No “jornalismo” português vale tudo |
|
A revista Men's Health vai passar, segundo escreve o Jornal de Notícias, a ser dirigida pelo actor Pedro Lima, apesar de este não ter carteira de jornalista como é obrigatório. A administração já admitiu que irá fazer um pedido nesse sentido. Ou seja, a administração vai ali ao quiosque da esquina e compra o título mágico que transforma um actor, ou um qualquer analfabeto funcional, não só em jornalista como em director. Não está mal.
É mais ou menos o que fazem no Burkina Faso com as linhas de enchimento das salsicharias.
E nem de propósito. Acabo de receber um mail de um administrador (amigo, obviamente) de um hospital português a dizer-me que a administração tinha iniciado o processo para que me fosse passada a carteira profissional de médico, tendo em vista a minha nomeação para director clínico…
O actor, modelo e apresentador Pedro Lima, também ex-atleta de alta competição é, a partir de ontem, director da revista masculina Men's Health, a convite do grupo Motorpress, apesar de não estar profissionalmente habilitado para tal.
Mas o que importa o título se, como todos sabemos, esta é uma república das bananas que, neste caso, tem nos jornalistas os macacos principais?
A directora de serviços da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ), Marília Monteiro, explicou que este não é um caso único, já que muitas pessoas desconhecem esta obrigatoriedade. Pois. É obrigatório comprar a Carteira Profissional, se se está ou não preparado, isso pouco interessa.
"O director [da Men's Health] é obrigado a ter carteira de jornalista ou pelo menos título de equiparado por se tratar de uma publicação jornalística”, esclareceu Marília Monteiro. Para ultrapassar a questão, basta, no entanto, requisitar à Comissão da Carteira o título obrigatório, sendo o pedido avaliado e deferido se estiverem preenchidos os requisitos necessários.
Estes requisitos são fazer prova, através do órgão de comunicação social em causa, de que a pessoa desempenha a função de director, e não exercer qualquer outro tipo de actividade incompatível com o jornalismo, como é o caso da publicidade. Traduzindo: não é preciso provar nada. Basta comprar os impressos e a Carteira.
"Quando decidimos procurar um director, sabíamos o que queríamos. Após alguns contactos surgiu o nome de Pedro Lima que se encaixava no espírito que procurávamos: alguém que se identificasse com a revista, que fosse desportista, que tivesse família e que pudesse trazer algum valor acrescentado", afirmou João Ferreira.
Por esta explicação se vê que o importante (que deveria ser condição sine qua non) não é ser Jornalista. O que conta é vender, nem que para isso se ponha como director a mais bela prostituta do Parque Eduardo VII em Lisboa.
“O actor foi atleta de alta competição, tendo participado nos Jogos Olímpicos de Seul e Barcelona, tem três filhos e uma reconhecida carreira na área da moda, desporto, televisão, teatro e cinema, o que é revelador do seu espírito empreendedor, versatilidade e vontade de vencer” acrescentou o administrador.
E é mesmo assim. Será que um dia destes ainda vamos ver o Eusébio como director do jornal “A Bola”?
Por último, deixem-me dizer-vos que ser Jornalista não é nada disto. Mas como é disto que Portugal parece querer viver, confirma-se que o Jornalismo está mesmo em vias de extinção. 04.Junho.2008
Acrescentar como Favorito (818) | Refira este artigo no seu site | Visualizações: 4683
Só utilizadores registados podem escrever comentários. |
||||