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Comentário do Mês
Dezembro


Visão jovem de Lusofonia/Lusotropicalismo


Bom aquilo que a gente chama lusofonia, é algo vago, muito des-definido, indefinido, e alter-definido, isto é, é muitas coisas para muita gente e para outras é quase nada. Não se pode reduzir a uma definição etimológica, fazendo a parafrase: falar português. O termo mudou muito, e nestes últimos anos tem-se auto-reformulado o termo das mais variadas formas, conforme a utilização e os usos que dele fazem. A par de Lusofonia, existiram outros termos que a palavra tende a abarcar, e tandos mais há-de: Lusotropicalismo, lusismo e V Império. Hoje já se vê "CPLP" pelo meio, e «solidariedade» é uma das componentes mais requeridas no discurso lusófono. A verdade é que a língua, a Língua de L maiúsculo, é muito mais que palavras, muito mais. É a pátria, e permitam-me que cite Fernando Pessoa:

Cantigas de Portugueses
são como barcos no mar
vão de uma alma para a outra
com risco de naufragar

É um poema lindo e faz-me lembrar as comunidades indo-portuguesas no oriente, onde em todas elas ser-se português é uma afirmação de identidade baseada na língua, na música, nas cantigas e/ou na gastronomia, que guardam religiosamente, já faz séculos, como um valor precioso a preservar, e eles são apenas minúsculos aglomerados de pessoas. Em Malaca o nacionalismo é tão exacerbado que todas as casas guardam uma cruz, uma bandeira ou um escudo de Portugal, e este para eles é uma imagem mítica, idílica, é uma saudade, do passado e dum futuro prometido! (?) Pois então que será lusofonia? Ou a portugalidade lusófona?
Um amor ao desconhecido? A saudade do futuro? Uma angústia agonizante que se esgrima para esquecer as dores e os pecados na procura infantil de um conto de fadas de uma pureza campestre? A lusofonia, no seu caracter apolítico é uma ingenuidade que apenas que se auto-realiza em manifestações de amor, de irracionalidade, de uma ligação incompreensiva com povos, culturas, ideais que não conhecemos mas aos quais procuramos exibir como fim de um troféu de perfeição de auto-realização, com os quais nos sentimos ligados sem sequer os conhecer .Estes são vestígios do V Imperio de Vieira, do Modelo de Vida de Agostinho da Silva, do Saudosismo de Pascoaes ou do Misticismo de Pessoa: "Sangue, suor e lágrimas" em nome de quê? Em nome de uma certeza profunda de pureza, de um sentido de realização, de uma missão inexplicável ou mítica, inefável, abastecida pelas máximas cristãs.

Mas existe outra lusofonia, a da paternalidade, a do paternalismo, a do neo-colonialismo, e foi assim que a palavra nasceu, a par de uma procura de encontrar uma alternativa ao sistema europeu de relacionamento, de uma especificidade portuguesa de império ou de pós-império. Esta é a caracteristica mais paradoxal da lusofonia. São estes dois opostos, que se confluem no projecto politico que é a lusofonia: o sentimento e a economia. Os discursos politicos são um misto dos dois, e isso legitima cada um dos opostos ou melhor possibilita-os. A economia socorre-se do sentimento e o sentimento actua pela economia. Mas o discurso lusófono não é só usado por Portugal, enganem-se os que assim pensam, ele é também usado, abusado, e reiterado por muitos que pelos quatro cantos do mundo se apropriam do termo e constroem projectos ideais com ele.

Em Cabo Verde é uma forma de comungar de consensualizar os que se crêem uma variante da Portugalidade e os que se auto-excluem no refúgio da pan-africanidade, da mesma forma que é usado como aliciante aos Governos português e brasileiro para efectuarem investimentos nas ilhas, ou protagonismo. A lusofonia é ainda utilizada em Cabo Verde como tentativa de centralizar a Lusofonia nas ilhas, como a dar a Cabo Verde o papel principal de interlocutor, numa CPLP que se constrói, isto é, é o vínculo discursivo para dar a Cabo Verde um poder simbólico, visto não ter algum material.

Na Guiné-Bissau, desde há muito que é um termo usado como base de procura de identidade perante tantos vizinhos ávidos e gananciosos. Foi usada, constantemente, durante o conflito vigente, como forma de socorro, quase como dialéctica hipócrita, como dialéctica expontânea e popular, é capaz de ser o fenómeno mais intrigante no seio da Lusofonologia.

Em Angola, lusofonia não passa de um jogo de interesses, de procura de capitais de defesa, isto é de aliados, mas regra geral a Lusofonia sente-se intrincheirada junto com a crioulidade urbana na guerra com o tribalismo e o pan-africanismo.

Em São Tomé, regista-se um misto entre o sentimento de pertença a uma vertente acrioulada de portugalidade como em Cabo Verde, e a ânsia de necessidade de apoios e muralhas na guerra de sobrevivência pelo poder.

Em Moçambique, lusofonia é também um misto de interpretações, uma mistura de loucura saudosista das comunidades brancas e indianas (goesas), e um forte centro contra a diluição de Moçambique nos países vizinhos, para além de ser uma forte justificação diplomática para que Moçambique consiga manter uma distância dentro da CommonWealth de forma a se manter crítica nas resoluções da comunidade anglófona.

No Brasil, é um discurso imperialista, um discrurso renovador, de revisionismo histórico, um discurso emocional, um dircurso perdido e que apenas move gestos de intenções, o luso-tropicalimo brasileiro é uma salvaguarda mantida na gaveta para dias piores...

Em Goa, Damão e Diu, é a procura de um futuro para a sua cultura, hoje tão dominada, e minoritária face ao continente indiano, a vertente imediata é a reunião dos territórios numa perspectiva de futuro próximo, mesmo que isso cheire a um mofo de restos coloniais, de aristrocracia burocrática, ou a um gesto de afirmação católico.

Nas várias Comunidades Indo-portuguesas, a que podemos juntar Ano-Bom e Ziguinchor, a lusofonia, já não é nova, tem séculos de discurso identitário, principalmente em Malaca, a sua caracterização é espontânea, mas o seu futuro é tão incerto quanto o da sobrevivência das comunidades na luta contra a globalização.

Estranho é que nos palops e portugal tenha triunfado o termo lusofonia, e no Brasil e Malaca seja o termo luso-tropicalismo que encha a boca de muitos.

Francisco Manuel

Francisco Manuel Napoleão, de Lisboa, estudante de Sociologia, 20 anos.
Colaborador de Portugal em Linha, Notícias Lusófonas, Correspondente Especial sobre Casamansa.
E-mail: fmnan@yahoo.com



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