O Sótão da Louca

      No princípio a louca moveu-se com muita energia e determinação, seguiu uma trajectória desconhecida, apesar de involuntariamente sentir ser a única opção.      Naquele momento conceptual valia tudo, pensar alem de improvável tratava-se de uma acção sem base de fundamentação lógica. O trajecto não foi programado, estatísticas não existiam, portanto a louca estava por sua conta e risco naquele momento de importância vital. Portanto só existiam movimentos instintivos e reflexos para conseguir chegar até aquela localização desconhecida de todo, no núcleo do útero, isto é, no ovário.      Passado algum tempo foi categoricamente expulsa daquele ambiente, que alem de confortável era absolutamente seguro. A louca só possuía determinação, nunca imaginou que após sua maior vitória, sobreviver no estágio conceptual, ser ainda obrigada, após seu nascimento, a viver sob um estado de total dependência humana.    Houve um momento de libertação, quando a louca descobriu que poderia alimentar-se com o seu próprio punho, antes desta descoberta a única maneira era implorar através de choros, gritos e gestos de ansiedade.     Anos de aprendizagem possibilitaram um ascendente estágio de libertação. Na juventude a louca descobriu que o mundo rodava a sua volta. Tudo funcionava de forma determinada e inabalável, o percurso possuía muitas ramificações, e todas direcções lhe pertenciam, bastava escolher. Aprender, desenvolver, sentir, tornou-se a porção mágica de sua formação.    A louca quando iniciou a vivencia da idade adulta, começou a sentir um peso cada vez maior sob o plano da responsabilidade. Inicialmente pensou ser algo passageiro, passado algum tempo aquele sentimento evidenciou tratar-se de uma etapa onde o seu desvario deveria ser mais acometido.Ilusões, frustrações, êxitos, sucessos, criação, desgostos e paixões foram condimentos para formação do seu carácter.

   A louca sentiu na pele, viu com os olhos, ouviu o que queria e o que não pretendia. Passou por momentos de verdadeiro regozijo, paz, harmonia e felicidade. O ódio, a discórdia, o ciúme, o rancor a mentira não ficaram em situação de desvantagem em sua vivencia.

    O Tempo, verdadeiro professor catedrático, não lhe deu um milionésimo de segundo de paragem. Por muito que a louca sentisse o tempo correr e passar, este por sua vez nunca, jamais lhe deu ouvidos, seguiu sua trajectória ao ritmo compassado do ponteiro dos segundos, sem parar, sem pestanejar e sem perdão nem misericórdia.    Para a louca envelhecer representava uma etapa inevitável. Neste estágio olhar para traz, trazia alem de lembranças uma certa dose de nostalgia, este estado melancólico associado a tristeza, devia-se ao pouco espaço de tempo que lhe restava para sonhar.   Amava profundamente o seu passado, este era como um amante que apesar de ter sido duro e as vezes até cruel, representou sua existência, a única oportunidade, a única experiencia, a única chance.  No epílogo de sua existência verificou ter havido muitas ilusões que se dissiparam no tempo. A realidade nua e crua foi uma experiência enriquecedora.Contudo conseguiu ainda mensurar a quantidade de tempo perdido em pensamentos, atitudes, acções, gestos e comportamentos desnecessários para não dizer reprováveis.    A louca existiu de forma arrojada, profunda, arriscada e incrivelmente bela.    Quando estava recebendo a extrema-unção do Padre, a louca pediu licença e disse:- Sr. Padre arrependo-me de muitas passagens em minha existência, posso lhe segredar algumas antes de partir?

-Diga. Responde o sacerdote.

- Arrependo-me: De não ter entendido certas intenções, não ter sido capaz de decifrar e ouvir os pedidos de ajuda, não ter sido capaz de dizimar pensamentos e gestos violentos de meus semelhantes. Não ter sido capaz de entender que o ser humano necessita sempre de protecção, carinho, afecto, compreensão e ensinamentos permanentes. Arrependo-me de não ter sido capaz de assumir que fui uma heroína e uma vencedora, onde o troféu foi a oportunidade de nascer, viver e poder…

Após proferir estas palavras a vida foice, morreu! A cabeça descai para o lado, os olhos fecharam para sempre. 

Vida louca! 

 Giba. 


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