Estamos todos fartos uns dos outros

É nos tempos de crise, económica e social, que melhor nos podemos analisar como povo. Parece que tudo vem ao de cima e que a nossa paciência se esgota perante tanto desencanto e ineficácia.

 

O português em crise consegue ser o mais crítico do vizinho e, ao mesmo tempo, o pior dos vizinhos. Como se de um espelho se tratasse vemo-nos tal e qual somos quando nos confrontamos com o modo de ser e de trabalhar dos nossos concidadãos. Desde que nos levantamos até que nos deitamos só vemos à nossa volta falta de profissionalismo e de eficiência. Esse sentido apurado de observação se por um lado nos  leva ao desânimo e a deixamos de nos incomodar com tanta inércia alheia, por outro – e por paradoxal que pareça – leva-nos também a não tentarmos melhorar os padrões do nosso próprio comportamento. Ficamos, assim, fartos uns dos outros e já não reclamamos de coisa nenhuma tanta é a nossa desmotivação. Se somos mal atendidos nas repartições públicas, nos hospitais, nos tribunais e em muitos outros sítios por onde passamos durante um dia, encolhemos os ombros e caímos no fatalismo tão intrinsecamente português. Se somos confrontados com algum erro do nosso procedimento no trabalho, atiramos logo a culpa para outrem, entre queixas que estamos sobrecarregados e cheios de preocupações. Se alguém num esforço de cidadania escreve uma carta para um jornal a denunciar algo que lhe parece que funciona mal, tem geralmente como resposta o silêncio e verá essa sua carta preterida por outra qualquer que aborda temas marginais e demasiado pessoais para valerem uma publicação. No fundo acabamos todos por sermos vitimas uns dos outros porque mais cedo ou mais tarde acabaremos enredados nas teias burocráticas e desumanizadas de uma enfermaria de um hospital público ou privado, de um tribunal de pequena ou grande instância ou nas filas de qualquer repartição pública. Aí, indefesos e desamparados, sofremos, mais uma vez em silêncio, e apenas nos resta confiar, portuguesmente, na Providência Divina. Este sentido fatalista e paroquial da nossa sociedade mina-nos a auto-estima, faz de nós pequenos tiranetes dentro da nossa ínfima fatia de poder e leva ao esbanjamento dos poucos meios financeiros que ainda podemos dispor para reformar a nossa sociedade. Por isso, tudo muda de fachada mas cada um de nós permanece na mesma, numa atitude defensiva perante tudo e todos, alarmados que estamos pelas noticias bombásticas que a comunicação social não se cansa de divulgar e empolar diariamente. Mordidos por esta “mosca do sono” trabalhamos cada vez mais desmotivados e reclamamos que estamos fartos da situação; mas fartos estamos, também, que reclamem de nós!

 José Dias Egipto

19 Set 2008

 


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