Justiça Infinita

"A não-violência é a maior força de que a Humanidade dispõe. Ela é mais poderosa do que qualquer arma de destruição imaginada pela ingenuidade do homem." (Mahatma Gandhi)
O presidente Bush foi o autor da declaração mais absurda dos últimos dias, ao afirmar, com a maior tranqüilidade, que o seu País é pacífico. Na verdade, existem basicamente dois tipos de violência, a opressão e a violência física. Em geral, negamos nossa própria violência porque estamos condicionados a identificá-la com as suas manifestações físicas, como as guerras, as lutas e os assassinatos, mas esquecemos de considerar todas as formas de opressão, os comportamentos desrespeitosos, os insultos, as exigências descabidas, a inveja, a cobiça, e todos os atributos negativos que costumam governar as nossas vidas, ou no caso, a vida das Nações.

Evidentemente, a opressão e a violência física se relacionam como causa e efeito, porque a violência física resulta da raiva que a vítima da opressão sente, embora seja igualmente descabida. Alguém já disse que os terroristas não nascem, mas são fabricados, porque eles são um produto da opressão. Os fanáticos terroristas que estão sendo apontados como mentores desse atentado se queixam da presença das tropas americanas no Oriente Médio e do apoio dado a Israel. Para agravar a questão, Israel e Estados Unidos se retiraram da Conferência Mundial de Durban, na África do Sul, que discutia racismo, discriminação, xenofobia e intolerância.

Mas o Presidente Bush não teria razão, mesmo que se referisse apenas à violência física, porque o seu País foi responsável, entre outras coisas, pelo pior atentado de todos os tempos, muito mais grave do que este, agora praticado contra Nova York e Washington, ou seja, o lançamento das duas bombas atômicas, que arrasaram as cidades de Hiroshima e Nagasaki e deixaram a contaminação radioativa, que até hoje produz os seus efeitos. Nem se diga que essa barbárie pode ser justificada pelo fato de que eles estavam em guerra. Afinal, a Alemanha de Hitler também estava em guerra, e mesmo assim ele é considerado um monstro. Qual poderia ser a diferença, então? Quem perde a guerra é um criminoso, um genocida, mas o vencedor é um herói, porque estava defendendo a democracia, a justiça, e a liberdade?

Não podemos ser assim tão simplórios, porque nada pode justificar a violência. "Que diferença faz para os inocentes mortos, feridos e órfãos, se a destruição suicida se dá em nome da justiça, da liberdade, da vingança, da paz ou de Deus?" (Mahatma Gandhi)

Também não tem cabimento afirmar que o inimigo é fanático, louco e bárbaro, para justificar o seu extermínio. O perigo é representado apenas pelos talibãs, líderes religiosos fanáticos que controlam aqueles povos miseráveis, e por algumas outras organizações radicais, porque a religião tradicional da maior parte dos muçulmanos é tolerante e moderada, com grande ênfase na virtude e na caridade, e perfeitamente compatível com a democracia e com o pluralismo religioso. Apenas alguns países, como o Iraque e o Afeganistão, se caracterizam pelo totalitarismo religioso, pela supressão das liberdades fundamentais, pelas perseguições às minorias religiosas e pelo apoio ao terrorismo.

Também nos Estados Unidos existem muitas pessoas de bom senso, que têm realizado inúmeras manifestações contra a retaliação indiscriminada. Na verdade, nenhuma guerra é uma guerra do Bem contra o Mal, como afirmou Bush, assim como também não pode ser uma Guerra Santa (Jihad), como querem os talibãs. Também não se trata de nenhuma "Justiça Infinita", em evidente alusão à Justiça Divina. Não é possível que alguém, que não seja completamente louco, acredite que Deus seja capaz de ordenar o extermínio de inocentes, ou de quem quer que seja. Nenhum governante, seja ele um ditador talibã cujo poder se funda na cega obediência à pretensa vontade de Deus, ou um governante que chegou ao poder através do voto popular, tem o direito de ordenar a matança de outros povos, nem mesmo como forma de vingança. A paz não pode ser garantida pela violência, porque a violência pode apenas gerar mais violência. O ódio somente pode gerar mais ódio, mais violência, mais terrorismo e mais guerras.

A não-violência, para Gandhi, significava a honesta e diligente busca da verdade, ou a busca pelo sentido e pelo propósito da vida. Esse conceito, da "busca da verdade", é importante porque se opõe ao conceito do "dono da verdade", que não consegue ou não deseja entender as necessidades, as preferências e os interesses alheios, o que inviabiliza a convivência pacífica dos povos, das raças, ou das religiões. Para Voltaire, a nossa idéia de justiça nada mais significa do que o interesse alheio respeitado pelo nosso interesse. Dizia ele, então, que não se pode atribuir a Deus uma "justiça infinita", porque nossas qualidades são muito incertas e variáveis, para que possam ser comparadas com as do Ser Supremo Eterno. O único que se pode afirmar, sem medo de errar, é que Deus é infinito, e que o espírito do homem é bem limitado.

Essa infeliz idéia da vingança infinita somente pode resultar de mentalidades ressentidas e cruéis. Nesse caso, Deus, que é superior, seria ainda mais terrível e vingativo. Uma religião espiritual, de amor e de caridade, não combina com a brutalidade dos costumes e das paixões.
"Porque ainda que Deus para castigar os pecados, tem a razão de sua justiça, para os perdoar e desistir do castigo, tem outra razão maior, que é a da sua glória: Qui enim misereri consuevit, et non vulgarem in eo gloriam habet; ob quam causam mei non miseretur? Pede razão Jó a Deus, e tem muita razão de a pedir (responde por ele o mesmo santo, que o argüiu), porque, se é condição de Deus usar de misericórdia, e é grande e não vulgar a glória que adquire em perdoar pecados, que razão tem, ou pode dar bastante, de os não perdoar?" (Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as da Holanda, Padre Antonio Vieira)
O Mundo somente terá paz quando o homem compreender a necessidade da convivência pacífica entre as nações, as raças e as religiões. Se Deus existe, é um só, embora cada religião lhe dê um nome diferente e muitos fanáticos achem que somente o seu é o verdadeiro Deus. O Mundo somente terá paz quando houver o respeito universal pela Humanidade. Até que isso aconteça, não teremos a "Justiça Infinita", mas apenas a estupidez infinita. Uma das maiores provas disso é a facilidade com que certos governantes conseguem chegar ao poder, utilizando o dinheiro, a demagogia, a corrupção ou o fanatismo religioso, para enganar o povo. A nossa inteligência é tão limitada, que nós entregamos a direção do Estado, e do Mundo, a uma pessoa qualquer, sem que esta seja previamente submetida, ao menos, a um exame psicológico. No entanto, para dirigir qualquer carro velho, esse exame é absolutamente indispensável.

Fernando Machado da Silva Lima
Belém, Brasil - 24.09.2001
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