Muito amor e sem ciúme |
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Há um antigo ditado que diz: Amo a liberdade, por isso deixo livre tudo o que amo; se voltar é porque eu conquistei, se não voltar é porque nunca possuí o que imaginava ter. Tal afirmação torna-se extremamente verdadeira quando se fala do amor e do seu oposto, o ciúme.
Amar e ser gratuitamente amado é uma aspiração de
todos os seres humanos, até os animais demonstram esta estupenda necessidade.
Amar é dar-se, entregar-se, sem exigências nem reciprocidades, pois quem ama
demonstra, pela pureza desse sentimento, que está além daquele que recebeu o
amor, pois deu o primeiro passo, arriscou-se, incondicionalmente.
Se numa luta livre, de boxe ou de judô, quem dá o
primeiro passo demonstra estar mais disposto e preparado à vitória do que aquele
que simplesmente espera ser atacado, tal realidade torna-se mais verdadeira e
excede quando o assunto é o amor: dar a primeira investida, sem medo nem
ressentimentos, é oferecer o próprio ser numa bandeja para o amado, colocando-se
numa situação que sobrepuja a limitada existência ou pretensiosa prudência.
Normalmente, fomos ensinados a entender que quem dá
o primeiro passo deseja muito mais do que aquele que recebe o amor, pois
implora o querer do Outro. Cremos que isto deriva da mesquinhez das relações
humanas pautadas no absurdo das trocas e das posições sociais. Nessa infeliz
concepção, quem se apresenta diante do Outro com o coração entregue está
implorando o amor daquele que se julga a
razão da existência, porque é o procurado, é o visado pelo apaixonado; ora,
se isso fosse verdade, ninguém ficaria de saias
justas, consternado ou encabulado por uma declaração de amor recebida.
Portanto, quem se arrisca, muito mais ama, e, por conseguinte, confia
piedosamente no que sente, apesar das conseqüências dessa pura demonstração de
amor.
A sociedade capitalista visa mercantilizar o amor,
assim como faz com os produtos e as ideias.
Sabe-se que a monogamia não dá lucro: há apenas a necessidade de dar um
presente pra recordar a data oficial do casamento; se for mãe ou pai, um
presente no segundo Domingo de Maio ou de Agosto; uma vez no ano, a recordação
do aniversário; enfim, no máximo três presentes. Na poligamia, para cada
relação bilateral, três recordações comerciais. Ora, afinada ao princípio do lucro
e da rotatividade da mercadoria, a sociedade capitalista torce pela efemeridade
das relações amorosas, clama pela futilidade do amor. Aí que entra o ciúme;
sendo um tempero, este estranho
sentimento – pura invenção do Liberalismo e do pré-histórico Machismo – para falsamente
apimentar a relação já arrefecida pelo tempo, pelos filhos, pela situação econômica,
pela ideia de posse, pelo corpo que deixa de ser o mesmo. As crises, as
lágrimas, as terapias, são recompensadas por um caro presente, um afago
comercial; o diálogo franco e aberto é substituído por um pacote bem enfeitado,
normalmente, muito bem embrulhado e caro; entretanto, sem sentido.
Por trás de todos os apelos, por todas as exigências
amorosas, por todos os medos dos enamorados, há, indubitavelmente, um medo de
perder o que se tem ou de se perder o que se julgava ter; na verdade, somente
deve-se temer o que nunca se teve, desde o amor da pessoa amada, ao amor dos
pais, dos amigos, dos que nos circunda, porquanto pior do que não ser amado é
ter a desconfiança de que somos rejeitados, preteridos.
Contudo, como não é possível ser feliz sem se
entregar à aceitação alheia, somente é feliz quem tenta, ainda que receba um
não, um desconfortável silêncio, um riso, uma chacota; Ora, pior do que tudo
isso é ter tido a única chance de se manifestar, e por receio, aquietar-se,
acovardar-se; aí, uma coisa é certa: será apenas mais um indiferente cuidando
da minha e da tua tentativa de acerto ou de erro ou de dúvida, infelizmente,
mais um controlando a nossa existência, os nossos propósitos, do que meditando
sobre o próprio erro, medo e mesquinhez.
Portanto, que Deus abençõe os nossos sonhos e nossos
incógnitos sentimentos, que eles sejam repletos de amor, de entregas e sem
fingimentos, pois o existir autêntico consiste em arriscar-se.
BENEDITO LUCIANO ANTUNES DE FRANÇA (PROF. BENÊ FRANÇA) – 38 anos
É mestre em Filosofia. É professor de Filosofia da EE João Franceschini, em Sumaré/SP, de Metodologia da Pesquisa, da FATEC de Bragança Paulista, em Bragança Paulista/SP, e de Ética na Tecnologia da Informação da FATEC de Americana, em Americana/SP, ambas no Brasil.
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