Cinco contra cinco

Na ilha da Graciosa, onde todos os nomes são esdrúxulos, há um homem de nome Eusébio e outro de nome Coluna, há um Hilário, um Peres e um Lourenço

 

– e são todos irmãos. Não sei se é mito, se é verdade: sei que há um Eusébio e um Coluna, um Hilário, um Peres e um Lourenço, todos irmãos de pai e de mãe – e sei sobretudo que só não chegou a haver um Simões e um Morais e um Torres (assim mesmo, como nomes próprios) porque o Lourenço ameaçou sair de pés, a parteira mandou chamar um médico a Santa Cruz e, feito o rescaldo das manobras, a dinastia fechou para liquidação.

Enfim, eram tempos de miséria, sem acompanhamento de gravidez nem GNT, e Brivaldo Menezes, pai e treinador principal, mergulhou nos copos para nunca mais voltar. Ainda hoje, no entanto, o seu nome me vem à memória sempre que me lembro do Renato e do Manuel Aurora, do Jorge António e do Tareco, os meus gloriosos companheiros de futebol da Terra Chã.

Brivaldo vivia um sonho: o sonho de construir uma equipa de futebol de irmãos, uma gloriosa equipa de futebol com os nomes de todos os magriços. Nós vivíamos uma frustração: tínhamos uma equipa linda, mortífera, mas na verdade não era bem uma equipa – era uma equipa incompleta, que precisava sempre de mais uns rapazes do Terreiro para completar o onze, uma rapazes sem jeito para nos entenderem com um simples olhar, incapazes dos mecanismos 2x1 que havíamos rotinado, perdidos num campo enorme enquanto nós os cinco trocávamos a bola e a tentávamos levar às costas até ao outro lado do campo. Em suma, tanto nós como Brivaldo Menezes, da ilha da Graciosa, desconhecíamos o futebol de cinco – e esse é que era o verdadeiro problema.

Hoje, quando eu ligo o GNT e vejo a Ulbra e o Goiás digladiando-se a toda a extensão do meu black-trinitron, tenho a festa do guarda-redes gaúcho no lado direito do ecrã e os lamentos do guardião rancheiro no outro extremo do monitor. Está tudo ali dentro: tudo acontece dentro de uma cabine telefónica, como nos tempos do Paulo Futre, mas principalmente tudo se passa com apenas cinco homens – cinco rapazes como na minha parca vizinhança, cinco jogadores como os pupilos de Brivaldo, cinco filhos como o máximo a que hoje pode aspirar uma dinastia, nestes tempos de famílias nucleares acanhadas. Sejamos claros: se o GNT tivesse aparecido mais cedo, provavelmente os irmãos Vidigal não estavam agora cada um para seu lado.

Porque o futebol de cinco é arte, arte pura e incontestável: a bola tem tiques de esfera de flippers, os jogadores movem-se como Speedy Gonzalez, as balizas murcham ao fundo do ecrã – e no entanto tudo aquilo faz sentido, tudo aquilo é força e velocidade e beleza, com os mesmos golos, as mesmas fintas e as mesmas defesas in extremis do futebol de onze, mas num terço do espaço, num terço do tempo. Se o futebol de onze é prosa, o futebol de cinco é poesia – bela e concisa, sem desperdícios. Se fossem ambos mulheres, o futebol de onze era a Cameron Diaz, longa e gélida como as mulheres que queremos, e o futebol de cinco a Jennifer Lopez, pequena e curvilínea como as que amamos.

Mas atenção às palavras: chamo-lhe “futebol de cinco”, não “futsal”, esse nome sem chama nem história com que os brasileiros tentaram individualizá-lo, a pensar no marketing. Porque o futebol de cinco sempre foi, é e será um desporto angustiado, sem personalidade, obrigado a usurpar o nome de outro para poder existir. E, se alguma vez me perguntarem o nome de um jogador, direi que não conheço nenhum – mesmo que conheça, direi que não conheço nenhum. Os jogadores de futebol de cinco são todos jogadores de futebol de onze frustrados, e como há muito sabemos a frustração é a raiz de quase toda a arte.

 

Joel Neto