Portugal em Linha
Novos Poetas Lusófonos

Mãe desonrada

pela noite branda
vagueas na escuridão da insolência
folgando o corpo fatigado de insaciedades
ostentas o pudor da tua vislumbrância
e o fulgor dum corpo remechido a madrugada
teus olhos brilham cores sangrentas
com bandeiras duma guerra perdida
De tão longe que chegam são sons entorpecidos
enquanto vozes plangentes
clamam a retumbância de tambores vazios.

Noé Filimão Massango, Maputo, Moçambique
email: nmassan@health.uem.mz


Poema Poemeto

Poemeto, poemeto
Escreve-os um poetastro
É um poemeto o trevo
que cresce e se espalha no pasto

Antes ele que a macega
Com sua riqueza daninha
Antes ele que muita bela
Espinhosa santolina

Um trevo de quatro folhas
Uma sorte de encontrar
Escrevo píra todas as moças
Que os gostem de os apanhar

Verdes são os meus poemas
Quero-os ao gosto do povo
Na boca de jovens morenas
Em canções que ouvir dá gosto

Poemetas Lusitanos
Poemetas celtas da serra
Cantados por pastores serranos
Mais pastoras na Primavera

Pelo o orvalho descobertos
Poemas de tudo e nada
Poemas de amores e afectos
Em alguma desgarrrada

Poemetos, poemetos
Como malmequeres bravos
Cantam desejos e anseios
Na poesia sem cuidados

Fogem ao tempo no rimar
Feitos ingénuos romeiros
Galegos, poemas do mar
Poemas de marinheiros

Escrevo este poemetos
Poemas da minha alma
Perdida por lugares ermos
Entre a urze e a silva brava

Silvério Gabriel de Melo, Vogelbach, Alemanha
email: silverio@mail3.bunt.com


Tríade

Na tríade
das divindades
o Deus-menino
era o meu preferido.

Porquê?

por ser Deus?
ou ser menino?

Simplesmente
por tão pequenino
não saber
do seu ofício.

Helena Monteiro, Lisboa, Portugal - 21 de Janeiro de 1999
email: refugio_7@hotmail.com


Timidez

Este meu jeito às avessas
de fazer as coisas...
Essa tortura,
a demora por entender-me -
uma brasa dormente,
um desejo escondido,
gota de sangue guardada.
Confusão!
É descuido bem cuidado,
virginidade,
leite brotando do chão.
Estranheza
às vezes absurda.
Mas é assim que eu,
um bicho arisco, assustado,
grito minha vida
em timidez- palavra.

Virgínia de Oliveira, São Paulo, Brasil
email: bueno@net-k.com.br


Jam Session

Que palavras poéticas
trariam melhor ética
capaz de atrair os rapazes
sem trair o nosso bem
como o saxofonista faz
quando espezinha os pulmões
enquanto o público aplaude
explodindo sua frustação
de bandido escondido na multidão
preparado p'ra ser raptado
castigado mesmo fatigado
debaixo desta debandada de lixo
iluminada, danada
alucinada, estagnada
culminada numa vida minada
onde se escondem répteis
da era dos condes estáveis

Que palavras, Senhor
seriam susceptíveis a atenção
merecendo frases críticas
pudor, medo
horror, escrita
pronta para analisar a vitória
dessa estória
p'la ponta pelada
que descreve a verdade?

Que palavras poéticas
poderiam confirmar
a expressão íntima?
transformada em imaginação
neste exercício criativo
onde tudo é activo
sobretudo quando vivo
mesmo sobrevivido
nesta variante
que diz cante, cante
embora de borla
até o final do sistema
onde prevalecem esquemas
que se valem por temas
absurdos, inconsequentes
do curto precurso reducionista
cronista no discurso...

Domingos Carlos Pedro, Maputo, Moçambique
email: NEVAO@nambu.uem.mz


Estranho habitante

1. transportava nos gestos
o limiar das palavras que lhe brotavam
da boca. Incandescentes
e cruéis como o sentido exacto
das suas origens.

fazia do monólogo
que lhe pendia dos lábios
o centro irónico do universo
(dele)

2. num vago olhar
foi capaz de constatar
que a esplanada do café
era pequena demais
para suportar o peso do seu discurso
intemporal. talvez por isso
decidiu retirar-se.

3. um dia disseram-me que ele era poeta.

António Pires Vicente, Praia da Vitória, Portugal
email: apvicente@mail.telepac.pt


Raio de luar

O luar entrou pela minha janela
e aqueceu o meu coração,
iluminou a minha alma
acendeu o meu corpo.

Mas quantas noites vai este luar durar?
Temo as nuvens e sombras que o vão tapar.
E em quantas mais janelas irá entrar?

É tão pouco real
tão transitório
um raio de luar!

Como vou seguir
o rastro do luar?
Uma noite vai-se exibir
outra desaparecer!

Este luar tocou-me bem fundo
transformou-me em estátua
e imobilizou-me para o mundo.

Como vou acalmar
estes loucos desejos?
A vontade de voar
e agarrar o luar?

Como vou viver sem esta luz
que desvanece as estrelas
vence as tormentas
e penetra a neblina?

Como vou evitar
ir atrás da vontade,
tomada a decisão
de seguir o luar?

E se ele se esfumar
na natureza própria do etéreo
e em nada se transformar
como vou ficar?
Como posso querer a lua,
a tal sonho ambicionar?
Sempre a girar muda de lugar
sem se poder agarrar.

Fica comigo luar!
Sossega o meu ser
acalma o meu pensar!

Ana Pintão, Lisboa, Portugal
email: anapintao@mail.telepac.pt


Ser criança

Pisar no lodo, chafurdar na lama;
Cara no vento, flauteando flores...
Na inocência..., não saber de amores...;
Não se queimar na perigosa chama...

Pular, correr, viver com desatino,
livre do pejo, dor..., ansiedade...
Não ter paixões..., jamais sentir saudade!
Curtir a vida simples de menino.

Pião na mão, caniço, baladeira...
Nunca pensar..., viver de brincadeira;
Nunca guardar rancores ou lembrança.

Desejo de esquecer esses teus olhos,
Que são na minha vida meus abrolhos...
Vontade de voltar a ser criança!

Valdez de Oliveira Cavalcanti, João Pessoa, Brasil
email: valdez@netwaybbs.com.br


Ela nem sabe...

Ela nem sabe...
Ou saberá?
A dúvida é angustiante...
Doces palavras me diz
Cintilantes estrelas me envia
Brilhante sol me alumia
Encandeia-me...
Ela sabe?
O que sabe?
Mas não diz...
Ah dúvida que dói!
Ela sente?
O que sente?
Porque não diz?
Ah dolorosa inquietação...
Sabe ela que eu vivo,
Depois de antes ter morrido?
Sabe ela que eu desejo,
Retirar dos seus lindos olhos,
A tristeza que lá vejo?
Fazer bater seu coração,
Compassado com o meu
Entregar-me no seu corpo
E fazê-la recuperar
A alegria que perdeu?
Sabe ela?
Que sei eu?...

Anónimo, Portugal


Um Azul e o Teu Sorriso
(Para Maria Augusta)


Há uma certa tristeza em mim.
Algo assim como uma vontade
De não ser onde estou, jasmim
De momento úmido me invade

Não sei. Talvez seja teu sorriso
Que é muito distante na minha
Memória. Teus lábios memorizo
Mas então algo que caminha

Lento, numa dor se transforma.
Penso numa tonalidade
De azul que realça a tua forma,
Que logo borra em realidade...

Mas a tristeza não somente
De ti que se fora é. Contigo
Reparto algo de azul na mente
De não saber como é que sigo.

João Paulo Cerqueira de Carvalho, Bahia, Brasil
email: jpaulo@cdl.com.br




Só porque
Você me viu chorar
Não precisa isso a todo o mundo contar

Só porque demonstrei por instantes minhas fraquezas
Isto não quer dizer que
Minh'alma não contenha belezas

Só porque você riu de mim
Chega agora
Ponto final no nosso relacionamento

Fim

E não adianta chantagear
Você nunca teve pena de mim
Portanto com dó de você
Não irei ficar
Só porque
Você não prezou minha liberdade
Agora lhe digo: - Adeus
E nunca, por nada deste mundo
Venha me falar em - Saudade -

Mariinha, Amparo, Brasil
email: mariinha.eros@wayout.com.br


Inveja

Cuidado!
Ela te espreita!

Ora aparece sorrindo,
Ora aparece tristonha.
Camufla a face medonha.
Veneno infiltrado, insistindo.
Sorriso atado no rosto.
Em olhar enviezado.
Traz no espírito endiabrado
Falso prazer e desgosto.

Cuidado!
Ela te espreita!
Sempre te espreita...

Amiga de todas as horas,
De teu sangue sequiosa
Vezes é muito formosa.
Um ódio no olhar te devora...
Quando estais só é gentil.
Mas em grupo te isolas,
O falso equilíbrio degringola.
Tudo passa a ser ardil!

Cuidado!
Ela te espreita!
Está sempre ao teu lado...

A nossa criança amedronta,
Ou a racionalidade esquarteja.
Todo o teu corpo esbraveja
Paira no ar uma afronta.

Amiga das horas perdidas.
Ausente nas horas difíceis.
Garras de unhas retráteis,
Autora de longas feridas.

Cuidado!
Ela te espreita!

Do ciúme que é posse, é diferente.
No oco da alma ataca.
O olho, no fundo, destaca
Enorme ódio carente.

Cuidado!
Ela te espreita!

Amaury da Silva Rego, Rio de Janeiro, Brasil
email: guada@vetor.com.br


A um Amigo

A um amigo
mais que amigo, que
da generosidade da vida,
me reacendeu o gosto
de saber a mar.
Dele sinto o ser,
com ele preencho o luar,
nele me faço poesia
e aprendo a sonhar.

Ana de Carvalho, Maputo, Moçambique
email: nika@virconn.com


Mão que me tocava

"Como todos os sonhadores,
confundi o desencanto com a
verdade."
Jean Paul Sartre


as marcas indissolúveis
dos açoites do tempo imprevisível
fazem sangrar a alma inebriada
de um sangue escuro e escasso e denso
que já não possuo
não me restaram mais cigarros no velho maço que levo ao bolso
não encontro mais lágrimas para chorar
a lua se pôs atrás dos penedos
e não havia estrelinhas chorando
na noite escura em que se transformou
o lindo dia azul-turquesa
existência pardacenta
contundente monotonia
do não-ser que nos devora
um a um
os sonhos todos
queria tanto
Deus meu
como queria
a simplicidade cativante e misteriosa
das rolinhas que bicam eufóricas
as migalhas de pão deitadas no meu quintal dos fundos
pela manhã
quanta metafísica há
no viver inconseqüente
no voar tão sem propósito
desses pequeninos pássaros matutinos
tão ingênuos e tão tolinhos
não
não me atormentem mais
com inúteis e complicadas questões
existenciais
a vida é
em si mesma
a única questão incompreensível
que tanto insisti em interpretar
um rosto que jamais vi
como um retrato do Profeta
que jamais foi pintado
uma alma sem corpo
desejos íntimos
sonhos secretos
trancados na ante-sala da luz
no limiar da consciência que jamais tive
onde estás que não me ouves
onde estás que não me vês
e não sentes a minha angústia profunda deste instante
de amarga solidão
se é que um dia exististe
mão do Destino
que julguei que me tocava

Walter Núñez Martínez, São Paulo, Brasil - 18/3/1999
email: waltermarti@hotmail.com


Ela entrou no meu email

Ela entrou no meu email
E desassossegou o meu dia
Penetrou as minhas nuvens,
Inundou-me com o seu Sol,
Fez-me rir com alegria.
Seus olhos negros de breu
Veem aqui ter comigo
Tristes, profundos e vivos
Adivinham o que não digo
Princesa das terras frias
De coração meigo e quente
Traz-me de novo uma vida
Que há muito estava ausente
Imagino-a presente...
Ela olha-me e eu a ela
Numa vertigem envolvente,
Mergulho nas suas ondas
Inundo-a das minhas estrelas
Mil sóis então explodem
E tornam o frio quente
Ela assusta-se...
Tem receio
Não quer ser a responsável
Por inconsequente devaneio.
Não te assustes minha Musa
Digo-lhe eu no meu silêncio
Haverá coisa melhor
Que deixar o coração
Sem entraves de permeio
Acordar da letargia
E expressar o que lhe vai
E o que sinto que sentes?
Ah Musa doce e terna!
Que inundaste o meu dia
Deixa fluir o teu sol
Explodir mil estrelas
Dá espaço à poesia!

Anónimo, Portugal


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