Tempos de renúncia e podridão

 

Aqui te encontras, fatigado pelas infindas

Ocasiões em que foste esquecido,

Repousando na espessa sombra

Que provém da completa condição

Do carvalho frondoso e ancestral;

Aqui te delongas, consciente,

Sem qualquer razão de ânsia

Ou impulsionadora de vontade –

Quem rompeu a bandeira do orgulho?

Houve alguém que quisesse furtar

O refulgir que de ti transparecia?

Quem te deturpou ou te diluiu?

Quem renegou as tuas causas vitais

Ou as amordaçou nas gélidas manhãs

Destes tempos de renúncia e podridão?

 

À sombra do velho carvalho,

Aguardando o desgaste dos anos,

Emudece e perece o molde do Ideal

Que outrora fora o nobre motivo

Do erguer dos braços derrotados,

A inspiração de todos os Poetas,

A bravia onda que elevava os desejos

De navegantes em seus corcéis navais.

 

Senhores, não tolerais mais o olvidar

Da procedência de tamanho Bem,

Da semente de onde brotaram

As mais ínclitas e primordiais flores!

Pois, assim, tudo terá sido em vão,

Todo o eco perderá o seu efeito,

Engolido pelo turbilhão vasto e vazio

Destes tempos de renúncia e podridão.

(Pedro BC).


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