A viagem

A viagem

   Subiu os degraus vagarosamente e sentou-se numa cadeira próxima do motorista. Nem sempre o cumprimentava e quando isso acontecia era sem grande atenção. Fazia esta carreira há um bom par de anos desde que frequentava o centro de saúde local para controlar a tensão arterial. Era jovem mas aparentava mais idade, fruto de muitos anos vividos na rua.A manhã estava no seu começo e o autocarro ia recolhendo diversas pessoas ao longo percurso nos arrabaldes da cidade.Junto a uma janela, um casal de namorados trocava gracejos, perto deles uma mulher na casa dos cinquenta tinha acabado de entrar carregada de compras feitas no mercado para, certamente, prepara as refeições do dia. Na paragem seguinte, um militar entra e senta-se ao lado de um rapaz que, entretido com o seu jogo preferido, não se apercebera das medalhas que o militar ostentava no peito. Mas quando as viu, os seus pensamentos foram para longe, para muito longe, para onde tinha nascido. Nunca mais voltara a África  e cada dia que passava acalentava a esperança de lá regressar com os seus pais.À medida que a manhã avançava, o sol ia-se tornando mais forte e o ambiente no interior do autocarro começava a ficar um pouco viciado o que levou um idoso a abrir uma das janelas de correr que estão logo acima dos grandes envidraçados. A entrada de ar fresco foi benéfica especialmente para uma criança que mostrava sinais de aperto. A mãe já lhe tinha dito que teria sido melhor sentarem-se mas à frente  mas não valia a pena insistir porque as suas palavras de pouco valiam após a adopção se ter verificado.Perto de uma escola, um grupo de crianças entrou acompanhado de uma professora que insistentemente lhes dizia para se comportarem bem. Iam visitar uma exposição de pintura feita por pessoas com deficiência motora. Iam entusiasmados porque julgavam muito difícil alguém conseguir pintar com a boca ou com os pés.Pelo início da tarde, com a temperatura morna no interior do autocarro, já uns quantos utentes preguiçavam.Ao aproximar-se da paragem seguinte, um turista perguntou ao motorista se era ali que devia sair pois perdera-se no último bairro quando andava a fotografar instantes dos habitantes da zona, pessoas de menos posses que viviam em edifícios pré-fabricados ou em casas de madeira.            Sem grandes histórias se fez o resto do trajecto para no final da tarde o autocarro percorrer o caminho inverso e regressar à garagem.Próximo do términus, foi com algum espanto que os passageiros olharam para o acordeonista que entrava tocando o seu instrumento. Tocava “ La vie en rose” e , por momentos, todos se esqueceram das suas vidas.Já era tarde, e o pequeno Manuel pegou no autocarro e pô-lo no bolso. Amanhã faria nova viagem.        
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