A Missão |
|
DESTAQUE Enquanto procura Bin Laden nos montes e vales do Afeganistão,
é importante que o Ocidente se encontre a si mesmo. Se o não fizer, qualquer vitória no terreno acabará abafada pelas ambiguidades da missão ocidental. Em resposta ao massacre de 11 de Setembro, o Ocidente encontrou na guerra ao terror um foco externo para combater uma perda interna de coesão e de sentido. A missão primária passou a ser capturar Bin Laden, morto ou vivo. Como entre Al-Qaeda e os Talibãs o conúbio é total, determinou-se que ambas as organizações deveriam ser arrasadas. A missão alargou-se, potencialmente, a todos os países que dessem guarida a terroristas. O imbróglio do Médio Oriente e o estatuto de Israel meteu-se de permeio. E em quatro semanas, todo o planeta estava enredado na primeira guerra do séc. XXI. Os problemas estratégicos da campanha militar no Afeganistão mostram à saciedade que não existirá uma solução "lá fora" para o mal-estar "cá dentro". Apanhar OBL não eliminará milhares de outros terroristas. Quando os Talibãs forem expulsos, a Loya Jirga do Afeganistão dificilmente porá fim a uma guerra civil já com vinte anos. Enquanto Afeganistão e Cachemira não tiverem paz, é impossível que Paquistão e Índia se entendam; e mesmo que tudo corresse bem no Oceano Índico, lá estariam os vizinhos de Israel a ulcerarem um mundo que assenta no petróleo bem octanado do Golfo Pérsico. Além destas velhas inseguranças, temos agora as novas. O medo de perder a guerra da propaganda revela-se na tentativa de parar a transmissão dos vídeos de Al-Qaeda, como se uma videocassette pudesse mudar o mundo. O pânico ocidental vê-se na tendência dos media para exagerar a escala de protestos muçulmanos que reúnem umas centenas ou milhares de indivíduos em cidades e países com milhões de islâmicos. A cultura de medo do Ocidente avoluma-se com o pânico do antrax, quando um punhado de cartas causou, até agora, um morto. A América é uma sinédoque do Ocidente. E a garra do medo que por lá se move aperta todas as sociedades, agora que se esbatem as fronteiras entre crises internacionais e domésticas, entre o racional e o irracional. A febre da guerra parece-se cada vez mais com a febre pura. E à medida que o Afeganistão é reduzido a escombros, a sociedade ocidental está a corroer-se por dentro. Afinal qual é a missão? "Combater as ameaças assimétricas", dizem os especialistas. Por outras palavras, a coligação internacional com superioridade militar arrasadora está preocupada com um terrorista coxo, seguido por trezentos homens nas montanhas e filmado por uma câmara de vídeo da Al-Jazeera. As "ameaças assimétricas" mostram que o material conta muito menos que a cultura. E numa guerra cultural também é preciso definir a missão sem ambiguidades. Ora a guerra do Afeganistão foi até agora uma campanha de ambiguidades. Num cenário clássico, os governos fariam propaganda para justificar esforços militares. Na operação "Liberdade Duradoura", a campanha militar serve uma propaganda para consumo doméstico e para intimidação moderada de aliados duvidosos. A ambiguidade é evidente nas duas faces da campanha, em ritmo de "stop and go". Amaciamento com mísseis e bombas; flagelação com aviões metralha e helicópteros; tropas especiais que acabarão por chegar às cavernas das montanhas afegãs. Ao mesmo tempo pacotes de alimentos e medicamentos, comboios de abastecimentos, e diplomacia coerciva, seja intimidatória seja refinada. Por cima de tudo isto, capturar OBL, morto ou vivo, é ainda a finalidade e missão principal. Esta ambiguidade é característica do novo imperialismo relutante americano, tão perigoso quanto o velho imperialismo britânico: afinal o Afeganistão está a ser bombardeado, e as consequências destabilisadoras na região circunvizinha são evidentes. E enquanto se amontoam os escombros em Cabul e Candahar, fica a pergunta: qual é a missão? Aqui há problemas. O Ocidente está mais defensivo após o estouro inicial de retórica belicosa que se seguiu aos ataques terroristas de 11 de Setembro. Há dez anos, a Guerra de Golfo começou com um ataque devastador, com 2500 surtidas na primeira noite. A primeira noite afegã teve 40 surtidas. Há dois anos, no Kosovo, a NATO estava incerta sobre a invasão por terra, mas não teve rodeios no bombardeio das cidades e comboios sérvios. No Afeganistão, os E. U.A. e aliados têm a superioridade militar absoluta e a vontade moral e autoridade para uma acção decisiva. Mas qual é a missão ? As pombas sinistras do pacifismo continuam a sonhar com os "amanhãs que cantam"; é o fundamentalismo ocidental que crê no progresso sem limites. Os falcões pesarosos do "agora ou nunca" acham que o Ocidente é superior e pronto; é o fundamentalismo do OBL às avessas. Ora a guerra contra o terror é uma guerra cultural em que cada sociedade tem que contar consigo mesma e acreditar que os valores políticos, económicos e culturais do humanismo universal são superiores porque são os únicos capazes de se auto-corrigirem. Para isso, é preciso paciência, razoabilidade, coragem e justiça e todas as demais virtudes que carecem de tempo e firmeza para darem fruto. Para isso, é preciso acabar com as ambiguidades. O pós -11 de Setembro revelou que a grande confusão do Ocidente começa quando o único intolerável é o fundamentalismo. É fácil recusar o fundamentalismo de Bin Laden. Mas quando o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi ousou sugerir que o Ocidente era superior, as pombas forçaram-no a desculpar-se. E quando o Papa apelou à paz no Casaquistão, os falcões silenciaram esse apelo. O sr. Solana não se preocupou em bombardear cristãos na Sérvia mas não aprecia bombardear islâmicos em Cabul. A reacção de muitos europeus aos ataques terroristas do 11 de Setembro, como bem denunciou o dr. Mário Soares, revela uma frouxidão que é fruto de uma incerteza sobre os valores ocidentais e de um culto da ambiguidade. É assustador um mundo em que as guerras são travadas sem justificação, e com pedidos de desculpa antes que comecem. É desprezível uma cultura que trata com suspeição qualquer crença firme. É patético que a nossa única certeza seja desconfiar de quem tiver certezas. É insalubre uma sociedade que não entusiasma os jovens para uma missão. A verdade é que, na guerra cultural em curso, a superioridade dos valores ocidentais assenta na capacidade de se auto-criticar e de se aperfeiçoar. Esse, creio eu, é o nosso fundamentalismo, que nos permite discernir o bom e o mau nas nossas sociedades. A missão, creio eu, é não o perdermos de vista. Mendo Castro Henriques Lisboa, Portugal Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o JavaScript terá de estar activado para que possa visualizar o endereço de e-mail Acrescentar como Favorito (388) | Refira este artigo no seu site | Visualizações: 2831
Só utilizadores registados podem escrever comentários. |
||||