D. JOÃO DA CÂMARA E A MARIA MATOS |
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Escrever sobre D. João da Câmara, é
sempre, para mim, prazer inaudito, que inunda-me a alma de imenso júbilo.
Dele, contam-se comoventes episódios, de
extrema bondade, próprios de quem busca a perfeição.
Gabriela Castelo Branco, in “ Diário de
Lisboa”, de 12/02/1943, assevera que escutou da boca da Senhora D. Maria de
Jesus, filha do dramaturgo, gestos de ternura do iminente fidalgo, descendente dos
ilustres Lafões e Ribeira Grande, cujas raízes mergulham no notável navegador,
João Zarco da Cãmara.
Certa vez ofereceu a pobre, como outro
Martinho, sua capa de abafo; e a jovem, aluno do Conservatório, as botas que
usava, ficando, assim, recluso no leito, por falta de calçado.
Mas a cena mais poética, mais comovente,
que permaneceu na retina de todos, quiçá por envolver a famosíssima e genial
actriz, Maria Matos, foi o exame de admissão desta, ao Conservatório.
O júri, formado por Eduardo Schwalbach,
D. João da Câmara, Júlio Dantas, Carlos Malheiro Dias, Henrique Lopes de
Mendonça, Maximiliano de Azevedo, examinava os candidatos.
Apareceu menina, vergonhosa, pálida de
pavor, de vestidinho sóbrio, que mal podia balbuciar palavra, tão pesado era o
medo que a tomara.
Bem insistia Schwalbach para declamar poema,
mas a menininha, balançava de leve a saia, e de cabeça inclinada de vergonha,
mansamente murmurava:
- Não sei…Nunca recitei…
Abriu-se largo silêncio. Entreolharam-se
os examinadores.
Junto à janela, D. João da Câmara
mantinha-se estático. Vagarosamente, volta-se, olhando a menina, que tremia de
pejo. Sorrindo, abeira-se de Maria Matos e sussurra-lhe amorosamente:
- Diga a Avé- Maria.
Ganhando ânimo, a menina recitou com
tanto entusiasmo, com tanta fé, que os presentes em uníssono declararam:
- Está admitida.
Não admira que Maria Matos actriz e
actriz de reconhecido mérito, sempre que era assaltada pela tristeza e
problemas de difícil solução, abeirasse do jazigo do dramaturgo e, com
ele,”dialogasse”, pedindo-lhe conselhos e protecção. Quem o diz, é D. Emília da
Câmara Almeida Garrett, em missiva endereçada à mãe, datada de Castelo Branco,
a 28/06/1910.Carta que a minha querida amiga a Sr.ª D. Maria Eugénia da Câmara
Rebello de Andrade, neta do escritor, teve a gentileza de ma mostrar.
Em “ Dizeres de Amor e Saudade”, Maria
Matos, escreveu: o dramaturgo possuía um “
coração bondosíssimo”, e remata, em ternura:” Abençoado seja a tua memória, mestre querido, pelas puras alegrias que
sempre me deste.”
Seis dias decorreram, depois de D. João
da Câmara, completar 55 anos, o dramaturgo falecia no quarto contíguo ao que
nascera; antes, porém, despediu-se de todos, rogando que o não chorassem; e
cerrando pálpebras rezou o Pai - Nosso,
e para sempre dormiu:
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