CARTA DA AMÉRICA "FIDDLER ON THE ROOF"/"O VIOLINISTA NO TELHADO" |
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Interessei-me originalmente por "Fiddler on the Roof" por várias razões: 1. A admiração que tenho pelo contributo intelectual judaico nos Estados Unidos. 2. A magnífica música que anima a peça. 3. O drama poético que nos seus líricos acompanha tanto a história como a música. Há dias, no entanto, lembrei-me de "Fiddler on the Roof" e enchi-me de temor e raiva enquanto me recordava daquela peça que tanto me havia feito chorar. Por acaso, ao meu redor o mundo vibrava de alegria. Uma hora antes da minha inesperada emoção, Nancy Lipsitz e Kirk Barton, dois jovens médicos judeus, haviam contraído matrimónio, e agora, prontos a celebrar o evento, entravam no salão onde umas duzentas pessoas esperavam compartir do momento. A orquestra explodiu numa série de trechos oriundos da tradição judaica da Europa Central quando, de mãos dadas, os recém casados começaram a bailar, ligando-se com o resto dos seus familiares, amigos, enfim, todos os quizessem juntar mãos e entrar na espiral que crescia conforme a música. Quem não se atrevia a bailar batia palmas, criando uma percussão da qual todo o mundo participava e simultaneamente disfrutava. "Fiddler on Roof" apresentou algo similar. A única diferença do que aconteceu durante a boda teatral e o que não aconteceu na boda de Nancy e Kirk foi exactamente aquilo que me causou o temor e raiva a que aludi. Em "Fiddler on the Roof", enquanto os participantes se divertiam, as autoridades, sem causa além da estupidez, acabaram por terrorizar uma gente pobre e humilde cuja missão era continuar suas tradições enquanto esperava pelo Messias. Verdade que nem todos os membros da autoridade acreditavam no que faziam, apesar de, na sua necessidade de obedecer à injustiça que serviam, acabarem por participar no crime que cometiam. Chorei, então, tanto pelas vítimas do terror teatral, como pelos terroristas. Não sei porque na boda de Nancy e Kirk esperava que o que ocorreu na boda teatral passar-se-ia a qualquer instante. Estava na América, onde tais incidentes não devem existir. A emoção do momento, no entanto, não me permitia bater palmas. Em seu lugar, meus punhos se encontravam cerrados, como se esperassem a agressão. Em vez de mirar a espiral que crescia, mantinha-me como para proteger minha filha, Mary Beth, cujo marido é judeu. Ao mesmo tempo, sentia-me seguro por saber que suas duas filhinhas, que minutos antes haviam estado no salão da recepção, agora se encontravam em casa, livres do perigo. É dizer, sentia que a estupidez humana não seria suficiente naquele momento para terminar a continuidade de viver. Como nem terminou com a vida das vítimas na peça teatral. "E agora," perguntou um dos protagonistas. "Agora, rabino, como será possível partir de aqui. Como encontraremos o Messias?" "Que importa," respondeu o velho professor. "Se não aqui, encontrá-lo-emos noutro lugar." Naturalmente, nada do que esperava emocionadamente aconteceu na boda. Minha reacção foi nada mais que algo causado talvez por uma pseudo-interpretação como se os acontecimentos da noite fossem um tipo de Teste Rorschach que, em lugar de borrões de tinta negra, apresentava figuras ao vivo. Foi uma festa deslumbrante. No entanto, apesar do êxito da noite, a reflexão do que me aconteceu pessoalmente parece não desvanecer sem que eu saiba porquê. Em primeiro lugar, não sou judeu. Não tenho direito, portanto, de sentir o terror que nunca foi meu. Minha história pessoal não apresenta detalhes de que alguém na minha família teve que abandonar seu ambiente, ou perder a vida, simplesmente por ser diferente ou mais fraco que os demais. É dizer, o insulto de "Fiddler on the Roof" não me cabe recordar. A ironia é que, em muitos aspectos, me sinto judeu. Sempre acreditei na evolução histórica para que assim possa orientar meu futuro. Aliás, apesar de crer em Deus com toda a fé que me foi imposta, creio simultaneamente que o único paraíso que Deus nos deu encontra-se entre nós. Com isto não quero insinuar que a vida eterna seja um mito, visto a eternidade ser algo que não me preocupa. Creio, no entanto, na minha responsabilidade perante tal eternidade. Desejo, por exemplo, deixar atrás um mundo melhor, onde o homem possa se exaltar por reconhecer sua beleza e o máximo que possa enfrentar em todas as suas dimensões. Interessante que em "Fiddler on the Roof" o passado é repetido por tradição apesar de que, mesmo dentro dos poucos limites que eram permitidos aos residentes de Anatevka, a aldeia onde viviam, as tradições eram pouco a pouco quebradas. De discordos nasciam uniões - e assim a vida continuava. Na cerimónia matrimonial de Nancy e Kirk, por exemplo, o rabino chamou à atenção não sei quantas vezes à responsabilidade dos pais para que no seu procedimento pessoal façam com que seus filhos adquiram asas. Quantos entre nós, principalmente a gente açoriana no seu isolamento, olhavam para os nossos horizontes, onde o céu topava com o Atlântico, e imaginavam o que fariam se a tal ponto pudessem chegar. "Tivera eu asas," um dia ouvi um homem humilde dizer, "para lá chegar. Seria lindo ver o que está no outro lado." Apesar de recordar o passado, o rabino ao unir os dois jovens parecia falar mais do futuro como se algo estivera ainda por chegar. Talvez o Messias. Quem sabe? Apesar da tradição - os noivos, por exemplo, celebraram sua comunhão bebendo do mesmo cálice onde antepassados do noivo haviam bebido em 1860 na Alemanha - apesar da pseudo Tenda de Moisés formada pelo xale de reza do avô da noiva, a evolução parecia ser o destino dos dois que se uniam naquela noite. Olhava-se para o passado, só para que assim se criasse um futuro. Ao regressar a casa com minha esposa à volta da meia noite, passei horas meditando no que tinha observado. Nancy e Kirk entraram na minha vida pelo simples facto que Nancy é prima de meu genro, Allen. Kirk é natural do Estado de Tennessee e, como sua esposa, estudante médico no Estado de Nova Iorque, faltando-lhes um ano a cada para que terminem seus respectivos pré-estágios. Desconheço onde um dia montarão residência. Sei, no entanto, que ao começarem sua vida fizeram-me recordar a dupla capacidade de sentir por outros enquanto simultaneamente sentia por mim. Por acaso, uma vez que a música tradicional deu lugar à moderna, olhei para minha filha e senti-me aleviadamente feliz. Graças à família que escolheu para montar sua própria família, Mary Beth havia-me transportado ao que existia no outro lado do horizonte, a sentir o terror da injustiça, e, talvez sem reconhecer o facto, havia-me também oferecido asas com as quais continuo enriquecendo minha vida. "O Violinista no Telhado" vive precariamente. Em qualquer momento pode tombar para qualquer lado. No entanto, sua posição no alto oferece-lhe a capacidade de ver mais que os demais. Na boda de Nancy e Kirk, acabei, então, sendo o "violinista" apesar de desconhecer o instrumento. Talvez ninguém tivesse olhado para mim, ou escutado minha música. Foi impossível no entanto me sentir solitário apesar da festa que observei não ter sido minha. Porque, realmente, a festa era de todos nós e, em muitos aspectos, éramos todos "violinistas". St. Louis, Missouri, 12 de Junho de 1992 Manuel L. Ponte Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o JavaScript terá de estar activado para que possa visualizar o endereço de e-mail Artigo publicado originalmente no AÇORIANO ORIENTAL (Ponta Delgada) e PORTUGUESE TIMES (New Bedford, Massachusetts). Acrescentar como Favorito (199) | Refira este artigo no seu site | Visualizações: 2063
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