CARTA DA AMÉRICA ADEGAS E VINHAIS DE MISSOURI

"Um ano após a ratificação deste artigo, o fabrico, a venda, ou o transporte de licores, ou a importação para dentro, ou exportação desde os Estados Unidos e de todos os territórios sob sua jurisdição, para uso como bebidas, são doravante proibidos.

"O Congresso e os estados terão poder simultâneo para enforçar este artigo através de suas respectivas leis..."

Como podemos anotar, os dois parágrafos referem-se especificamente aos Estados Unidos. Aliás, são os primeiros dois dos três que a 29 de Janeiro de 1919 foram ratificados, (Emenda XVIII, Constituição dos Estados Unidos da América) assim "eliminando" de uma vez para sempre a "praga", o "pecado", o "vício", enfim, o mal do alcoolismo na América.

Felizmente houve gente suficientmente inteligente para que a 5 de Dezembro de 1933, aquela emenda fora anulada pela Emenda XXI. No entanto, graças às restrições da Emenda XVIII, e ao facto que nenhuma legislação jamais ultrapassa o poder popular, o país continuou a beber, usando em lugar de indústrias legítimas todos os meios ilegais a seu dispor. Quanto às indústrias legítimas, muitas acabaram sem que a nação as tivesse compensado por sua estupidez em tentar impor a moral através da legislação.

Missouri foi um dos estados mais prejudicados pela Emenda XVIII, visto a produção de bebidas alcoólicas ser uma de suas grandes indústrias.
Verdade que, após a Emenda XXI, o estado recuperou parte do que havia perdido. Aliás, como sabemos, a Budweiser, da Anheuser/Busch de St. Louis, é hoje talvez a cerveja mais vendida no mundo. A indústria vinícola, no entanto, que antes de 1919 dava a Missouri o título de segundo maior estado produtor de vinhos na América, e cujos vinhos haviam conseguido grandes reconhecimentos nacionais e internacionais, só agora pode dizer que haja regressado à competição mundial com vinhos cujas qualidades traçam seus atributos a vinhas locais, como a híbridos cujos antecedentes foram originalmente cultivados nas melhores regiões vinícolas europeias.

Apesar de me contar entre quem não pode tomar bebidas alcoólicas com grande facilidade, além do simples copo de vinho num almoço, ou jantar, confesso que sinto um certo prazer em visitar adegas e vinhais. Talvez deva aquele "vício" à minha juventude quando, em Agosto, participava nas vidimas na Canada de João Leite, em São Roque, São Miguel, onde minha família fazia um pedaço de terra, as quais eram seguidas pelo tal "vinho doce" já meio "fervido". Ainda hoje, apesar de mais de meio século na América, conto os refrescantes gasosos de uva entre os meus favoritos. Talvez por saudades daqueles tempos.

Por sorte não necessito viajar longe de minha casa, em Olivette, para que possa visitar pelo menos umas quinze adegas e vinhais, cada com ambientes distintos e típicos de suas respectivas localidades. Basta dizer que cada adega é devidamente influenciada por sua relação ao Rio Missouri e aos descendentes de europeus que insistem em manter tradições que, em muitos casos, representam mais de século e meio de assimiliçãao na cultura americana.

Por sorte, a Emenda XVIII, apesar do que fez para acabar com a indústria vinícola, e em destruir vinhais não conseguiu eliminar totalmente alguns dos edifícios daquela indústria. Como, por exemplo, os da Stone Hill Wine Company, que em seu tempo chegou a ser a terceira maior companhia vinícola mundial, e cuja adega principal, a maior dos Estados Unidos, encontra-se numa elevação da qual podemos observar o vale do Missouri, e a tradicional Vila de Hermann (Favor anotar o nome alemão), onde um pouco da antiga terra teutônica parece desaparecer no "Midwest" americano. É de notar, no entanto que, além da adega, a Stone Hill conta também com um magnífico restaurante, onde um almoço completo para quatro pode ser disfrutado por aproximadamente U. S. $40.00, incluíndo impostos e gorjetas. A Stone Hill, no entanto, não é a única adega e vinhal de Hermann. Sua vizinha, a Hermannhoff Winery, apesar de um pouco mais pequena, hoje encontra-se designada como "Local Histórico Nacional", graças à tradição por ela implantada desde 1852. Para quem não tem dinheiro para gastar em turismo, além do que necessita para sua manutenção, a Hermannhoff oferece uma tarde de "tours" gratuítos, onde o visitante é "transportado" a uma América onde uma autêntica Alemanha parece nunca haver morrido. Além disso, a comida servida em qualquer de seus restaurantes, ou na Festhalle durante os festivais típicos, é muito mais barata que seu congênere em qualquer parte da Europa - e, principalmente, na Alemanha.

Para qualquer tradicionalista, no entanto, um dos grandes prazeres em visitar as adegas e vinhais de Missouri é o facto que na maioria das construções parece existir algo criado para sempre e não o plastificado para os tempos modernos, onde a eficácia, e não a estética, parece predominar. Na Adam Puchta Winery, por exemplo, localizada também em Hermann, encontra-se uma adega/cave cuja arquitectura parece não haver evoluído desde 1855, mas que se adaptou sem que o modernismo a dominasse.

Apesar de nunca cansar-me de Hermann, e de preferir aquela vila a outras situadas a uma hora de minha casa, tenho no entanto visitado outros locais que, apesar de haverem perdido sua raízes europeias e adaptado-se ao americanismo do seu ambiente, tentam no entanto fazer-nos sentir como se estivéssemos no outro lado do Atlântico. Há dias, por exemplo, minha mulher e eu almoçámos no jardim da Winery of the Little Hills, na Cidade de St. Charles. Para quem desconhece, St. Charles, fundada por franceses, foi a primeira capital do Estado de Missouri. É território americano desde 1803, quando o Presidente Jefferson o comprou à França por uns poucos patacos, comprovando definitavamente o idiotismo de Napoleão. Foi de suas margens que partiram Lewis e Clark nas explorações que acabaram por abrir aproximadamente 25% do território nacional a gerações americanas futuras. De St. Charles partiram pioneiros que, há busca do ouro californiano, de terrenos intermináveis no Oregon, enfim, de fortunas, e no processo abriram o país onde anteriormente tribos indígenas viviam isoladas do resto do mundo. É dizer, em St. Charles quem caminha por suas ruas ainda acalcetadas com tijolos, ou estuda como aquela cidade é banhada pelo Rio Missouri, penetra numa América que já não existe mas que, para bem de gerações futuras, é nosso dever manter.
Infelizmente a comida na Winery of the Little Hills é tipicamente americana moderna, onde calorias valem tanto como o sabor. Aliás, apesar de sua história como ex-territorio francês, e por alguns tempos espanhol, ainda estou por encontrar no centro de St. Charles um restaurante que, em termos de comida, me transporte à Europa tradicional.

O que, realmente, é justo, visto a America, como as vinhas que oferecem a Missouri a qualidades híbridas de seus vinhos, ser igualmente um híbrido em suas demais qualidades. Que o que em outras culturas exista, portanto, não possa suceder totalmente na América, apesar dos esforços locais, é algo natural. Além disso, apesar do germanismo predominante em Missouri, há que reconhecer que, desde as grandes imigrações germânicas para este país, a América já em duas ocasiões necessitou enfrentar a Alemanha, cada vez numa guerra destinada a acabar guerras. Que o ódio e a separação nacionalística americana, então, tenham tido algo a ver com a trasformação, ou que a "imitação" americana da Alemanha do Século XVIII não seja realmente imitação, mas, sim, algo típico americano não é difícil de entender.
No entanto, vale a pena falar de como através de adegas e vinhais o povo nesta parte dos Estados Unidos tenta todavia atravessar o Atlântico, enquanto constantemente criando algo totalmente seu.

Em crónicas futuras, e caso me permita o editor, espero falar de outras adegas e vinhais de Missouri, além das acima mencionadas. O Departamento de Agricultura do Estado acaba de me enviar um livro onde figuram detalhes de trinta estabelecimentos do gênero, dos quais conheço vinte. Entre eles se encontra uma subsidiária da acima mencionada Stone Hill Winery localizada na pequena cidade de Branson, no sul do estado, um rincão que, devido ao seu isolamento na Serra dos Ozarks (Aux Arcs, no francês original), eventualmente manteve a tradição musical americana, "Country and Western", de tal forma que hoje compete com a grande cidade de Nashville (Tennessee) como centro predominante mundial daquela arte. Por acaso, um dos grandes artistas de Branson, apesar de haver estudado violino, e se especializado em música clássica europeia, enche seu teatro diariamente tocando música típica americana na sua rabeca. Seu sotaque tem pouco em comum com o dos Ozarks, ou de Missouri. O que é natural. Shoji Tabuchi é imigrante japonês.

St. Louis, Missouri
Manuel L. Ponte
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