Ser criança hoje

É impressionante o aumento nos últimos anos das crianças da minha consulta vítimas de problemas familiares. Na maioria dos casos os pais estão separados e vivem com a mãe; noutros são os avós que "aguentam" a situação. Chego a ter tardes de consulta de uma total monotonia pois as queixas são sobreponíveis e o pano de fundo também. As mães numa ansiedade crescente sem quererem perceber as razões das queixas dos filhos pedem desesperadamente análises, radiografias e pasme-se T.A.C. para as crianças na esperança de encontrarem uma causa física para a doença do filho ou filha. É tal a insegurança destas mães que chegam a dizer-me que aquele filho não pode estar doente ou muito menos morrer um dia porque ele vai ser a sua única companhia pela vida fora; por isso é nele ou nela que investem tudo, em exclusividade, em termos afectivos! As crianças "afogadas" neste proteccionismo "selvagem" e contraditório, sofrendo já com a ausência do pai como figura de referência imprescindível, neste beco sem saída, somatizam toda a ansiedade em apelos constantes para que lhes deêm atenção... quando o que realmente lhes falta é tão simplesmente uma família normal!...
Às vezes quando as mães me perguntam se não seria melhor pedir uma T.A.C. ao filho ou filha eu, sinceramente, o que me apetecia responder-lhes, por ironia, era se elas não quereriam antes fazer um exame profundo e doloroso, uma T.A.C., quiçá, à sua própria família... Ah! Que grande radiografia ou T.A.C. social não são estas minhas consultas diárias!... Mas que remédios, meu Deus, posso eu ter para, ao menos, minimizar as dores desta terrível doença social?
Ainda hoje uma mulher foi-me trazida pela Assistência Social com um bebé de 5 meses que nunca tinha sido observado desde o nascimento. Não tinha ainda vacinas, não tomava vitaminas, bebia leite de vaca inteiro, estava sujo e andrajoso... A mãe pelo seu lado, não tinha mãe, nem pai, nem família, vivia sozinha e foi "descoberta" assim pelos vizinhos. Perguntei-lhe, a medo, quem era o pai da criança, respondeu-me que isso não interessava para nada. Perguntei-lhe, ainda com menos convicção, como tinha contraído em plena gravidez a hepatiteB, respondeu-me que toda a gente sabe que a hepatiteB se pode apanhar com toda a facilidade quando se está grávida... Não lhe perguntei mais nada... Calado observei a criança. No meu pensamento milhares de imagens passaram em turbilhão - discursos em praças e em púlpitos, comícios revoluconários e outros menos, guerras reais e das estrelas, festas de pouca e muita caridade, sei lá eu que mais... Qual destes eventos pôde tocar, alguma vez, esta mulher? Quem lhe pode devolver a dignidade?...
Neste final de século ter pena das crianças e temer pelo seu futuro é muito pouco... Porque há várias misérias misturadas. Já nada é linear como outrora... Porque hoje é preciso ter sorte para ser criança a vários níveis, não só o da miséria material!... Talvez a miséria moral, a falta de valores na sociedade seja para a formação das crianças o mais importante. Porque hoje em dia é preciso ter sorte, acima de tudo, para viver em amor !...


José Carlos Palha
V. N. Gaia, Portugal
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