Francisco da Silva 1841-1920

Na costa atlântica do Canadá, um vale desce suavemente sobre o mar. Estamos no ano de 1863.
Hantsport, é um porto orgulhoso e próspero, animado por escunas, barcos coloridos, armadilhas de lagosta e paletes de madeira abandonadas ao longo da costa, à espera de sentirem o peso do peixe que fazem a delícia dos habitantes do lado de lá do Atlântico.
Situado nas margens do rio Avon, foi sem dúvida olhado das suas altas colinas pelo sorriso admirativo de um Mic Mac. Apesar de com a vinda dos colonos a presença dos índios ter empalidecido, os nomes imprimidos nos caminhos, nas aldeolas, fazem com que estes não sejam esquecidos: Cogmagun, Chebucto, Piziquid, Cobequid, Checoggin, Sissiboo, são alguns dos que se encontram espalhados pela Nova Scotia. A "Indian Orchard" foi até 1604, altura em que os franceses se apoderaram da Acadia (Nova Scotia) a única estrada existente nesta zona. Seguem-se guerras que duram quase um século, entre ingleses e franceses e finalmente é a bandeira inglesa que abençoa as terras da Nova Escócia. Apesar de os franceses terem sido autorizados a ficar, o facto de se recusarem a prestar fidelidade à rainha de Inglaterra, leva-os à sua expulsão em 1755, deixando atrás as terras que eles com tanto sacrifício tinham cultivado. Cruel expulsão que é relatada, num lindo poema... Evangeline. A natureza presta-lhes homenagem, quando as últimas neves, reflectem as primeiras flores das macieiras que com eles trouxeram, e plantaram. Anappolis Valley, todos os anos se perfuma, e nas refeições, as lindas canecas de porcelana, enchem-se de cidra. Aos poucos, as propriedades abandonadas são ocupadas por residentes da Nova Inglaterra. É assim que Churchill , no ano de 1840, começa com os seus estaleiros navais. Outras famílias chegam, outras ruas se rasgam, a primeira estação de correio funda-se, a primeira loja de bomboms inaugura-se, o primeiro joalheiro na esquina da rua William e da rua Principal, recebe o primeiro dedo feliz, a primeira escola recebe os primeiros meninos na residência do sr. Robert Davison, e o primeiro hotel recebe os forasteiros que esperam encontrar também "a sua" oportunidade.
A situação de Hantsport, com um porto natural aonde as marés sobem e descem de 50 para 60 pés, priveligia as profissões dos homens que trabalham a reparar os cascos dos navios. Um dos recursos naturais da Nova Scotia, eram as suas florestas. Com as madeiras variadas os pioneiros viram a potencialidade da construçao naval e vinham instalar-se com a certeza de que iriam ver com os seus próprios olhos esta indústria crescer. Não esperaram muito. Hantsport irá ser um dos cinco principais portos através do mundo. Ezra Chruchil constrói um dos primeiros navios, "Eliza Ann", e assim começa a florescer uma indústria de construção naval. O espírito do comércio, sente-se na cidade. O tráfego do peixe e da madeira encontra-se também no seu apogeu. Possivelmente foi a pesca, que era abundante, que levou Francisco da Silva a Hantsport. Nem o cheiro das maçieira em flor, nem a presença dos índios que ainda conseguiam viver em harmonia com o seu habitat, passaram despercebidos ao seu espírito criador. Churchil perspicaz como era, logo adivinhou os mil talentos do jovem e ofereceu-lhe um emprego estável ao longo do ano. No verão eram os estaleiros que lhe proporcionavam um meio de vida e no inverno, era na residência dos seus patrões que ele aplicava todo o seu "savoir faire". Depressa se destacou pela sua sensibilidade artística. E. Churchill teve a oportunidade de benificiar das capacidades artisticas de Francis Silver (comum adoptarem os nomes ingleses). No verão os canteiros da sua residência tinham a particularidade de serem diferentes de todos os outros. Mesas e cadeiras fabricadas de troncos de árvores enfeitavam os vastos espaços verdes da casa dos cedros. No inverno, era nas paredes de madeira do subsolo, que a alma de Francisco imprimia. O mar renascia sob o seu pincel e personagens exoticos sussurravam algum segredo. Com o tempo, a paixão pela pintura começou a exigir que Francisco usasse material mais apropriado. De paredes passou a usar a tela que era usada nas velas dos barcos. Era nas cocheiras da casa dos cedros, que ele pintava, e onde os amigos de Churchill admiravam o talento do pintor, deleitando-se especialmente com o seu humor mordaz, que se adivinhava de tela em tela. E assim cenas do quatidiano, das quintas, das florestas, da política, dos sonhos, ocupam onde o vazio está... Sem ter seguido escolas, pintava para o seu próprio prazer. Livre de qualquer convenção o seu trabalho é simples e puro. Preocupado pelos problemas do seu tempo, denuncia sem cessar o que ele considera injustiça. A poesia tão presente nalguns dos seus óleos, mostram-nos o lado sonhador, aonde a nostalgia acena dalgum ponto inacessível... Mas o lindo valley também o prende, e o lado de lá do seu mar, começa a ter que se encontrar apenas no seu pensamento.
No dia 22 de 1864 torna-se proprietário, e logo a seguir o reverendo Fred Burton abençoa o seu casamento com Elizabeth Arnold, na igreja baptista de Hantsport, com quem teve sete filhos.
Quando encontra o eterno descanso, em 1920, deixou muita saudade. Era comum falarem dos jardins de Churchil nos tempos de Francisco... Jaz no cemitério de River Bank. Uma pequenina placa lembra o homem que tantas alegrias deu à sua comunidade: "Gone But Not Fortotten".

Landscape de Francisco da Silva Uma parte importante da história do Canadá é conhecida através da sua arte. Mas o tempo deixa a sua marca. Eric Nichols, preocupado com a conservação de tão precioso legado, contacta a Galeria de Arte da Nova Escócia a fim de dar a conhecer ao mundo a obra de Francisco Da Silva e tirá-lo da obscuridade. Com a ajuda da assistência dos museus do Canadá, a colaboração da Imperial Oil Limited, o centro de conservação atlântico, o laboratório da galeria de arte Owens, a Universidade do "Mount Allison, restauradores privados, a Galeria de Arte Da Nova Escocia, a conservadora das belas-arte, Laurie Hamilton; e a grande vontade do cidadão de Hantsport, fez com que as gerações vindouras agradeçam que um maravilhoso tesouro lhes tenha sido legado, para lhes falar do seu berço.
Impossível à alma, conter-se, quando pensativa se queda diante dos quadros de Francisco Da Silva.
Páginas coloridas que nos falam. Que percorreram os museus do Canadá...

Alguma da sua obra:
Veado na floresta, barcos, águias, cena de quinta, Laurier depois do discursso, A recolta, O parque dos cedros, Montanha mar e baía, Um gato que não voltará, regulamento das disputas das pescas, avestruzes e Zeppelin, Estaleiros de Churchill, O clube das costureiras, O Montreal, Dezasseis cenas biblicas, O diabo e os porcos a descer a montanha, paisagem com pássaro

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