Nem tudo na vida são flores, Dolores
como na vida, nem tudo são dores
Dolores da vida, em cada esquina
a nos espreitar
Dolores do mundo,
a cada segundo
o peito a sangrar
Dolores sofridas,
ao longo da vida
nos fazem chorar
Dolores que nascem
Dolores que morrem
Dolores mutantes
Dolores gestantes
Dolores do parto
Dolores que partem,
deixando ficar
junto com as marcas,
espinhos, Dolores
e um ramo de flores
jasmim, margarida
ou um simples miosótis
como a nos dizer:
"forget-me-not"
Nem tudo na vida são dores, Dolores
como na vida, nem tudo são flores...
Tá-se bem
Tá-se bem, au pé de ti.
Tá-se bem
Tá-se bem, quando estás junto a mim.
Não há palavras para te descrever, ou olhos para te ver.
Tua personalidade é algo de saber, e talvez aprender a ser.
Comer contigo é um prazer.
Tá-se bem,
Tá-se bem, quando perguntas por mim, porque mais logo ou mais cedo vou
te ver sorrir.
Tá-se bem,
Tá-se bem, quando estou sózinho contigo, a primeira fui um amigo
agora faço parte do teu destino.
Chegaste sob rajadas de tédio
num passo cansado
de portas fechadas
e jardins solitários.
Vieste de um jeito indecente
que só o descrente sabe chegar.
Eu te acolhi consciente
de que remédio de passos cansados
de tédio
é cadeira de colo.
De jardins solitários fechados
é flôr, bicho, achego.
E de homem descrente-indecente
é beijo.
Na tela pintada por um pintor solitário
Um rabisco de beleza do teu olhar
Que me fixa e lentamente me hipnotiza
Como uma flor colhida do Éden.
A tua delicada e macia pele
Tocada pelos Deuses latinos.
Os teus lábios juntos aos meus;
O encontro de dois Mundos distintos,
Dois sonhos que se cruzam e se unem
Dois corpos que na intimidade se formam num.
Dentro desse sonho abstracto e irreal
Uma imagem de uma Deusa bela como Vénus;
Preenche o altar vazio do meu coração
E enche de alegria o universo dos prazeres,
E as nossas mãos se cruzam neste ritual
Secreto e silencioso à sombra da luz da lua!
Uma palavra que nunca é pronunciada
Olhares interligados que se devoram;
Um perfume que queima a mais cruel das almas,
Uma cama que ficou por arrumar.
Perto de ti, tudo é irreal... Imaginário;
Uma carícia que me queima a pele;
Odores exóticos e românticos
Versos lançados ao vento do norte,
Pétalas que caiem no chão enlameado.
Neste Outono com cheiro a morte...
Mas quem vive para o amor
Tem-te como a sua fonte de vida,
Porque és tu - Deusa, vampira;
A mulher perfeita que eu sempre venerarei...
As crianças brincam e não sabem
que o poderoso que a cabeça lhes afaga
é monstro alado, de sorriso composto
caveira sedenta de algemas e sangue
As crianças brincam e não sabem
que o poderoso percorre sempre
o trilho da dor alheia
sorvendo dos homens o melhor
fadando-os vazios e medrosos
pássaros sem asas, moluscos transvertidos
Convém lembrar, companheiro, a vida
para os olhos de todas as manhãs
não permitindo ao fedor das sentenças
vender o dia às trevas.
Convém lembrar, companheiro, a terra
onde pisam os pés de todas as cores, raças e crenças;
o rio de todas as canoas, de todos os peixes,
de todas as cachoeiras que assobiam prá gente
um outro sentido de vida;
o sol, manifestação real da própria existência.
Convém lembrar, companheiro,
do sopro de todos os ventos,
das matas de todas as flores,
do quintal de todas as infâncias,
de todas as várzeas, todos os campos,
todas as selvas do bichos de todas as feras e mansas;
das águas de todos os mares,
todos os brejos, lagos e lagoas.
Convém lembrar, acima de tudo,
O DIREITO DE VIVER E DEIXAR VIVER!!!!!
O caminho.
Tarde, sol.
Água que cai,
por pedras escorrendo.
Olhos, lágrima.
O grande rio da dor.
O sul de mim.
Infinitas e eternas
descobertas.
A dor.
A noite
grávida de estrelas.
Negra solidão
que me abate.
Soluço.
Lágrima ao sul.
O rio.
O grande rio
que deságua
no mar do amor.
Ricardo Quintino Santiago, Belo Horizonte, Brasil
email: rqsant@uol.com.br
no perfume da alma
se pudesse dizer por palavras
aquilo que em nós (poetas)
só existe no perfume da alma
pediria a Deus para fazer minha sua voz
e das línguas, as vírgulas dos longos versos
que escutamos no clamor de cada ser.
Quando escrevo,
Deixo a alma flutuar,
A energia do universo me contaminar...
Aí me atrevo!
Mergulho em meditações,
Derrubo as resistências às emoções ...
Encontro o amor,
A dor e a humildade.
A alegria de saborear a liberdade,
Sem nenhum pudor.
Ser livre é a fonte e o viço ...
Nada de regra, preconceito ou compromisso!
Nada assumo,
Somente a minha humanidade.
Livre para voar nas asas da criatividade ...
Este é o rumo!
Não sou amante, pai ou profeta,
Apenas um homem comum transvertido de poeta!
Oh - pára um pouco, põe-te em pé,
retém o olhar neste horizonte
e escuta o murmurejar da tua vida
ai... a eterna despedida em cada onda
a sul, assim batida pela maré...
Oh - vê agora esse barco ancorado
que jaz tímido a teu lado,
ai... assim tão despido e esquecido das cores da juventude
pela salsugem do tempo e dos amores das ondas,
sereias encantadas, ai... deste e de outros mares...
Oh - repara, és tu, ai... que como ele te escondes
no ângulo mais recôndito deste cais,
sofrendo o abandono da aragem mais fina e luzidia,
emerso no lodo e nas neblinas das manhãs
onde a pureza ai... até parece não voltar jamais...
Oh - desvenda os olhos, ai...rompe o nevoeiro que há em ti
e vem abrir os braços aos ventos varonis,
ai... deixa-os velejar ao sol do meio-dia
e verás as cores de outrora a voltar e as velas a enfunar
ai... de tal paz, de tal alegria
que has-de ter saudades de ti,
ai... quando partires na maré de um belo dia...
Afirma o poeta que o mundo pula e avança
O que nunca disse é que ele se rescreve,
sempre, mesmo na vida duma criança!
Na corrente dum rio, na vida dum vegetal
ou. até mesmo, na grandiosa arte monumental,
num curriculum de vida, qual pergaminho medieval.
Dos velhos scriptoria fica a lição
É preciso ler, não só com os olhos
mas, também com o coração!
Obrigado ó homem que deixas a marca da tua essência
nesse palimpsesto legível mesmo na tua ausência
tangivel pelos nossos sonhos o teu modus vivendi
Muitas vezes quebra cabeças, deste mundo racional,
mester rasgado do foro mental,
da escrita por ti apagada nessa pele de animal.
Dos velhos scriptoria fica a lição
É preciso ler, não só com os olhos
mas, também com a emoção!
Ó Homem! não importam os suportes que fruíste...
sejam as rochas que riscaste, sejam as rochas que esculpiste,
ou as tabuínhas enceradas, plenas de traços cuneiformes.
Papiros, pergaminhos e papeis eternizados por signos uniformes,
qual solo transformado pela inscrição da tua trânsumancia,
na enorme profusão de construções que nos legaste,
inquietação, constante, de prepectuar a tua vivência.
Dos velhos scriptoria fica a lição
É preciso ler, não só com os olhos
mas, também com paixão!
Perdoa ó homem as falhas que temos!
nesta avidez consumista nem sempre te compreendemos,
apesar da leitura, desses palimpsestos que fazemos.
Efemérides rasas de vida,
estratigráficas e infinitas marcas
de memórias triadas pelo crivo dos tempos
Dos velhos scriptoria fica a lição
É preciso ler, não só com os olhos
mas, também com gratidão!
Celeste Pereira, Portugal
A Matança
Sentado ao luar
Um triste sofrimento
Sem nenhum cabibento
Veio para lhe implorar
Uma breve memória,
Um momento malfadado,
Tido como vitória
E há muito desejado.
Uma dama de cristal
Dormindo na calçada
Com pele de coral
Cançada da caminhada.
Deitado de madrugada,
Numa ânsia de matar
O sentimento, terminar
Com a vida malvada.
Implorando uma mudança
A terrível dama malfadada
Queria apenas a esperança
De uma vida descançada.
Mas ele continuava acordado
Há muito desejando a matança
Que acabou por ser seu Fado
Num momento de vingança.
Ardiam as chamas do Inferno
Doíam as lembranças perdidas;
Era um anseio eterno
Cheio de imagens escondidas.
Cala a noite escura
Ante os ventos plácidos soprados de além
Morno aroma invade o quarto dormente
Onde repousam os lenços brancos escritos, bordados nos seios alvos
De alguém que cativo está, por uma sombra apenas.
Léguas sem fim, repartem os sensos
Uma brisa brinca nos ouvidos atentos, ávidos por um nome clamado ao longe.
Mas é apenas o vento, o mesmo que arranha os olhos doridos Mareados
cílios que insitem em buscar Sinais do lord, Sinais de além mar.
Naus derivam nas ondas ululantes
Perversas amantes daqueles que restam
Solenes, solitários, em busca de um sopro
Carentes náufragos, corsários nauseabundos.
As vistas no longe deitar do mundo
Onde o sol flamejante derrama seus desejos
Que são acolhidos nos braços, nos seios,
Daqueles que na praia resistem exaustos.
O sopro do nome nunca chega aos desesperados:
A jazida eterna na praia dificulta o sorriso.
No quarto oriente moram as dores e os anseios
Que de américa carne nasceram frementes
Carne da escrava, que observa junto aos mares de degredados
Algum sinal do senhor das áfricas,
Lord que guarda seus lenços bordados.
Elaine Cristina S. Costa, São Paulo, Brasil
email: ecrisc@zaz.com.br
Ser poeta
O poeta nasce feito
talhado na perfeição,
da pureza de um cristal,
lapidado na excepção.
Não é fabricado em massa
é o singular do plural,
não precisa de modelo,
nem de forma especial.
O poeta é a leveza
que o sonho cobre a pincel,
com as cores da natureza,
nas tintas e no papel.
O poeta é uma voz,
nasce feita em pequenino,
a face vira-a para nós
deixando o sopro divino.
E nesse toque do além
não pode voar calado.
O poeta é um ser alado,
é esse elan que o sustem.
É dono das emoções,
da lua,dos pensamentos,
das palavras e ilusões,
da vida,dos sentimentos.
Sendo poeta é o Senhor
do mundo,das alegrias ;
esvai-se nos braços do Amor,
enchendo as noites vazias !
Marilena Gomes Ribeiro, Rio de Janeiro, Brasil e José Dias Egipto, Afurada, Portugal
email: josediasegipto@mail.telepac.pt
A Árvore Espancou Vermelho o Céu Azul
M'ilumino
d'immenso
Ungaretti
Tarde como tantas, tarde azul
Azul como céu: cenário
Árvore forte (fronde)
e vermelhos-muitos: personagem
O vento sopra amarelo
E já não é mais outono: tempo
Agitam-se vermelho-muitos
Ferem o céu em brancas fúrias: tragédia
A árvore espancou vermelho o céu azul
E sangrou-lhe o ventre naquela tarde
Tarde azul como tantas: fim