Carta a Diego Maradona

As idades literárias têm uma vantagem sobre as idades futebolísticas: em nenhum momento nos aparece um adutor emboscado, pronto a acabar com tudo. Para mais, a nós não nos despistam as drogas

 

Reli hoje algumas páginas de um diário antigo. Tu nunca tiveste um diário – a tua vida foi sempre tão profícua, as tuas memórias tão frescas e sucessivas, que tiveste o bom senso de não as fixar em papel cedo de mais, de as deixar viver enquanto cada ciclo conservasse uma ponta solta por onde desenhar a manta ou para sempre desfazer o nó. Eu tive um diário – mesmo que quisesse (e às vezes quero) não conseguiria encontrar as pontas soltas aos ciclos da minha vida. Gosto de acreditar que é um diário antigo. Não o é tanto como isso. Chamo-lhe “escrito da juventude” como o faço com todos os textos de que me envergonho. As idades literárias têm uma vantagem sobre as idades futebolísticas: podem ser reordenadas, viradas do avesso e de pernas para o ar, contadas de baixo para cima e da direita para a esquerda, que em nenhum momento nos aparece um adutor emboscado, pronto a acabar com tudo. Para mais, a nós não nos despistam as drogas.

No meu diário da juventude, os homens têm nomes de homens e as máquinas nomes de máquinas, e à gravilha que se abandona à curva da estrada tento não chamar pedrinhas da calçada. Tive os meus devaneios: sonhei ser um sniper e um corredor dos cem metros, quis ser um pária como Jack London e um escritor como o Graham Greene, tive o nome no Passeio da Fama e fui um pobre adolescente deambulando entre a ilha ausente e a Lisboa distante. A 3 de Março de 1994, no entanto, limitei-me a pegar num volume de Vergílio e a sublinhar o que ele escrevera vinte anos antes – precisamente vinte anos antes, no dia em que eu nascera do ventre de minha mãe, como se diz nuns poemas que agora não vêm ao caso. Fi-lo com a sagacidade do atirador furtivo e a acutilância do velocista – e, se outra prova não houvesse, tanto bastava como aquele gesto para que eu continuasse a ser um pobre adolescente deambulando entre a ilha ausente e a Lisboa distante.

“Gostaria de falar no caos por que passamos”, escreve Vergílio. “Anteontem, um amigo meu dizia-me que a mulher lhe deu uma ‘facada’ matrimonial por desforço. Ele achou justo. Tentação de um camarada para ‘bacanais’ em grupo. Não quis. Ainda? Uma jovem: ‘Estudo, vou para a cama com uns amigos, vou muito bem.’ Uma antiga aluna minha: ‘Não casei, foi bom, vou para a cama com quem me apetece.’ Na-tu-ral-men-te. Livros de Bréchon com cartas dele para a mulher e vice-versa, contando as suas aventuras extramatromoniais. Como se dissessem: ‘Está chuva, está calor’. O que está em causa não é tanto um acerto ‘racional’ mas ‘emotivo’. É esse o problema de quem se escolheu emocionado de outra maneira.”

Hoje sei o que valho: já quis ser um pária como London e um escritor como o Greene, quis ter o nome no Passeio da Fama e correr os cem metros ao lado do Carl Lewis – agora basta-me uma página em branco e um nome que me emocione a quem dedicar a mentira. Escolhi o teu – escolhi esta carta. Mas nunca deixaram de me preocupar a mesquinhez e a pobreza e a cobardia, e houve um dia em que precisei de acreditar que as palavras de Vergílio, escritas a 3 de Março de 1974, tinham um significado. Como se a Revolução tivesse começado naquele mesmo dia, a mês e meio do golpe do Carmo – e tivesse começado com inteligência, com coragem, com aquele rompimento de pactos entre o diarista da Nação e a hipocrisia.

Não sei se sabes o que Borges escreveu no dia em que nasceste. Provavelmente nunca tiveste necessidade de sabê-lo. Mas tu, que foste quase tudo, nunca quiseste ser apenas um pobre adolescente deambulando entre a ilha ausente e a Lisboa distante? Até onde quiseste tu ser eu, quando eu quis tanto estar na tua pele?

 

Joel Neto

www.joelneto.com