Dos Intercâmbios Mercantilistas à Inércia L(USA)Lândesa

Se pudessem, os norte-americanos fechar-se-iam
no seu país e voltariam as costas para o mundo,
salvo para o comércio e as viagens.
Octávio Paz in "Uma Terra - quatro ou cinco mundos"
A epígrafe exemplifica a dualidade estadunidense para com o mundo. Como única superpotência, a elite governativa dos Estados Unidos assume-se como salvadora de um mundo que não quer entender, mas deseja explorar. Tal como afirmou o poeta mexicano: "a utopia norte-americana, em que existem, como em todas as utopias, certos traços monstuosos - é uma figura de três sonhos: o do asceta, do comerciante e o do explorador". Recentemente, na comunidade portuguesa da Califórinia, onde até parece ser proíbido ir além das superficialiadades quotidianas, tivemos um exemplo claro e inequívo de como não só aceitamos estes príncipios globalizantes da chamada terra adoptiva, mas também somos cúmplices, contentes e alegres, de uma supremacia antes desconhecida pelos ilhéus açorianos.

Num dos vários famosos almoços que promovemos nas nossas comunidades, acabamos por ouvir uma alocoção do embaixador dos Estados Unidos em Portugal. Confessando que ao ser convidado pela Casa Branca nos finais de 1997 para representar os Estados Unidos no pequeno rectângulo europeu à beira mar plantado, mostrou algumas reticências, porque ao fim e ao cabo, o que é Portugal? O digno diplomata acaba por aceitar o cargo e há pouco mais de um ano faz de Lisboa a sua nova casa.

Neste seu contacto, julgo que o primeiro com os portugueses da Califórnia, o diplomata Gerald McGowan, que de português apenas soube dizer Boa Tarde, dissertou sobre as vantagens que a velha nação europeia tem ao manter um relacionamento saudável com o gigante norte-americano. Foram vários os pontos enumerados pelo diplomata americano sobre os benefícios que um tal bom relacionamento, Portugal-Estados Unidos, traria ao pequeno rectângulo da península ibérica, que por lapso, o senhor embaixador disse ser uma ilha. Mas não fiquemos de mau humor por tal anomalia - península/ilha - conta-se que durante o seu mandato como vice-presidente dos Estados Unidos, Dan Quayle, afirmaria ao chegar ao arquipélago do Hawaii dissera que estava altamente satisfeito por visitar, mais uma vez, este grupo de ilhas no meio do Atlântico..oops!

De todas as benesses colhidas por Portugal neste relacionamento previligiado com Washington, o embaixador nomeou as visitas que o nosso país tem tido das entidades americanas. Ao fim e ao cabo não são todos os países do globo que têm tido as presenças tão significativas de altas entidades como o vice-presidente Al Gore e a mulher do presidente a senhora Hillary Clinton. E relembrou-nos que Portugal, e os portugueses, devem estar orgulhosos de fazer parte do "visa waiver pilot program" - em que os nossos patrícios podem visitar a terra americana sem terem de solicitar um visto. Como o nome indica o program é piloto - eufemismo para provisório - e só continuará se os portugueses se souberem portar bem.

Vivendo em Portugal há um ano e sabendo que os portugueses gostam de receber notícias da sua terra, o senhor embaixador deu-nos algumas "novidades". Primeiro, disse-nos que nem todos os portugueses vivem bem e relembrou-nos que, no jardim da Europa à beira mar plantado, ainda existem classes despreviligiadas. Que Portugal terá de trabalhar ainda mais para retirar a sua gente da pobreza. Mas pergunto eu - será que nos almoços que faz em Lisboa disserta sobre o nível de pobreza dos americanos? Será que são emitidos despachos para que os portugueses saibam que em terras do tio Sam cerca de 37 milhões de americanos vivem abaixo do indíce da pobreza; que uma em cada cinco crianças dos Estados Unidos vive em situações vulneráveis; que mais de oito milhões de familias são pobres e que o número de crianças a viver em vizinhanças marginalizadas aumentou de 3 por cento em 1970 para 17 por dento em 1990.

O senhor embaixador, como fiel seguidor da elite capitalista que representa (foi advogado da super industria das telecomunicações antes de entrar na diplomacia) aproveitou a oportunidade para deixar algumas sugestões que Portugal podería seguir para atraír mais investimento norte-americano. Segundo o diplomata, as tarifas e as obrigações fiscais das multinacionais em Portugal terão de baixar e os sindicatos terão de ser mais flexíveis. Claro que destas afirmações poder-se-á deduzir que se os portugueses, trabalhassem mais e ganhassem menos, as grandes multinacionais americanas estariam mais interessadas no nosso país. Imaginem que o mercado laboral português poderia estar a beneficiar dos frutos que a Guatemala, o Haiti, a Indónésia, a Malásia, e a Singapura, entre outros, estão a colher. São nestes e noutros países, onde as pluricontinentais se implantaram, que registam os maiores abusos laborais, com salários baixíssimos e precarias condições de trabalho. Mas são os lugares onde as magnânimas companhias americanas fazem os seus milhões. Claro que se Portugal fosse mais flexível, para usar as palavras do senhor embaixador, teriamos outro intercâmbio comercial e industrial - resta saber quem seriam os vencedores. Como nos diria Almeida Garrett - e eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forcoso condenar à misaérias, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infância, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?

Que um diplomata americano seja o fiel vendedor (para se usar um bom termo do mítico mercado livre) do sistema que a sua elite governativa tenta impingir dentro e fora do país, ninguém se deve surpreender. O que é chocante, e pouco dignificante, é a forma como a nossa comunidade portuguesa da Califórnia recebe estas "verdades". Como em tantas outras ciscunstâncias similares, mais uma vez, ninguém quis questionar as afirmações, pior, corroborou-se com estes despautérios. Será que ficaria mal ter mostrado ao senhor embaixador que nós também conhecemos a realidade dos dois países que fazem parte do nosso mundo e que também sabemos pensar?


Diniz Borges
Califórnia, USA
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