Jogos Olímpicos: Educação e deseducação esportiva |
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Quando se encerraram os últimos Jogos Olímpicos, passamos, de imediato, a aguardar mais uma Olimpíada
ou seja, mais um período de quatro anos, até que os extraordinários espetáculos de habilidade e força se repitam, com essa variedade infinita de modalidades para deleite de todos nós. Certamente, muitas lições podem ser tiradas de tudo que se observou nos jogos de Atlanta: sobre a qualidade duvidosa da organização; sobre os métodos de treinamento; sobre o empenho e a coragem de muitos atletas; etc. Falou-se o tempo todo em espírito olímpico ao ganhar ou ao perder mas, inevitavelmente, todos buscamos heróis entre nossos representantes nacionais. A televisão não se cansava de repetir a cena da garota que executou um salto na ginástica com o pé já machucado para garantir a vitória da equipe. Mas, qual o mérito maior: esse esforço talvez cobrado de última hora ou os anos e anos de treinamento obsessivo que lhe permitiram estar lá ? Para nós, brasileiros, que superamos em muito o desempenho obtido nos jogos anteriores e chegamos a aspirar sediá-los em 2004, ficaram algumas motivações novas e, também, algumas meditações necessárias. Falarei, principalmente, das meditações. Os jogos olímpicos são, talvez, a maior expressão do esporte de elite praticado em todo o mundo. Por isso, e é até compreensível, mesclam-se, nesse esforço fantástico, desde as mais singelas expressões de amor ao esporte e à nação até os mais calculados interesses de prestígio profissional e acesso a um patamar de elevados ganhos econômicos. Não se diga que isso nasceu com a aceitação dos atletas profissionais nos jogos, esse fato não só democratizou o esporte olímpico como acabou com uma imensa hipocrisia. Por outro lado, acho que todos tivemos a forte sensação de que o peso do fator econômico no evento já passou bastante do ponto. Para começar, o bom "espírito olímpico", a meu ver, deveria ter dado primazia à Grécia no ano do centenário. Até porque, não fazia muito, tivéramos os jogos de Los Angeles. Mas, talvez, fosse menos comercial. A tocha tornou-se um "souvenir" de luxo, multiplicado em milhares, carregado por uns e outros e adquirido por quem estivesse disposto a pagar. Para o bem ou para o mal, as imagens de tudo, apesar das deficiências de transmissão na origem, foram acessíveis a todo o planeta e continuaram a moldar nossos conceitos e convicções no que se refere a esporte. O bom e o mal, o desejável e o indesejável em matéria de atividade esportiva sofreu, sofre e sofrerá, inevitavelmente, a forte influência do que ocorre e do que se vê nesses jogos. Nem tudo é edificante: muitas arbitragens, em diversas modalidades, foram evidentemente pusilânimes, o que é a forma mais perversa de incompetência, já que mesmo os mais competentes erram; casos de "dopagem", como sempre, ocorreram; a imprensa esportiva norte-americana, cobrindo um evento internacional, mostrou-se excessivamente "patrioteira"; há atletas, em algumas modalidades, de nariz tão empinado e atitude tão soberba, nas provas de velocidade, por exemplo, que parecem recomendar a arrogância como principal atributo esportivo e tendem a associar essa postura tola à imagem de sucesso. Quando o nosso tenista "brasgentino", que superou todas as expectativas, após uma luta feroz, deu um abraço cheio de sinceridade no contendor indiano que por sua superioridade técnica acabava de lhe arrebatar a medalha de bronze, eu fiquei ainda mais orgulhoso dele. O esporte deve nos ensinar a ganhar com respeito e a perder com dignidade e ele nos deu uma contribuição ainda melhor que a tão desejada vitória, porque fez tudo que pode para ganhar, mas soube ser grande também ao perder. Assistimos, portanto, a momentos lindos e outros tantos lamentáveis. Cada um de nós reterá na lembrança aquilo que mais lhe impressionou, tanto do desempenho atlético como ético observado. Mas, o que não podemos ignorar é que tudo o que ocorre nos jogos olímpicos, ao lado do que vem ocorrendo no esporte em geral, tem e terá efeitos significativos sobre a base conceitual de trabalho dos profissionais do ramo e dos jovens que são atraídos, cada vez mais, para a atividade esportiva. Gostaria de chamar a atenção, portanto, para um ângulo desse assunto que me parece esquecido por muitos e visto de forma equivocada por outros: qual a finalidade social atribuível ao esporte? Como ele deve ser encarado por educadores, formuladores de políticas públicas, profissionais de saúde e pelas próprias famílias ? Esta é uma reflexão que, a meu ver, se faz necessária por razões que gostaria de expor. Quando as atividades de desempenho atlético são colocadas em um grande palco para contemplação do mundo, tornam-se, inevitavelmente, instrumento de afirmação de povos e nações e, é inútil ignorar, isso tem uma dimensão política. Quando um grande atleta passa a valer seu peso em ouro para contratos e marcas publicitárias, é preciso admitir que os jogos olímpicos são uma privilegiada vitrine que pode fazer a diferença entre a obscuridade, a fama e a fortuna. Deste modo, ou melhor, por estes dois caminhos, creio que o esporte de elite está fadado a carregar, ao lado da paixão mais sincera e da glória mais verdadeira que se lhe queira reconhecer, o fardo desses dois outros motivos: o político e o econômico. Não vamos lamentar, vamos apenas reconhecer. E política e dinheiro fazem os homens realizar coisas extraordinárias mas, também, enormes baixezas. Até algum tempo atrás esse binômio estava didaticamente representado. No tempo da guerra fria, tínhamos a União Soviética representando, predominantemente, o interesse de propaganda política, enquanto os Estados Unidos seria melhor caracterizado pela vertente de motivação econômica. É claro que, em ambos os casos, falamos de predominâncias e não de exclusividade e, também, não ignoramos a existência de patriotismo e espírito de equipe. Mas o que viabilizava, fundamentalmente, a dedicação necessária para atingir as fantásticas performances era em um caso o apoio estatal e no outro o apoio privado, ambos acenando ao fim com as glórias que lhes são mais peculiares. Nesse confronto se desenvolveram os métodos, técnicas, recursos e conceitos de treinamento que projetaram os desempenhos às alturas que hoje conhecemos. Desapareceu o bloco soviético e, em parte, sua visão totalitária do esporte, mas consagraram-se os métodos "científicos" de elevação de performances e, como em todas as paixões, alguns estão dispostos a pagar qualquer preço para alcançar suas metas. Os níveis alcançados, em muitas modalidades, exigem não apenas talento como obsessão e sacrifício, às vezes a anulação, pelo menos temporária, de outras facetas relevantes da vida. Como na famosa tríade do sábio florentino, é preciso Virtude, Sorte e Oportunidade para chegar lá. É, portanto, uma opção de vida mas, mesmo como opção, acessível apenas a alguns portadores de pré-requisitos extremamente diferenciados. E, por mais diferenciados que sejam esses heróis modernos, o nível de sobrecarga biológica para alcançar os padrões atuais de desempenho pouco tem a ver com a afirmação de que "Esporte é Saúde". Esse é o ponto a que queríamos chegar, chamando a atenção para o fato de que esporte de alto nível tem três atributos, variáveis na sua intensidade de uma modalidade para outra, mas que não devem ser ignorados: é altamente seletivo, radicalmente competitivo e biologicamente abusivo. O que abordaremos a seguir é conseqüência disto e, por essa razão, carregamos, intencionalmente, nas tintas. Antes de mais nada, deixemos claro que não somos contra o esporte de elite. Ele é importante, merece nosso interesse e todo estímulo para o seu desenvolvimento. É, inclusive, um veículo de ascensão social para muitas pessoas. Entretanto, por despertar tantas emoções, ser uma referência inevitável sobre vários aspectos, tende a sê-lo, também, de forma equivocada. Nossa objeção é que seja visto como único parâmetro de direcionamento da prática esportiva e induza, por um erro de percepção, a uma abordagem prejudicial à saúde, à sociabilização e ao desenvolvimento das pessoas e, principalmente, dos jovens e crianças que devem ter no esporte um instrumento muito mais útil do que a busca ilusória dos patamares do alto nível atlético. Para a maioria das pessoas, esporte não será profissão. O comum dos mortais não será campeão olímpico nem recordista mundial. Assim, é preciso saber que a maioria de nós pratica e deve praticar esportes por outros motivos. Uma das razões mais sabidas é a saúde, ou seja, é fato conhecido e aceito que atividade física é benéfica em termos de melhoria da quantidade e qualidade de vida, aprimorando o desempenho orgânico e ajudando a nos proteger em relação a diversos riscos. Seus efeitos fazem-se, igualmente, sentir na esfera psíquica e, porque não, na social, através da convivência humana e dos relacionamentos proporcionados. Deve, portanto, ser recomendado para todos e, assim, é importante lembrar que esporte para a saúde não é esporte de elite. Enquanto um é biologicamente abusivo como já afirmamos, está sempre buscando o limite e tendendo, portanto, a ser relativamente traumático, o esporte voltado para a saúde deve ser ajustado aos parâmetros de cada indivíduo, respeitando capacidades médias de intensidade e desempenho; enquanto para um a competitividade é atributo indispensável à sobrevivência na atividade, para o outro representa apenas um insumo desejável para auferir maior prazer no seu exercício; no primeiro caso, vive-se, praticamente, do e para o esporte, no segundo é um agradável complemento da vida. O esporte para todos deve, portanto, reger-se por outros parâmetros. Não nos parece muito difícil a aceitação prática das conseqüências dos nossos argumentos no que se refere a lazer, esporte para a terceira idade, etc. Entretanto, observamos uma tendência perigosa e nociva no que se refere à prática esportiva de jovens e crianças, aos hábitos e costumes da chamada "educação física" e ao esporte de iniciação em geral. É fato comum, hoje, a cobrança precoce de desempenho de crianças na mais tenra idade, tanto em clubes como mesmo em escolas; a exacerbação da competitividade além dos limites que poderíamos chamar de pedagógicos; o desprestígio equivocado do mais baixo, mais fraco, mais tímido ou menos dotado, em outras palavras, exatamente daqueles que mais se beneficiariam, sob o ponto de vista de saúde, do hábito e da prática esportiva. Com o excesso de competitividade vem, também, o excesso de seletividade desestimulando, por antecipação, os aparentemente menos dotados a praticarem a modalidade que gostariam, porque não são possuidores dos padrões biométricos considerados ideais. Se o "baixinho" não tiver futuro no vôlei ou no basquete, porque não permitir que ele seja selecionado pelo desempenho de fato, no tempo próprio, em vez de, antecipadamente, pelo preconceito. Os mais aptos migrarão, naturalmente, para as equipes de alto nível, e os fatores de facilitação ou de dificuldade exercerão sua ação na justa medida. Enquanto isso, não é boa lição de justiça ignorar o "baixinho" e ficar paparicando o "comprido desengonçado" porque ele tem, supostamente, "futuro". Isso não exclui a possibilidade, ou mesmo a atribuição, do educador orientar cada criança em relação à escolha das práticas mais ajustadas às suas possibilidades. Tal aconselhamento poderá ajudá-la a encontrar maior gratificação no esporte, mas os caminhos devem manter-se abertos e o tratamento deve ser sempre justo. Faz parte da educação para a vida e não apenas para o esporte. De qualquer modo, uma criança poderá ter grande aptidão para a natação mas, apesar disso, adorar e preferir jogar basquete. Não será um campeão olímpico mas, e daí? No que se refere aos clubes, onde muitos jovens têm sua iniciação esportiva, já presenciamos técnicos e, também, pais estimulando a anti-ética da vitória a qualquer custo e por quaisquer meios. Isso tenderá a gerar conseqüências indesejáveis e anti-sociais e não apenas no terreno esportivo. Se pudéssemos, resumidamente, discutir algumas das funções sociais do esporte, citaríamos, entre outras contribuições que se possa lembrar: 1. A Saúde, sobre a qual já tecemos algumas considerações mas, voltaríamos a lembrar que, para tal, a atividade esportiva deve ser praticada dentro de limites de moderação variáveis para cada idade, sexo, biotipo, estilo de vida, etc. 2. O Lazer que, de certo modo, está ligado, também, à nossa saúde entendida como qualidade de vida, com o usufruto do prazer sob a forma de "alegria de viver", ao bem estar psíquico e à satisfação de sentir-se vivo. 3. A Educação, pois o esporte exerce o papel de um extraordinário modelo lúdico para aprender a viver e a conviver. Nos transmite valores como: a disciplina, a cooperação, a lealdade e a perseverança e nos ensina o preço de cada uma dessas coisas. Pode representar um campo de ensaio para a nossa capacidade de vivenciar os sucessos e insucessos da própria vida, para o desenvolvimento da coragem e do caráter. Difícil imaginar melhor instrumento pedagógico. 3.1. Competitividade e Ética, que são dois atributos humanos valiosos, porém, tencionados entre si. O esporte pode e deve nos ajudar no aprendizado necessário para administrar a convivência entre eles. É de todo desejável que eduquemos nossos jovens para serem competitivos sem desconhecerem os limites impostos pelos preceitos éticos, que tornam os sucessos algo mais do que a simples "lei do mais forte" e os insucessos eventos bastante diferentes das humilhações. 3.2. Sociabilização - esporte deve ser fator de elevação da convivência e não instrumento de discriminação. Pode e deve ser cultivado em um ambiente de respeito e companheirismo, onde as atitudes dos orientadores esportivos possam servir de exemplo; onde a justiça de critérios esteja presente; onde os jogos e competições se prestem à experiência de trabalho em equipe e de união em torno de um objetivo comum; onde se tenha a oportunidade de conhecer pessoas, fazer amizades e aprofundá-las. Ao lado de tudo isso, não há porque negar, o esporte de elite também cumpre um interessante papel social. Particularmente no nosso caso, tem se notabilizado como um significativo instrumento de elevação da nossa autoestima como povo, como nação, o que não deixa de ser muito valioso. Dizia Nelson Rodrigues, numa das suas frases mais conhecidas , que a "seleção é a pátria de chuteiras" referindo-se, é claro, ao futebol. Hoje, já poderíamos estender essa metáfora a várias outras modalidades e até a algumas, como o automobilismo, onde, praticamente, só o elemento humano é brasileiro. Mas, se tivesse que escolher entre isso e as funções educacional e sanitária do esporte, ficaria com estas porque, a médio ou longo prazo, obter-se-ia a mesma meta proposta pela priorização do esporte de elite, por um caminho diferente mas, talvez, mais bem pavimentado. Felizmente, não são objetivos mutuamente exclusivos, sendo perfeitamente possível trabalhar visando a ambos. Na verdade, é possível, hoje, desenvolver esporte de primeiro nível laboratorialmente, de modo absolutamente desproporcional ao padrão médio de uma população, tendo apenas o cuidado de estabelecer um método de seleção de valores que não precisa depender, necessariamente, da massificação. Pode depender, apenas, da aplicação de técnicas científicas de rastreamento de valores. É claro que a maneira mais adequada e inteligente é através da disseminação da prática esportiva mas, voltamos a dizer, esta não pode e não deve estar subordinada a este único objetivo. É melhor que o alto nível seja um subproduto relativamente natural dela, espontâneo, voluntário, e que não sufoque o que consideramos os objetivos mais nobres do esporte. Se olharmos mais profundamente a questão, e não apenas sob a ótica das emoções televisivas, veremos que há coisas muito mais importantes em jogo do que forjar campeões olímpicos, o que afinal, também é de todo desejável. Acima de tudo, veremos que as vitórias no esporte de alto nível representam uma glória da qual podemos participar como espectadores, uns poucos como protagonistas, mas o bem-estar físico, mental e social proporcionado pela atividade física deve ser colocado ao alcance de todos e, para isso, é preciso compreendermos a dimensão mais ampla do esporte, estarmos mais bem informados dos limites orgânicos recomendáveis e ter uma visão mais generosa da sua função social. António Roberto Batista Campinas, Brasil Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o JavaScript terá de estar activado para que possa visualizar o endereço de e-mail Acrescentar como Favorito (412) | Refira este artigo no seu site | Visualizações: 3508
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