CARTA DA AMÉRICA CONFISSÃO AO PADRE MONTEIRO |
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Há dias recebi uma carta electrónica (e-mail) procedente do Pico da
Pedra, Açores, onde o corespondente perguntava se eu me encontrava bem.
Seu inquérito foi motivado pelo facto que já há muito a CARTA DA
AMÉRICA, de minha autoria, não aparece no Açoriano Oriental. Além disso
o correspondente queria saber se me achava mal com alguém naquele
jornal, ou, caso negativo, se todas as recordações que tinha de São
Miguel já haviam passado ao desvanecido. A verdade é que não estou zangado com ninguém, a não ser que me sinta um pouco chateado com Gustavo Moura por recentemente me haver feito um favor onde sem dúvida gastou um conto ou dois sem nunca me enviar conta. Sem sua ajuda ainda estaria esperando documentos que necessitava para resolver um caso que tenho em Ponta Delgada. Quem estiver interessado em conhecer mais detalhes sobre tal caso deveria consultar a "série", VINHO DEMAIS NO ALMOÇO, ou visitar a casa, ou o que resta dela, na Rua do Barão das Laranjeiras, 12, em Ponta Delgada. Quem o fizer não terá dificuldade em estacionar carro, visto a Câmara Municipal de Ponta Delgada haver demolido meu património sem minha autorização. Não sei que azar minha família tem desde que meu pai decidu emigrar para a América em 1944. De quando em quando, graças a tal decisão, João e Isabel de Jesus Ponte, têm herdado herdeiros por todos os lados, apesar de em seu testamento demonstrarem que seu único herdeiro sou eu. Tudo começou com um talhão de Louça da Vila (Uso letras maiúsculas visto para nós micaelenses aquele artigo ter um valor cultural talvez tão importante como o nome de nossas freguesias). Desconheço se aquela indústria ainda existe, ou se os oleiros de então cobram hoje seus cheques mensais do Seguro Social nos Estados Unidos. Além disso, a última vez que estive em São Miguel não vi ninguém de burrinho (de automóvel, sim - de burrinho, não). E, como todos da minha época ainda se devem lembrar, jamais poderá existir Louça da Vila sem o homenzinho que a apregoava enquanto caminhava ao lado daquele fiel animal. Ah, como tenho saudades de ouvir aquele brado - no nosso sotaque, naturalmente, e não em sotaques fictícios - "Eh, Louuuuuuça da Vilaaaaa!" Bem. Regressemos ao talhão. Antes de fazê-lo, no entanto, há que educar a nova geração explicando nem só o que é um talhão, mas para que servia. Verdade que, dada a curiosidade humana, já muitos se encontram com o nariz no dicionário - e totalmente confundidos - visto nos dicionários modernos a palavra "talhão" não ter nada a ver com a tal famosa louça. Sugiro, portanto, que vejam a palavra "talha" e que imaginem algo maior que tal objecto. De qualquer modo, sugiro que passem pelos Números 2 e 4, Rua Praia dos Santos, em São Roque. Para quem não é corisco, refiro a São Roque, em São Miguel. O prédio foi em tempos passados propriedade de meus avós paternos e, ainda hoje, pertence a primos, descendentes do lado Mello/Melo da família. É dizer, em termos de DNA o prédio tem cambiado pouco. Por muitos anos conheci um enorme talhão na cozinha no Número 4, o qual, todos sabiam, havia sido parte do dote de minha mãe. Meu avô, António da Costa Afonso ("Figueira"), sendo homem do campo e práctico, sabia que, mesmo nos arredores de Ponta Delgada onde meus pais fixaram residência, a água potável nem sempre chegava às casas mesmo que elas estivessem devidamente canalizadas. Para ele, então, o talhão era algo essencial - aliás a diferença entre a vida, a morte, ou ir a uma das fontes municipais buscar água numa lata. Em 1942, ou '43, no entanto, os irmãos Ponte Rezendes tiveram que vender o prédio para que, assim satisfizessem as dívidas. Por sorte, a propriedade foi comprada por um primo, Manuel Jacinto de Melo. Manuel Jacinto sempre foi muito trabalhador, dinâmico, e ambicioso. Naturalmente, visto ser da família, pemitiu que ao transferir a propriedade deixássemos atrás alguns utensílios que não usaríamos - ou para os quais não teríamos espaço - nas nossas novas residências. Entre eles achava-se o grande talhão. Em 1944 meu pai emigrou e, ao gostar do que encontrou por estas partes, em breve nos informou que nos "chamaria". Foi então quando minha mãe decidiu vender os artigos que não traríamos para a América. Sua primeira decisão foi vender o banco de ferramenta de meu pai, o qual ele raramente usava visto entre 1936 e sua partida para a América trabalhar na antiga Socony-Vacuum Oil Company, primeiro como ajudante de armazém na Canada dos Bois, em seguida na bomba de gasolina na Matriz, e, finalmente, como motorista distribuindo querosene por toda a ilha. Naquela época as residências eram na maioria iluminadas por aquela forma de combustível. Negócio feito com o Mariano"Pimpoula", da Liquidadora, em seguida foi necessário olhar para que mais liquidar. Eis, então, o talhão. Manuel Jacinto, naturalmente, reconhecendo que o talhão não emigraria connosco prestou pouca atenção à demanda de minha mãe. Além disso, visto já o ter na Loja no Número 2, onde guardava cebolas curtidas para os clientes do botequim, jamais pensou em se separar de tão precioso artigo. Além disso, nunca sugeriu a minha mãe que estaria disposto a pagar nada por ele. E há que reconhecer que, já naquela época, os oleiros da Vila Franca não faziam talhões tão grandes como o que o Manuel Jacinto usava. Naturalmente, sempre que minha mãe passava pela loja crescia-lhe um nó na garganta em saber que seu talhão - parte seu dote, realmente - se encontrava em mãos alheias. Como sabemos, a justiça micaelense da época era relativamente primitiva. Só se levava gente à "Esquadra" em caso de assaltos pessoais, roubos, etc.. Jamais alguém levaria um parente à "Esquadra" por um talhão. Foi então quando Isabel de Jesus da Ponte decidiu se aproveitar da fraqueza de Manuel Jacinto para ganhar seu ponto. Meu primo sempre foi uma pessoa altamente religiosa - um "defeito" dos Melos. Em São Roque da época pouco se realizava religiosamente sem que os Melos - principalmente os da família de meu tio Jacinto de Melo - se comprometessem em ajudar. Manuel Jacinto nasceu e sempre viveu naquele ambiente. Infelizmente, como sabemos, quem se rende de tal forma à religião - o que significa entregar sua liberdade a padres - acaba por perder parcialmente seu conceito de razão, ou decisão. Algo que minha mãe, apesar de nunca haver frequentado nenhuma escola, conhecia. Uma manhã, no entanto, ouvi minha mãe me mandar vestir com a melhor roupa que eu tinha. Íamos à missa - coisa rara, realmente. Principalmente em dia de semana. Aliás ela ia à confissão. Outra raridade. Não quero detalhar o que passou. O que sei, no entanto, foi que minha mãe me contou mais tarde o que tinha confessado. Ao ajoelhar, sabia que no outro lado se encontrava o Padre Jacinto Monteiro a quem contou que não se sentia bem em enfrentar o mar entre São Miguel e a América uma vez que emigrasse sabendo que jamais poderia perdoar o Manuel Jacinto por lhe haver tirado o talhão. Isabel de Jesus da Ponte então contou tudo ao padre e não lhe importou quantas Ave-Marias recebeu como penitência para limpar alma. Aliás, após a missa foi de propósito à sacristia contar que sua alma se achava ainda dura por não poder haver perdoado meu primo. Três dias após, Manuel Jacinto passou por nossa casa e ofereceu 40$00 pelo talhão. Negócio feito. Mais um herdeiro eliminado. Ao olhar para trás, e ao recordar as dificuldades das vidas de então, sinto uma necessidade de perguntar se a vida é algo lógico, ou um drama onde o sério, visto da distância, apresenta realmente uma comédia. É ao mesmo tempo interessante reconhecer que muito do que para nós é essencial tem no final pouco valor. Meu pai, a quem minha mãe contou a história do talhão como comprovante que ela havia guardado nossos bens enquanto ele se encontrava emigrado faleceu em 1986. Minha mãe, em 1996. O Padre Monteiro que violou os elementos da confissão, aliás em ser usado em favor da justiça, também já não se encontra connosco. Manuel Jacinto, que ainda vive em Hyde Park, Massachusetts, hoje sofre da Doença de Alzheimer, aquela infelicidade na qual a vida eventualmente desaparece, até que o corpo a acompanhe. É dizer, nada é realmente nosso - a não ser o amor que nos motiva em fazer dos anos que nos restam, sejam eles muitos ou poucos, um mundo que nos deixe olhar trás enquanto simultaneamente perguntamos: "Foi interessante, não?" E algumas vezes divertido. St. Louis, Missouri, 9 de Abril de 1998 Manuel L. Ponte Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o JavaScript terá de estar activado para que possa visualizar o endereço de e-mail Acrescentar como Favorito (220) | Refira este artigo no seu site | Visualizações: 2401
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