Nunca pensei que era pobre

Lembranças de infância,
Era cerca de 1961 quando tinha apenas ums seis anos. Lembro que morávamos no número 50 da Alameda de Belém, na Faja de Baixo, São Miguel, Açores. A Alameda de Belém fica a cerca de 15 minutos da Baixa de Ponta Delgada e vai dar com a estrada da Ribeira Grande.

Nós éramos uma família de sete, três raparigas; Valdomira, Zélia, Eulália e quatro rapazes; Fernado, Manuel, Nelson e Eu. Meu pai residia na Bermuda desde 1958 em busca de uma vida melhor. Com apenas dois anos mais novo da Eulália e três mais velho do Nelson, brincávamos muitas vezes juntos. Minhas irmãs mais velhas estudavam e meus irmãos trabalhavam. A Eulália já andava na escola primária.

Era mais uma tarde quente de sol. A porta do quintal com a rede meia despregada um pouco no lado não impedia que moscas fizessem maneira de entrar para a cozinha. Minha mãe como de costume depois do almoço, cansada, sentava-se numa cadeira ao pé da mesa a dormir um sono enquanto moscas zuniam à volta de bocados de pão e do prato com restos de sopa em cima da mesa. Não havia outro som a não ser da porta que batia, quando eu entrava na cozinha vindo do quintal e o zunido das moscas. Dois degraus de pedra separava o quintal da cozinha. Lá fora um fio comprido com roupa estendida que minha mãe tinha lavado na pia, perto do muro de pedra do lado direito do quintal. Ela fazia sempre uma cara de esforço e de cansaço quando esfregava e torcia a roupa na pia, até parece que tinha ainda mais rugas do que tem hoje com 78 anos de idade. Talvez não tivesse mais do que quarenta e dois. Meu irmão Nelson talvez dormia o seu sono de tarde enquanto a Eulália estava na escola.

No lado direito do quintal havia couves e cebolas plantadas. Meu irmão mais velho Fernando, costumava cavar e plantar o plantio no quintal. Ao fim havia uma figueira que dava saborosos figos no tempo.
Uma estrumeira dividia o fim do quintal. Eu não ia muito perto de lá porque tinha medo de cair lá dentro.

O muro de pedra do lado direito do quintal dividia o quintal dos vizinhos do lado de cima. Lá morava uma família com duas raparigas e três rapazes. Lembro-me que muitas vezes falávamos em cima do muro que parecia alto mas talvez não tivesse mais do que um metro.

Um corredor da cozinha dava para a porta da frente da casa. Aí no degrau da porta me sentava muitas vezes. O sol quente a dar-me na cara, dormia às vezes uns sonos lá sentado ou talvez olhando p'rás árvores que havia no nosso lado da rua que ainda era de terra calcada.
Talves passasse por lá um carro ou uma mota de duas em duas horas.

Uma vez por ano, talvez em Outubro, chegavam uns homens com umas escadas de madeira e podavam os galhos das árvores. Elas ficavam completamente despenadas e feias. Talvez fosse mesmo em Outubro porque lembro que era na altura do começo de ano escolar. A rua ficava completamente diferente. (Talvez como quando cai o primeiro nevão cá na América).

Lembro-me que aos domingos minha mãe fazia sempre cozido e outras vezes linguiça com batata frita. O rádio a dar o relato de futebol bem alto enquanto meu irmão Fernando ouvia com muita atenção.
Ouvia-se falar muito num Costa Pereira, que grande guarda redes...

Mais pra tarde, com o vento leve a bater nas folhas das árvores, o céu azul e o ar quente, mas não demais, muitas vezes todos vinhamos pra rua. As raparigas brincavam à corda e os rapazes às apanhadas ou com os arcos ou mesmo a passear lá na rua.

Quase sempre o Manuel António, noivo da Valdomira , passava as tardes lá em casa. Ele era mecânico mas andava sempre muito limpo aos fins de semana. Tinha uma bicicleta verde (BSA) e depois mais tarde comprou uma mota. Minha irmã e meu cunhado gostavam muito de ler, havia muitos livros e revistas no quarto de sala. Havia quase sempre sopa de carne para o jantar onde quase sempre migava-se pão, muitas vezes pão de milho.

Na segunda feira lembro ainda na cama muito cedo, ouvia minhas irmãs a preparar e havia uma certa comoção para não perderem a camionete que as levavam pra escola industrial ou estágio. A Valdomira tirava o curso de professora enquanto a Zélia tirava um curso comercial. Meus irmãos muitas vezes andavam a pé pro trabalho.

À tardinha passava muitos homens a pé lá na rua, alguns de algumas estufas que havia lá na rua mais para baixo. Muitos traziam um sacho em cima de uma saca de fardo pemdurado no ombro. Havia também um homem que era carpinteiro e trazia uma caixa com muitos serrotes e outras ferramentas. Via isto sentado na porta da minha casa, e era quase sempre nesta altura que os sinos da igreja tocavam as trindades. Quando não havia outros rapazes para brincar sabia que eram horas de ir pra dentro.

Recordo-me de muitas coisas da minha infância. Porem não me lembro de pensar que era pobre.

Depois de vinte e sete anos residindo no estrangeiro talvez seja tempo de fazer esta viagem ao meu passado. Por agora paro por aqui mas irei continuar esta minha história mesmo que seja só para me recordar.


Luis Alberto Tavares
Attleboro, Massachusetts, EUA
Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o JavaScript terá de estar activado para que possa visualizar o endereço de e-mail
Acrescentar como Favorito (418) | Refira este artigo no seu site | Visualizações: 2962

Seja o primeiro a comentar este artigo
Coemntários RSS

Só utilizadores registados podem escrever comentários.
Por favor faça o login ou registe-se.