Mão que me tocava
"Como todos os sonhadores,
confundi o desencanto com a
verdade."
Jean Paul Sartre
as marcas indissolúveis
dos açoites do tempo imprevisível
fazem sangrar a alma inebriada
de um sangue escuro e escasso e denso
que já não possuo
não me restaram mais cigarros no velho maço que levo ao bolso
não encontro mais lágrimas para chorar
a lua se pôs atrás dos penedos
e não havia estrelinhas chorando
na noite escura em que se transformou
o lindo dia azul-turquesa
existência pardacenta
contundente monotonia
do não-ser que nos devora
um a um
os sonhos todos
queria tanto
Deus meu
como queria
a simplicidade cativante e misteriosa
das rolinhas que bicam eufóricas
as migalhas de pão deitadas no meu quintal dos fundos
pela manhã
quanta metafísica há
no viver inconseqüente
no voar tão sem propósito
desses pequeninos pássaros matutinos
tão ingênuos e tão tolinhos
não
não me atormentem mais
com inúteis e complicadas questões
existenciais
a vida é
em si mesma
a única questão incompreensível
que tanto insisti em interpretar
um rosto que jamais vi
como um retrato do Profeta
que jamais foi pintado
uma alma sem corpo
desejos íntimos
sonhos secretos
trancados na ante-sala da luz
no limiar da consciência que jamais tive
onde estás que não me ouves
onde estás que não me vês
e não sentes a minha angústia profunda deste instante
de amarga solidão
se é que um dia exististe
mão do Destino
que julguei que me tocava