Cultura e Língua Portuguesa, Um Dinossauro em Fase de Extinção? |
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O cônsul-geral de Portugal em Boston, Dr. Luis Barreiros, foi, sem dúvida alguma, o cônsul mais dinâmico, laborioso e popular dos últimos 30 anos.
A sua alta visibilidade é uma inequívoca afirmação do seu interesse por tudo o que diz respeito à cultura, à língua e ao país que tão bem dignificou e representou. Hoje, os serviços consulares apresentam uma imagem mais positiva e eficiente. Os rostos dos funcionários exibem sorrisos e boa disposição; amabilidade e simpatia. Uma mudança radical de quase 360 graus. A sua ausência vai-se fazer sentir profundamente. A convicção de alguém que não procura "medalhas". Apesar de tudo isto, e embora o cônsul tenha alcançado a maior parte dos seus objectivos, não atingiu um dos principais. Não por culpa sua, pois trabalhou arduamente para o conseguir, mas porque lhe faltou o apoio que, de início, parecia estar assegurado. Afimam-me que ao tomar as rédeas do Consulado, o distinto cônsul manifestou uma grande "aspiração" de um dia assistir à "Parada", em Boston, com uma vasta manifestação de duas alas de extensa longitude. Isso não chegou a realizar-se. Antes pelo contrário, a "Parada" deste ano encontrou-se na berma da extinção. Se não fosse um apelo da última hora do cônsul às organizações habituais, a Cambridge St. teria mergulhado num inglório silêncio de frustração e amargo sabor. Felizmente, o esforço de muitos singrou e tudo correu bem, apesar das óbvias falhas de organiza-ção. Que os troféus sejam depositados nas mãos de quem os merece. Afinal de contas, donde provém este desinteresse? A que se deve esta doença de apatia tão notável na comunidade portuguesa da área consular de Boston em relação a quase tudo que a ver tem com cultura, com identificação das nossas raízes, do brio português? De quem é a culpa? Do povo não é, de modo nenhum. Fale-se em futebol, ou em festas religiosas e os campos enchem-se. As pessoas saem às ruas em massa... Então porque existe este vácuo, esta disparidade de eventos? Um dos meus professores de infância dizia que uma árvore só dá o fruto que tem. Se o povo português viveu 40 anos debaixo de uma ditadura, obrigado a trabalhar de sol-a-sol, entregue a árduo labor por escassas moedas, ausente das letras e artes, como pode ele manifestar-se positivamente em relação a eventos culturais? Se a nossa gente estava proibida de se expressar em termos inconsistentes com missas, procissões religiosas, folclore, futebol e tourada, como podemos esperar, nos dias de hoje, distantes da mãe pátria, manifestações de apoio a iniciativas que pretendem promover parâmetros e esferas jamais experimentadas por inúmeros membros da nossa comunidade? O desinteresse manifesta-se em muitas outras facetas e aspectos do nossso dia-a-dia. Cada ano que passa, os clubes têm mais dificuldade em arranjar corpos directivos; alguns encerram as portas. As escolas portuguesas vivem debaixo da preocupação de um futuro sombrio e possivelmente abolido. A língua espanhola é ensinada em escolas de comunidades predominantemente portuguesas. O comércio do bacalhau, da sardinha, do azeite saloio tem a tendência a enfraquecer. A lusa língua torna-se mais distante e é falada com menos frequência nos lares, nas instituições e organizações comandadas por aqueles que apregoam ser portugueses. Alguns dos nossos jornais celebram, na primeira página, com cabeçalhos de grande porte, a existência de ascendentes da nossa raça com "destaque" na sociedade americana, mesmo quando estes se mantêm distantes e ignoram os nossos interesses comunitários, enquanto que ultrapassam aqueles membros a quem deveriam der o devido reconhecimento pelos feitos valiosos que atingiram e o esforço que exercem em prol da divulgação cultural das nossas artes e letras. Não os há? Abram os olhos e não será preciso ir muito longe. E além das contribuições monetárias, outros talentos qualificam indivíduos para o anual reconhecimento organizado. Quer isto dizer que o nosso dinossauro cultural não tem salvação? Que se encontra à beira do abismo? Infelizmente, esta é uma convicção expressada por muitos. Que nada há a fazer? Por amor de Deus, não sejamos pessimistas. Podemos começar por sugerir ao governo português o favor de salvaguardar os interesses de Portugal através de uma estrutura de apoio às comunidades portuguesas devidamente concebida e implementada. E já que Lisboa tem, nos seus cofres, milhões de dólares para esbanjar, nos Estados Unidos, em programas que pouco ou nada beneficiam ou contribuem para a divulgação e a expansão da cultura e língua portuguesas, que canalise os seus recursos financeiros e intelectuais em busca de soluções para este premente dilema. Com o apoio logístico e financeiro do Instituto Camões, da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e muitas outras instituições que fazem sentir o seu peso nos quadrantes mais obscuros do Globo, a devida resposta será encontrada. Aqui fica o convite. O Grande Desafio Para o Novo Século. Daqui a vinte anos onde encontraremos as quinas, o escudo, todo o simbolismo português? Içada num mastro altivo ou esquecida em gavetas de um patriotismo ido e extinto? Isaac A. Jacobson Cambridge, MA, USA Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o JavaScript terá de estar activado para que possa visualizar o endereço de e-mail Acrescentar como Favorito (405) | Refira este artigo no seu site | Visualizações: 3051
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