A Norte da Pobreza

É com alguma dose de desencanto que escrevo este texto. Nunca fui apologista de regionalismos e de bairrismos exacerbados mas, ultimamente, tenho-me rendido a muitos dos argumentos dos que, vendo o abandono a que o Norte tem sido sistematicamente votado, apelam à regionalização.

 

Vozes como a de Rui Rio e de Rui Moreira são para mim sintomáticas. Gostaria,contudo, de ver mais debatido o assunto principalmente pelos partidos do chamado arco do poder.

De facto nascer e viver no Norte ( reconheço que em todo o interior também ) é ter uma desvantagem em termos de qualidade de vida em relação ao resto do pais. Não falo na qualidade de vida ambiental que essa felizmente ainda a vamos tendo, aqui e acolá,  mas sim no acesso aos meios mais modernos dos equipamentos e serviços que apesar de tudo o crescimento económico vai pondo ao serviço da capital e arredores. Ser do Norte em Lisboa é um estigma, algo que não é bem aceite pelos vários poderes instituídos. Somos encarados como algo primitivos e pouco educados para a vida mundana, sem o "polimento" cultural necessário à vida social das elites e ainda por cima, pobre de nós, falamos com sotaque. Os Alentejanos e Algarvios também o tem mas os lisboetas acham-lhes piada. Muitos associam ao Norte a riqueza e o novo-riquismo pensando-nos ainda nos anos 60-70 quando algumas indústrias prosperaram e criaram bolsas de ostentação obscena.

Não é preciso consultar muitos dossiers para constatar que os maiores níveis de pobreza estão no Norte, que a menor parcela de investimento público vai para o Norte e que o estado olha de soslaio para os poucos empreendedores e grupos económicos sedeados no Porto. Até parece que Lisboa tem medo que o Norte assuma a gestão do seu aeroporto, das suas infra-estruturas de ensino e de serviços, dos seus planos de investimento em qualquer área, enfim do seu desenvolvimento harmonioso. Vem logo uma directriz de Lisboa que regula, estrangula e debilita quem, com o seu capital financeiro, cientifico e humano, quer investir no Norte. Se algum nortenho chega a ministro é logo mal visto pelos corredores do poder não faltando quem à boca pequena o apelide de parolo e falho de competências. Um líder político para se afirmar tem que ir residir para Lisboa pois caso contrário fica rotulado de cacique e de "espertinho". Veja-se o que aconteceu com Fernando Gomes e Luis Filipe Menezes. Os nortenhos vem-se assim obrigados a "dissolverem-se" em Lisboa e apenas citar o Norte nas campanhas eleitorais na sua terra natal e depois nas suas biografias onde com saudosismo serôdio denotam algum orgulho póstumo.

Imagino o que seria o Norte ( bem maior que o Kosovo ou a Madeira, por exemplo ) se por artes mágicas se visse rodeado de mar e entrasse pelo Atlântico fora,  feito ilha. Teríamos com certeza autonomia, um líder regional e o respeito de Lisboa. Este raciocínio que parece simplista à primeira vista deixa de o ser se formos por esse Trás-os-Montes e por essas Beiras fora e sentirmos o isolamento das suas gentes, desprotegidas em tudo o que à luz da nossa civilização ocidental se torna hoje básico para viver com qualidade. Que força politica tem a região Norte para reivindicar seja o que for? Que desenvolvimento teriam estas regiões se, em parceria com as regiões de Espanha, tivessem a autonomia para seguir o seu próprio caminho? Basta atravessar a fronteira em qualquer ponto da raia para sentir as diferenças e, bem vistas as coisas, a paisagem é a mesma e as pessoas também. Perguntem aos Galegos as vantagens que a autonomia lhes tem dado. Vejam o seu grau de desenvolvimento, seja em que cidade for, desde as do litoral até Lugo e Orense. Que tem eles a mais que o Norte de Portugal? Apenas a autonomia em relação a Madrid que lhes dá iniciativa própria e a força reivindicativa que essa autonomia lhes traz. No tempo da ditadura a Galiza era enxovalhada pelo resto da Espanha, tida como a província mais rural, atrasada e inculta. Hoje ninguém em Espanha ousa falar de semelhante maneira.

Sonho um dia viver numa região nortenha, com parcerias com a Galiza e com Leon, que trace o seu futuro autonomamente e que tenha força para exigir a Lisboa a distribuição equitativa dos dinheiros públicos. E não me venham dizer que isso era criar mais meia dúzia de "reizinhos" porque esse argumento é falacioso e cai por terra perante o que acabei de demonstrar. Mesmo assim prefiro um líder regional forte que nos traga menos pobreza e mais desenvolvimento que uns comissários políticos a mando de Lisboa que deixem ficar tudo como está eternamente...

José Dias Egipto

16 Jul 2008 


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