PeL - Estás numa posição priveligiada, vivendo a meio tempo entre Portugal e os Estados Unidos para falar sobre a importância da nossa língua e da nossa literatura desse lado. Ouve-se? Fala-se? Lê-se? CPC - Em poucas palavras? Não! É triste mas é verdade. E esta obliteração do português não pode de forma nenhuma ser imputada em exclusivo ao tradicional umbiguismo americano: Portugal não faz qualquer espécie de esforço consistente e inteligente para promover a sua imagem fora de portas. PeL - Que repercussões aí chegaram do Nobel? CPC - Nenhumas! A foto do Saramago apareceu na Time e na Newsweek, nesse dia falou-se dele na rádio, e pronto. Nem um único livro dele se vê nas montras, e eu, que passo o tempo metida em Universidades, não ouvi falar dele uma única vez. Talvez isto tenha sido diferente nos departamentos de Português, mas os departamentos de Português não são estatisticamente significativos. Uma vez mais, temos o que merecemos: se nem com um Nobel Portugal se esforça por avisar os outros de que existe, depois não se veham queixar... PeL - Acreditas na possibilidade de manutenção do espaço lusófono? Preocupa-te? CPC - Acredito, porque acredito na alma lusófona. Preocupo-me muito porque uma vez mais não vejo esforços oficiais concertados, mas tenho muita confiança na identidade profunda das pessoas. PeL - Preferes escrever poesia, romance, ensaio, artigos jornalísticos, artigos científicos ou cartas? CPC - Tudo, tirando artigos científicos. Porque isso não é escrever, é usar um esqueleto de terminologia técnica e meter lá os nossos resultados nos lugares previamente distribuídos. Fazer experiências é muito excitante, mas escrever sobre elas neste formato não dá gozo nenhum. Nem é preciso saber línguas! PeL - Porque és tão multifacetada? É genético ou adquirido? CPC - Deve ser genético, porque ninguém me obrigou a adquirir nada. E como a questão das facetas múltiplas joga permanentemente contra mim (se ela é isto então não pode ser aquilo...), se não fosse genético já tinha idade para ter juízo e me deixar de interdisciplinaridades. PeL - E porque tens sempre êxito ou qualidade em tudo o que fazes apesar de fazeres tantas coisas? Método? Determinação? Não deixar nada a meio? O quê? Por favor diz! CPC - Método e determinação com certeza. Não deixar nada a meio é uma regra de ouro. Gostar do que faço tambem é muito importante.
Lá sobre a questão do êxito ou da qualidade é que já não posso pronunciar-me... PeL - Pareces procurar muito a verdade das coisas e da vida. A tua ficção é também uma necessidade de verdade? CPC - É possível, mas é sobretudo uma necessidade de exploração. E um grande prazer de contar histórias.