Gina Mara

Gina Mara conheceu Gilberto na faculdade de direito. O namoro foi engrenando a medida em que Gina Mara se guardava para o casamento. Gina casou apaixonada e Gilberto casou por tesão, e nenhum dos dois casou por amor! O amor é o sentimento que vem após o período da paixão. Eram jovens e não tão belos. Gina Mara era muito inteligente e seu lema era “não se deve abordar a vida a dois com porquês, mas porque não”. Na lua de mel ela já sentiu que as coisas não seriam exatamente como ela esperava. Gilberto se revelou outra criatura, Gina Mara sempre viria depois. Gilberto sentia necessidade de controlar tudo e todos para se manter afastado de suas frustrações. Gina Mara trabalhava na Câmara de Vereadores e dava aulas a noite, era professora substituta. Gilberto trabalhava na Prefeitura, seu expediente de trabalho era das oito ao meio dia e das treze e trinta às dezessete horas. Costumavam sair juntos do trabalho e o tempo era suficiente para um lanche rápido e Gina Mara corria para a faculdade, Gilberto ia encontrar os amigos. Até que, certo dia, Gina Mara teve uma idéia luminosa, montar um escritório de advocacia para Gilberto trabalhar das dezessete e trinta até as vinte horas, pois se ela conseguia, ele também deveria tentar. Meio a contragosto ele aceitou perder o bate papo com os amigos e o futebol. O escritório virou ponto de encontro da turma de Gilberto. Logo ele se associou a outro amigo e aí a coisa não andava. Gina Mara vivia fazendo economia, levava vida monástica, sem luxo ou supérfluo. Sua vida era apertada pois sua meta a compra de seu apartamento, coisa do tipo como se usa hoje, “minha casa minha vida”, Este é o bordão do governo federal, pois foi também o de Gina Mara. Ela economizou a duras penas, comprou o seu primeiro apartamento. Enquanto não fechou o negócio quase foi à loucura com Gilberto que achou absurdo comprar um imóvel no centro da cidade e em um prédio de seis apartamentos, dois por andar, e minúsculos. Gina Mara bateu o pé e conseguiu. O prédio não tinha elevador, suas escadas eram tão estreitas que a maioria dos móveis entrou pela sacada porque era a porta maior. Três anos após a compra do apartamento, nasceu a primeira e única filha do casal. Certo dia Gina Mara descobriu que o prédio ao lado estava à venda e quem estava negociando era uma incorporadora, para construir um outro edifício e não tardou os moradores do edifício onde Gina Mara receberem uma proposta. Alguns moradores concordaram, Gina Mara não concordou, pois sabia que para construir a incorporadora precisava do outro edifício. Os terrenos não eram grandes. O local excelente. Gina Mara propôs uma reunião de moradores e expôs a situação. A incorporadora fez uma contra-proposta que foi rejeitada. Nova proposta, nova contra-proposta e chegaram a um acordo: cada morador receberia o dobro do valor estipulado e facilidade para compra no novo edifício que seria construído. Gina Mara foi a única moradora que teve o privilégio de fechar negócio na planta, pois era dona de dois dos seis apartamentos. Tudo isso foi resolvido contra a vontade do soberano Gilberto. O edifício foi entregue dentro do prazo e eles moraram no apartamento durante cindo anos e neste meio tempo a construtora lançou um empreendimento de alto padrão. Gina Mara não pensou muito e vendeu o seu apartamento e comprou o outro de alto padrão onde eles viveram vinte e cinco anos, de frente para o mar. A filha deles já estava bem casada e Gilberto e Gina Mara aposentados, e pela primeira vez na vida Gilberto teve atitude! Continuou trabalhando no escritório que Gina Mara redecorou com muito bom gosto, ela aproveitou uma mesa mineira que era de sua mãe e três cadeiras de espaldar alto e de braços, algumas peças antiguinhas, uma bela chapeleira que encontrou em loja de usados, e o resultado foi um escritório chic, dentro da medida. Com o escritório chic, veio a substituição do secretário que voltou para o interior, e uma estudante, meio encardida e casada. Gina Mara até se afeiçôo à secretária de seu marido que fez do escritório ponto de encontro de alpinistas sociais. Explica-se, o edifício era só de escritórios e consultórios médicos, ótimo local para uma caçada. Gilberto flanava, como diria João do Rio, entre as mocinhas meigas que, segundo o neto de Gina Mara, eram moças meigalinhas. Gina Mara achava graça. Se não vivia um caso de amor, vivia uma relação de respeito e carinho, porém isso era só da parte de Gina Mara, pois da parte de Gilberto o negócio era outro. Ele transformou o escritório em um puteiro, isso Gina Mara também não sabia., pois ela se aposentou da Câmara de Vereadores, porém ainda dava aulas e era orientadora e trabalhava à tarde e à noite, até que sem querer ela descobriu que Gilberto estava envolvido com uma amiga da meigalinha que também era encardida e casada. Gina Mara depois de sofrer todas as torturas e penas do inferno, foi procurar a moça. Descobriu que Gilberto pagava o aluguel da moça. O prédio era uma espelunca. Gina Mara tocou a campainha e foi atendida pela jovem que não se assustou com a sua presença; até parecia que estava a sua espera. Ela entrou na sala de mau gosto, sentou no sofazinho chinfrim. O único detalhe elegante no local eram as rosas vermelhas dentro de uma jarra de plástico trabalhada imitando cristal. A elegância estava nas rosas e o horror na jarra. Como toda mulher, Gina Mara fez uma avaliação da sala e lembrou de sua sala tão elegante e o que passou pela sua cabeça naquele momento crucial foi o seguinte, Gilberto não tem jeito mesmo, mão de vaca, o desgraçado está comendo a amante e tem coragem de lhe dar um local tão horroroso para viver! E por um momento sentiu pena. Sentiu piedade. Pensou, que vida desgraçada! E foi direto ao assunto. Perguntou quanto tempo eles estavam juntos, a jovem respondeu um ano, mais ou menos. Gina Mara perguntou o que uma jovem como você vê em um homem que poderia ser quase seu avô. A jovem levantou da cadeira onde se encontrava e foi até um armário de onde retirou uma caixa fuleira. A caixa era realmente fuleira até porque a jovem também era fuleira, porém o conteúdo da caixa não tinha nada de fuleiro, eram peças de ouro, pérolas, pedras, tudo de muito bom gosto. Gina Mara perguntou, foi ele que te deu tudo isso? A jovem respondeu que sim. Gina Mara argumentou que não era verdade! A jovem saiu e voltou logo em seguida com um maço de notas de dólares americanos e um cheque que era das despesas do mês. Gina Mara tentou convencer a jovem, argumentou que a jovem estava jogando a sua mocidade pela janela, pois logo seria trocada por outra. Gina Mara se humilhou e foi humilhada e na saída ainda recebeu uma recomendação, que procurasse sua ginecologista urgente, pois a jovem estava com gonorréia e mais, que foi com o marido de Gina Mara consultar a ginecologista de Gina Mara. Gina Mara saiu de lá desnorteada e marcou uma consulta com a sua médica que lhe garantiu estar tudo bem. Ela perguntou se a médica lembrava de ter atendido uma jovem morena e um senhor idoso. A doutora respeitou a ética e não lembrou do casal. Alguns dias depois ela pediu a separação. Gilberto não aceitou e ainda teve o desplante de negar tudo e dizer que era tudo imaginação de Gina Mara que resolveu fazer uma viagem. Quando retornou para resolver a separação, encontrou Gilberto mudado e ele jurou que eles ainda seriam felizes. Mentira! Não foram felizes. Meses depois a empregada veio anunciar que uma jovem queria falar com Gina Mara. Foi a tragédia anunciada, era a jovem gonorréia em pessoa. Foi até a casa de Gina Mara para saber o grau da falta de amor próprio da mulher traída e que aquela situação era falta de vergonha. Gina Mara despachou a desclassificada e ficou a espera de Gilberto, que não tardou. As malas de Gilberto já estavam prontas, ele se foi. O divórcio foi oficializado e a partilha. O apartamento foi vendido para comprar dois pequenos, e em bairro de menor valor. A filha de Gina Mara e seu marido, horrorizados, levaram Gina Mara para morar com eles, em um anexo muito confortável. Gina Mara alugou o seu apartamento e com a renda do aluguel, mais a aposentadoria e suas aulas semanais, estava vivendo folgada e feliz. Isso foi até Gilberto adoecer e ir se abrigar na casa da filha. Afinal pai é pai. Gilberto chegou no meio de abril para ficar até se recuperar de uma pneumonia. Em setembro ele ainda se encontrava por lá e se insinuando para Gina Mara que não pode fazer nada diante de tanto cinismo e falta de caráter. O folgado estava mal financeiramente e queria voltar a viver com Gina Mara que não sabia o que fazer para se livrar do traste. Tudo o que ela desejava era despachar o infeliz. Ele chegou a propor que gostaria de morar na casa de sua filha para poder alugar o seu apartamento. A filha só deu mais algum tempo. Ele foi ficando e atormentando sua ex-mulher. Até que certo dia Gina Mara foi atender o telefone. Era para ela, dou outro lado da linha uma mulher lhe perguntou pelo safado do marido. Gina Mara que respondeu que não tinha marido, era engano. A pessoa se identificou, era um caso dele e que ele esqueceu de pagar a mesada do mês. Gina Mara largou o fone e foi até o terraço onde todos se encontravam reunidos e perguntou muito calmamente, Gilberto você pode atender o telefone? É uma pessoa perguntando pelo safado do meu marido. Eu já respondi que não tenho marido, ela disse que vocês têm um caso, atenda por favor. Gilberto ficou lívido. Atendeu o telefone e disse que foi engano, porém o viva voz funcionou pela primeira vez e todos foram testemunha para a felicidade de Gina Mara. Quanto a Gilberto, este foi convidado para se retirar de cena. A amante dele teve o atrevimento e contar em detalhe a vida sórdida dos dois e ainda repetiu, ou você me paga a mesada ainda hoje ou eu vou entregar um vídeo que gravei de nossos momentos. Gina Mara está recuperada. Conheceu na faculdade onde ainda trabalha, um senhor muito discreto e tímido. Ele é um dos donos da faculdade. Eles são grandes amigos. Adalberto! Este é o nome dele, tem a idade de Gina Mara. Era um solitário que está amando pela primeira vez em sua vida. Eles têm os mesmos gostos e a filha, genro e os netos de Gina Mara estão encantados com a doçura de sentimentos que une os dois. Adalberto não tem parentes aqui no Brasil. Nunca se casou. Veio de Lisboa a quarenta anos para passar uma temporada aqui no Brasil e ficou. Em Portugal só lhe restam três sobrinhos riquíssimos. Gina Mara gostou dos sobrinhos de Adalberto de Lisboa, e de sua vinícola. Ficou encantada com a Quinta Santa Lúcia que é propriedade de Adalberto. Ela agora vive fazendo ponte aérea Lisboa São Paulo. Adalberto está pensando em vender sua parte na faculdade para o seu sócio, pois ele quer aproveitar a vida ao lado de sua musa. Eles estão certos. Se for para ser feliz a hora é agora. Gina Mara está radiante, sem medo de ser feliz. Gilberto era dissimulado, infiel. Adalberto é transparente, adorável, amigo. É o oposto de Gilberto. Adalberto gosta de contar que ganhou uma família pronta, uma mulher maravilhosa, uma filha, genro e quatro netos.[i] 


N.A.  São homens provincianos como Gilberto que estão contaminando suas mulheres com doenças sexualmente transmissíveis. O contigente de mulheres infectadas na idade madura é assustador. Elas estão dormindo com o inimigo.


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