemos há geralmente aquela "pantalla" que, apesar de nos apresentar a "verdade", encobre-a simultaneamente. Aliás, em oferecer a mala vazia ao estudante, talvez fi-lo para que ambos acabássemos ganhando do nosso encontro. O jovem tinha-se aproximado de mim para comprar um livro. Eu, por minha parte, necessitei deixar a mala atrás para assim comprovar que não errei quando a levei para Caracas. Um dia após minha chegada a Buenos Aires, contei o caso a um amigo, Jorge Modyevsky, o qual, com uma visão procedente do judaísmo de seus pais e de uma cultura que combina a sofisticação "portenha", acabou por revelar uma vez mais o valor da tal "pantalla". "Ponte," afirmou Jorge. "Necessitas viajar mais frequentemente a esta parte do mundo, porque só cá poderás descobrir a vida. Nesta nossa 'pantalla' ensinamos como apresentar o que queremos ver, e o que queremos que outros vejam. No processo jamais chegamos a realizar nosso potencial a não ser que reconheçamos que nem todos os becos tapados sejam realmente pontos sem saída. Muitas vezes é necessário que guindemos a parede que se apresenta à nossa frente. Mesmo que não saibamos o que se encontra no outro lado. Porque assim é a vida - um beco sem saída, mas com saída. "Una pantalla". St. Louis, Missouri Páscoa, 1996 Manuel L. Ponte Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o JavaScript terá de estar activado para que possa visualizar o endereço de e-mail Acrescentar como Favorito (190) | Refira este artigo no seu site | Visualizações: 2367
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