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Comentário do Mês
Fevereiro 99


Que futuro Angola?


4 de Fevereiro de 1999.
Faz hoje 38 anos que o povo angolano iniciou a sua luta pela libertação.
Uma explosão de raiva durante anos contida numa luta horrorosa, sanguenta, geradora de ódios, como todas as lutas. Valeu a pena? Holden Roberto, Agostinho Neto, António Jacinto, Viriato da Cruz, entre tantos outros. Valeu a pena?
É demasiado cedo para sabermos. A História o dirá!
Certamente que vale sempre a pena que um povo se revolte e lute pela sua libertação e independência. Certamente que vale a pena que um povo lute por condições dignas de vida, sem jugos, sem submissões, uma vida de iguais condições de acesso à... vida!
Mas serão essas as condições que o povo angolano tem? Serão essas as condições que sonhavam os homens que abnegadamente deixaram as suas profissões para lutarem pela independência dos seus irmãos? Não era certamente a fome, a miséria, a doença, a falta de uma casa, o risco de morte a cada passo, a degradação de uma guerra entre irmãos que estes homens desejavam alcançar quando iniciaram, a 4 de Fevereiro, a luta pela independência do seu país.
O que está mal, então?
Muitas coisas estão mal! Mas há uma que, acima de todas as outras, se destaca. Aquela que marca a diferença entre os homens. A capacidade de amar e ser solidário.
Quem iniciou a luta pela libertação e independência de Angola fê-lo pelo futuro de Angola e pelo futuro dos angolanos sabendo que havia de morrer - na luta ou fora dela - mas acreditando que o resultado da sua luta originasse melhores condições de vida para as gerações vindouras. Os iniciadores da luta pela libertação e independência de Angola não lutavam por condições para si próprios, lutavam por condições para uma terra e um povo que sobreviveria muito para além da sua morte.
Aqueles homens e mulheres apostavam na educação do seu povo, na sua alfabetização, na sua aprendizagem da vida e da dignidade. Apostavam na juventude como o pilar principal de uma sociedade de futuro, justa e solidária, sem ódios, universalista. Não será por acaso que muitos deles foram escritores e poetas...

Um dia destes, num contexto completamente diferente e muito longe de Angola, ouvi, dito pelo próprio, um poema de Edgar Carneiro, da sua antologia poética, o poema "Pedagogia":

Deram-lhe livros: rasgou,
Porque não sabia ler;
Deram-lhe penas: quebrou,
Por não saber escrever;
Como terras não teria,
Bois e cangas recusou;
Outras artes não sabia
Ou, se sabia, esqueceu.
Deram-lhe um cinto de balas
E uma espingarda: matou!
Foi tudo quanto aprendeu.
Amar, ninguém lhe ensinou.

Imediatamente, com uma enorme tristeza, me lembrei dos meninos e dos jovens angolanos. Isto pode parecer chocante. Mas é chocante! É desumano!
Há jovens em Angola que, desde que nasceram até hoje, não conhecem outra situação de vida que não seja a guerra! Se lhos dessem, rasgavam livros, quebravam penas, recusavam bois e cangas. Mas saberiam certamente usar uma espingarda! Para matar. Para tentar sobreviver...

Quando, após o assentar da poeira dos tempos, a História se escrever, a responsabilidade recairá, estou certo, sobre os homens que, hoje, quais deuses, lutam pelo poder para seu usufruto. E esquecem que, após eles, um país e outros homens terão de viver.
Eles são hoje os responsáveis por esse futuro!


António Ribeiro


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