Um manual de ignorância?

Todos nós, minimamente informados e com alguma cultura religiosa, podemos e devemos criticar os desmandos que em nome das religiões se fizeram e se fazem por este planeta fora.

 

Não precisamos, como José Saramago o fez em declarações recentes no lançamento do seu novo livro, de nos arvorarmos em seres superiores, acima do vulgar dos Homens, iluminados por uma fonte de luz racional que nos desse o direito de dizer azedas e atrevidas banalidades sobre vários textos religiosos que foram e são ainda o fundamento de muitas sociedades. Compreendemos o seu passado e o seu presente e a sua fé inabalável no grande mito de uma sociedade sem classes comandada por uma elite esclarecida cheia de virtudes angelicais e de dotes sobrenaturais. Mas nós não somos Homens de tanta fé como ele que, por natureza e por circunstancialismos várias, tenta, mais uma vez desafiar as Igrejas instituídas mas quanto a mim da pior forma possível. Se é provocação irá ter como resposta – espero – o maior dos silêncios e a indiferença; se é por serôdio diletantismo intelectual, terá o aplauso dos seus apaniguados mas, com certeza, não ficará para os anais da boa literatura em fim de vida. Que ânsia e que vontade faz correr este homem atrás dos livros sagrados e que intenção subjaz a tal desiderato? Não se pode crer que um homem destes possa ignorar as várias leituras que qualquer texto sagrado pode ter e teve ao longo dos séculos. Fazer uma leitura literal e primária dos mesmos, através do humor fácil, parece-me de muito mau gosto. Grandes pensadores ateus e grandes cientistas de ponta, abordaram o texto bíblico com grande seriedade e provocaram discussões frutuosas que hoje estão vertidas em livros de grande valor. Mas Saramago parece padecer de uma cegueira branca e densa que o cerca por todos os lados e que o impede de ver para além do seu catecismo materialista. É pena que um homem que tanto fala da alienação da sociedade actual e da falta de valores não consiga enxergar que aquela é fruto da dessacralização, em sentido lato, da sociedade e que estes só podem perdurar numa visão mais espiritual da existência humana. Reduzir o Homem a uma máquina que pensa e os textos sagrados à perversidade do Homem é de facto reduzir tudo a cinzas e não perceber os horizontes que hoje se abrem ao entendimento do cosmos e de tudo que está para além da nossa mente.

 

José Dias Egipto

 
20 Out 2009

 


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Comentários (1)
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1. Escrito por carlos fernandez em 09-01-2010 18:47 - Registado
 
 
o escritor sem alma
Parabens,brilhante artigo.Saramago es um bom escritor mas sem alma.Um materialista escrevendo para materialistas y para leitores que consideram-se inteligentes por acreditar sò num aspecto do ser humano,a raçao.Aquì no Uruguay temos dois escritores muito semelhantes com o Saramago,Eduardo Galeano e Mario Benedetti.Um grande abraço.Carlos
 

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