Canto Superior Direito

Sim, aquele golo é um epílogo – o epílogo de um jogo sem história, o epílogo de uma carreira brilhante que nunca chegou a sê-lo, o epílogo de uma época que, para toda uma equipa, acabou cedo de mais.

  

Não é desprezo o que espreita do rosto de Capucho quando a bola se recolhe à baliza adversária e as bancadas das Antas se erguem num grito. Eu conheço momentos assim: uma vez tive um royal straight flush enquanto ensinava póquer ao meu primo adolescente, e o que mais vai pelo Mundo são histórias de homens que acertaram nos números do Totoloto e se esqueceram de registar o boletim. O que espreita do rosto de Capucho, no momento em que a bola se recolhe à baliza adversária e as bancadas das Antas parecem erguer-se num grito, é a súbita revelação de que tudo deveria ter acontecido noutro tempo e noutro lugar, num jogo diferente e contra outro adversário e com os holofotes próprios das grandes noites cercando o estádio.

Capucho não olha para cima como os turistas nem olha em volta como os recém-chegados – é um velho residente marchando a trote e de olhos baixos, olhando o seu olhar amargo e doce de quem não vê razões para celebrar. Marcou o golo da sua vida, mas sabe que ninguém recordará aquele momento: o jogo estava ganho de véspera, com aqueles jogadores o Porto não seria nunca campeão e, na Sport TV, Eusébio haveria de teimar até ao fim num golo de Romeu marcado com o calcanhar, mais próprio dos números de circo do que dos ateliers do futebol.

Os jornais do dia seguinte, no zelo voluntarioso de quem vive de glórias efémeras, ainda haveriam de esboçar um elogio: a “insistência de Deco”, a “sorte do ressalto”, o “oportunismo de Capucho”... Mas os compêndios acabarão por chamar os factos pelos números. Suponho que é como intitular a tragédia pelo número do voo, após um acidente de avião: dá mais gravidade à morte. “A 9 de Setembro de 2001, o Porto venceu o Varzim por 3-0. Capucho marcou o terceiro aos 89 minutos, de chapéu, respondendo com oportunismo a uma insistência de Deco, embora com alguma sorte no ressalto...” E, então, os substantivos continuarão todos trocados: aquilo a que chamam insistência foi uma manobra de diversão, o que pretendem ser um ressalto foi na verdade um endosso subtil, o que vêem como oportunismo apenas e só o gesto mais genial de todo um campeonato nacional de futebol, um movimento colectivo onde todos sabiam onde os outros iriam passar, no fim o grito prolongado das bancadas, como nos slowmotions do “Chariots Of Fire”, antes o silêncio de um filme mudo, enquanto a bola viajava em voo picado do pé de Capucho até ao canto superior direito da baliza, sobrevoando um guarda-redes impotente.

Com sorte, alguém lhe chamará “um epílogo”. Sim, aquele golo é um epílogo – o epílogo de um jogo sem história, o epílogo de uma carreira brilhante que nunca chegou a sê-lo, o epílogo de um ano que, para toda uma equipa, acabou cedo de mais. Apesar de tudo, Capucho olha por um momento em volta, procura um rosto cúmplice, pensa celebrar com alguém – mas quando a maioria daqueles rapazes começou a jogar futebol já ele usava o 43, e nenhum deles compreenderia o que se celebrava. Então, ele recupera o seu trote solitário. Não olha para cima como os turistas nem olha em volta como os recém-chegados – é um velho residente marchando de olhos baixos, olhando o seu olhar amargo e doce de quem, de novo, não vê razões para celebrar. Não é desprezo o que espreita do seu olhar – apenas há homens assim: como as strippers nas despedidas de solteiro, sentem-se mais nus ao recolherem as roupas do chão do que no momento em que as despiam para exibir a sua nudez.


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