Escolha o Vilão |
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Há uma faceta pouco divulgada dos nossos indígenas, que eu gostaria de comentar a título de exemplificação das dificuldades que nós, civilizados, vimos tendo quanto à interpretação de certos problemas que nos atingem.
Por ignorância, talvez, creio que já comecei estas linhas cometendo algumas transgressões graves do "politicamente correto". Não sei bem como deveria chamá-los sem provocar a fúria e o desprezo dos mais ilustrados nesses assuntos. Selvícolas, creio que não. Índios mesmo, talvez. Ou, quem sabe, "membros das culturas paralelas que habitam as florestas tropicais do Brasil". Provavelmente, também não estarei bem ao nos distinguir como civilizados, já que isso soa depreciativo em relação aos referidos indígenas e, ao julgar por perversidades recentes, talvez não seja muito justo mesmo. O fato é que as tribos, pelo menos as do Xingu, que cheguei a conhecer de perto, têm uma maneira interessante de lidar com certas situações inconvenientes e achar a causa de fenômenos indesejáveis. Muitas vezes, alguém entre eles vem tendo comportamento esquivo e pouco integrado; não parece confiável; geralmente, é um sujeito meio esquisito, que pouco a pouco vai se tornando isolado do grupo. Um belo dia, acontece alguma coisa de ruim: uma doença na tribo; a roça fracassa; uma desgraça qualquer e pronto, está confirmado: o tal sujeito é um feiticeiro e, obviamente, o responsável. A solução é simples. Na primeira oportunidade, um grupo de bravos guerreiros surpreende o dito cujo e dá-lhe uma sova de pau (que lá se chama borduna) até despacha-lo para junto dos seus ancestrais. Pode nos parecer que também não seja politicamente muito correto, mas eles acham corretíssimo. Para quem imaginar que poderia se tratar apenas de um indivíduo neurótico, é o que se poderia denominar de psicoterapia breve. Apesar das diversas demãos de verniz que ostentamos: terno e gravata, telefone celular, agenda eletrônica e, quem sabe, caneta "Mont Blanc"; enfim, de todo o chamado "kit babaca", no fundo no fundo, ainda preservamos muito das mesmas reações primitivas. (Opa! Escorreguei de novo). O que eu quero dizer é que, de alguma forma, também precisamos achar um culpado para os nossos problemas mas, por algumas razões, no nosso caso, isso acaba sendo mais complicado: a maioria de nós não tem tanta fé em feitiçarias e nem dispõe de uma borduna em casa; legítima defesa contra feitiço é algo que não está incorporado à nossa jurisprudência e, ao contrário da tribo, onde o sujeito "esquisitão" é uma exceção evidente em relação ao conjunto, entre nós há tanta gente "diferente" que seria pouco objetiva a escolha do alvo. Dificilmente atingiríamos um consenso. Se esse método fosse aplicado, seria difícil conter a pancadaria generalizada. Apesar disso, ou talvez por isso mesmo, a nossa forma de achar o responsável por todos os males tem se sofisticado sobremaneira e, para o bem de todos e felicidade geral da nação, torna-se cada vez mais impessoal. O nosso feiticeiro, causador, portanto, das nossas desgraças, passa, cada vez mais, a ser escolhido entre entidades abstratas e, assim, podemos atingi-lo com pauladas metafóricas. Bem melhor desta forma, apesar de tornar-se, às vezes, um tanto chato, como se fosse um pesadelo recorrente. Há alguns anos, em tempos mais inocentes, conforme a opção ideológica de cada um, podia-se atribuir todos os males do mundo aos comunistas ou ao imperialismo norte-americano. Havia, pelo menos, uma certa localização geográfica: os comunistas em geral deveriam ter, por hipótese, ligações pelo menos emocionais com Moscou, os mais exóticos com a China e os infanto-juvenis com Cuba. Já os lacaios do capitalismo, direta ou indiretamente, eram todos crias de Tio Sam e, quando mais militantes, provavelmente, instrumentos da CIA. Novos tempos, novos costumes. O império soviético desfez-se surpreendentemente como se sempre tivesse sido uma miragem; a China perdeu todo charme revolucionário e virou comerciante; Fidel deixou até de fumar charutos já que, segundo as más línguas, só o fazia em outros tempos como forma de precaver-se, no contato com os russos, contra aqueles horrorosos beijos na boca. Já os Estados Unidos, não mais prevalecendo o cenário de duas grandes conspirações concorrentes, passou a acreditar mais ainda no seu papel de vertente final da história e, para não deixar ninguém desamparado, oferece um vasto leque de "abobrinhas" teóricas para todos os gostos. Não só acadêmicos, empresários e cientistas podem se abastecer do que há de melhor para um bom paladar intelectual, como dispõe-se do "fast food" politicamente correto ao alcance de todos. É preciso, portanto, escolher novos vilões e, de acordo com a tendência citada, devemos preferi-los ainda mais impessoais e indeterminados. Para atender aos resíduos mais persistentes da nossa alma mística devem, também, ser tão incompreensíveis quanto possível, exceto, é claro, para os "iniciados". Em nosso socorro, felizmente, surgem alguns candidatos perfeitos que nos livram da extraordinária angústia de ver coisas darem errado e não saber o porquê. O primeiro vilão a citar, a globalização, além do seu próprio repertório de maldades, funciona como uma espécie de pré-requisito para os demais. Não estamos em uma tribo e sim numa sociedade moderna e integrada por vários mecanismos de comunicação. Nesse panorama, também os vilões devem ter a mesma proporção. Devem e podem, agora, ser impessoais, abstratos, geograficamente indeterminados e universais. Assim, no rastro da globalização, vêm, pelo menos, mais dois. Um de natureza teórica e outro, teoricamente, da natureza. O vilão teórico é um tal de neoliberalismo, capaz de perversidades incríveis, como: demitir funcionários, articular conspirações, torturar crianças e desamparar velhinhas além, é claro, de provocar gripes em galinhas asiáticas. Já o vilão natural, o recém descoberto "El Niño", entre outras façanhas, consegue transmudar verão em inverno e vice-versa, importar tornados do "midwest" para nossas estâncias, poluir nosso ar, entupir nossos bueiros e congestionar nossas ruas, comprometer nossas safras e até o nosso humor. Para a maioria de nós, esses supostos malfeitores são tão estranhos, desconhecidos e misteriosos quanto qualquer feiticeiro. Podem, assim, povoar nossas fantasias e protagonizar nossos pesadelos. Vamos ao cacete. António Roberto Batista Campinas, Brasil Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o JavaScript terá de estar activado para que possa visualizar o endereço de e-mail Acrescentar como Favorito (434) | Refira este artigo no seu site | Visualizações: 2839
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