The next big thing

Esperei anos por este momento em que me atropelaria a mim próprio em busca da glória de descobrir, antes de todos os outros, a próxima grande coisa do futebol português.

 

Eu não sou crítico. Nem de música, nem de literatura – nem sequer de futebol. Mas, como os críticos literários se atropelam pela glória de descobrir a “próxima grande coisa” da literatura, também a mim me deu agora para essa coisa mundana de ser reconhecido – e decidi ser reconhecido, à falta de melhor, como o descobridor da próxima grande coisa do futebol. Já tive momentos altos nessa caminhada. Escolhi o Zahovic para a minha Liga Fantástica com base numa simples incursão pela esquerda, ainda ele era suplente no Guimarães. Dediquei a Derlei adjectivos redondos por causa de uma mera assistência à meia volta, ainda ele não passava de um tosco no Leiria. Mesmo assim continuei à espera – esperei anos por este momento em que me atropelaria a mim próprio em busca da glória de descobrir, antes de todos os outros, o maior jogador do futebol português. Hoje estou preparado. Seguro. Um pouco altivo, até. Aprendi com Spielberg: não te ponhas a prever o futuro porque podes não ter como evitar que ele se torne realidade. E, para que se torne realidade, eis o anúncio que me glorificará como o crítico que até hoje recusara ser: a próxima grande coisa do futebol português é Carlos Martins. Não é Cristiano Ronaldo, é Carlos Martins.

Não quero exagerar. Talvez Carlos Martins nunca venha a ser como Baggio, talvez nem chegue sequer à magia de Zidane – e Maradona jamais será, com certeza. Mas aquele passe que ele fez ao Cristiano Ronaldo, no lance que deu ao Sporting a vitória no Bessa, aquele passe em que ele guarda a bola até ao limite e desconjunta dois adversários com um alongamento de espinha e mata a bola devagarinho para o colega na cara do golo, aquele momento mágico em que nenhum defesa pode prever o movimento do lance, em que nenhum guarda-redes pode saltar a tempo da baliza e nenhum fiscal de linha pode levantar a bandeira do fora-de-jogo por tão cabalmente tratar-se de um passe de génio e de lei – esse é o meu passe e o meu jogador e o meu momento de proclamar a descoberta da next big thing do futebol nacional. Sei-o porque, durante estes anos em que esperei pelo momento de exclamar: “Cá está ele!”, estive várias vezes à beira de precipitar-me. Atenção: eu vi nascer o Dani e o Simão, li escaparates com o Hugo Leal e o Boa-Morte, sonhei com o Hugo Viana e o Quaresma – e como muitos outros estive à beira de encher as goelas e exclamar: “Cá está ele!” Felizmente, calei-me. Agora chegou a minha vez. E, porque chegou a minha vez, insisto no anúncio que me glorificará como crítico: a próxima grande coisa do futebol português é Carlos Martins.

E se alguém quiser esmagar-me com o nome de Figo – se alguém quiser esmagar-me com o nome e o dinheiro e a namorada do Figo – eu direi apenas: Figo errava. Aos 20 anos, Figo errava muito. Nós defendíamo-lo: Figo erra porque o seu futebol é adulto de mais para os colegas e ninguém o compreende. Mas errar é fácil – é como aqueles actores que fazem de deficientes e, a certa altura, tanto nos dá que se babem para a esquerda como para a direita: são sempre deficientes. A Carlos Martins, nunca o vi errar. Vi-o perder a ganhar bolas, vi-o chutar à baliza e por cima da barra, vi-o ajudar os colegas da defesa e ficar-se nas covas – mas errar, errar mesmo um daqueles erros que nunca mais esquecemos, nunca vi. E porque é verdade, e para que conste, eis o anúncio que me glorificará como crítico: a próxima grande coisa do futebol português é Carlos Martins. Foi ele que fez o passe.

 

Joel Neto