"Furriel" era o seu nome

- Ao Fernando Barão, cidadão do mundo, nesse tempo em que a guerra fazia “Amigos”

 

"Para ele o mundo era um quintal enorme

dotado de compartimentos separados por água,

e fenómenos como as chuvas, as tempestades,

ou mesmo os ódios dos homens carregados em navios

enormes, eram gotículas para qualquer sorriso desfazer"

 

Ondjaki, E se Amanhã o Medo"- contos

 

  Por hábito, vinha manhã cedinho, para o cais, e por ali se deixava ficar, o dia todo, embrenhado em pensamentos longínquos, sentado em qualquer caixote velho que o esquecimento dos homens ali faria apodrecer. Noutras alturas, quando o coração lhe ditava certo desassossego, fruto das saudades daquele que lhe deu o nome, mais que o nome, a vontade de viver,empoleirava-se no mais alto amontoado dos fardos de algodão da COTONANG,  à espera de vez para o embarque no cargueiro que não tardaria em atracar, e olhava o oceano distante, e ali tão perto , com olhar sedento, na esperança de ainda poder vislumbrar o paquete que há muito tempo desaparecera para lá da linha do horizonte. E assim se deixava embebedar, desde manhã cedinho melhor altura para ludibriar o Guarda-fiscal e entrar furtivamente no porto de embarque até o sol se esconder na rota de luz para o outro lado do mundo.

    Saía do seu sonho, já tarde noite, quando a voz do carregador do penúltimo turno, roufenha e enferrujada pela aguardente que lhe lubrificava a goela, gritava:

 

"Acorda negro de merda, acorda que o teu furrier foi 'mbora no puto, já no vorta mais."

 

  Saltava dali ele e duas lágrimas teimosas a rolarem-lhe pela face  suja e corria, para afogar a dor da saudade, para além da porta grande do porto de embarque. De Luanda se tratava.

    Para lá da porta grande parava e, por um instante breve, olhava o relógio que lá no alto da torre marcava o tempo, o tempo que para ele parara, que ele já não tinha para alcançar o amigo branco que o achou esfarrapado, mais que esfarrapado, nu, lá no seio da mata e lhe deu um nome.

 

 "Furriel"

 lhe chamou, depois de não saber por que nome lhe chamar.

 "Furriel"

 lhe chamou, depois de apontar para o dourado das divisas que lhe enfeitavam os ombros e dizer

 "Eu furriel, tu furriel, também!"

  e "Furriel" ficou, de nome de baptismo, na Missão Católica do Cacolo.

 

  Uma última olhadela ao relógio da torre existente naquele tempono cais de embarque, antes de deitar a correr, avenida acima, não tardaria para os lados da Mutamba, onde buscaria algo para o aconchego do estômago em quaisquer restos depositados nos tambores do lixo à porta dos cafés e restaurantes. Depois, num vão de escada qualquer, ou mesmo debaixo de um maximbombo, daqueles que fazem a última viagem e por ali estacionam até à manhã seguinte que nem sequer herdara, vindo das matas onde nascera, o direito a viver  num dos Musseques da cidade grande,repousaria o corpo de menino sonhador que a alma, essa, viajava há muito nas lonjuras dum oceano distante e por lá se deixaria ficar até um novo amanhecer.

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por Alvaro Giesta, pseud do autor, em "entre nós CUMPLICIDADES"


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