Alma Portuguesa - procura-se!

Fui passar parte da Semana Santa a Sevilha. Regressei no Domingo de Páscoa a Portugal. Mais uma vez aquela cidade me encantou!...

 

Muitas reflexões fiz, em conjunto com amigos, sobre o que via e pude constatar com alguma mágoa que o nosso Portugal está bem longe daquela realidade. Não falo do progresso económico que esse é evidente em todo o lado, falo da identidade cultural de um povo. Numa época de globalização total, a resistência cultural da Andaluzia ( e do resto da Espanha ) é notável. Vive-se a Semana Santa como há 20 ou 40 anos! Li artigos de jornais, das mais variadas tendências politicas, que referiam que apesar dos hábitos da juventude serem completamente diferentes as tradições continuam a atravessar transversalmente a sociedade. Pode-se não ser católico praticante, pode-se ter padrões de vida modernos, mas o sentimento de pertença a uma cultura e às suas expressões artísticas e religiosas mantêm-se com orgulho. O Andaluz não tem vergonha de ser jovem, eventualmente heterodoxo em termos sexuais, e "Costalero" ( homens que levam às costas os andores ) ou Nazareno ( membro de uma das 59 confrarias que existem na cidade e que desfilam nas procissões da Semana Santa ). Ao passar a procissão da sua confraria o Sevilhano canta, do meio da rua ou de uma varanda, uma "saeta" em homenagem à virgem, ao mesmo tempo que o entusiasmo se expressa nas palmas dos presentes e nas flores que se atiram para os andores. Todos procuram vestir-se de preto na rua, os mais velhos com trajes tradicionais, os mais novos com a roupa mais habitual da idade. Os jovens "costaleros" usam lenços, tipo árabe, à cabeça e, durante as paragens da procissão, enchem os bares bebendo e cantando enquanto outros que já lá estiveram voltam para carregar as toneladas do peso dos andores. Vive-se um ambiente de festa permanente que se prolonga por toda a madrugada até ao amanhecer. Como exemplo posso dar o da procissão da Virgem da Macarena que sai à meia-noite da igreja e só volta às 2 horas da tarde do dia seguinte! Ninguém dorme em Sevilha de 5ª para 6ª feira Santa! As praças e as ruas estão cheias durante toda a madrugada parecendo um S. João do Porto permanente. E fuma-se em todo o lado que se quiser ( são raríssimos os locais proibidos ) e come-se os doces tradicionais em qualquer parte e "pica-se" de tudo sem preocupações com a ASAE ou coisa parecida. Há um sentimento de catarse colectiva que começa a ser "ensinado" de muito novo. Crianças de 1 e 2 anos passeiam com os pais pela mão ou nos carrinhos de bebé vestidos a rigor para a festa. Tudo se leva a sério e ao mesmo tempo nada se leva a sério porque a festa é espontânea e os mitos imortais. Os povos da Espanha não têm cinzentos nas suas manifestações publicas!Pois é, à chegada à minha terra deparei com as nossas cidades vazias, as casas cheias de gente pregada nas televisões a ver futebol ou novelas; quis fumar uma cigarrilha e tive que ir para a rua; quis comprar um folar autêntico e veio-me embrulhado num papel com marca de fábrica; quis ver o compasso, os foguetes, as bandas de música - a festa de Jesus Ressuscitado - e só vi as aldeias e as igrejas vazias; quis dar um berro, de desalento ou de exaltação, e não tive ninguém a meu lado...Perdemos aos poucos a nossa identidade cultural! Temos um governo que se entretêm a legislar sobre todo e qualquer aspecto da nossa intimidade e dos nossos hábitos ancestrais ( das alheiras aos "piercings" vai tudo a eito...) e temos vergonha de nós mesmos!

Dizem-nos que é ridículo festejar a Páscoa, que já passou de moda vestir roupa tradicional, que não devemos expressar alegria em público, que devemos ser recatados com as convicções religiosas ou culturais...Ficamos anestesiados e temos medo de nos ver ao espelho da história! Bem lá no fundo não queremos ser nada só para podermos passar despercebidos e parecermos civilizados". De quem temos medo? Não sei! Como sobreviveremos sem alma? Também não!...
 
José Dias Egipto

28 Jun. 2008

 


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