Enquanto a magia da sua voz nos envolver - e há-de envolver-nos sempre - , Amália ficará para sempre entre nós.
Portugal em Linha presta aqui a sua singela homenagem, através do belo poema de um poeta brasileiro.
AMÁLIA RODRIGUES
Uma guitarra faz silêncio ao canto
O violão se queda pensativo
E todo instrumental. Por quê motivo?
Pra responder, alguém contenha o pranto;
O fado não morreu. Está bem vivo
e foi levar ao Céu o seu encanto
através de uma voz, amava-o tanto! -
com potencial interpretativo
De fato. Alguém partiu. Há nostalgia?
Não posso lhes negar que há já saudade
em todos, tenham muita ou pouca idade
Mas digo a ela, com fé e alegria:
Deixaste-nos sós cá Amália Rodrigues
porém no Céu, cantando, eia! prossiga!
no crepúsculo dos deuses todos
as assimetrias dos espíritos humanos
gritam no silêncio obtuso
dos ideais fantásticos
que não resistiram ao tempo
tempo que navega célere
pelo mar revolto das insanidades tardias
não passará
a geração obstruída
de viver utopias
no inferno sangrento
dos interesses chãos
não passará
a podridão arrogante
dos homens-vermes mesquinhos
que gastam suas vidas
enfiados em buracos negros e terríveis
não passará
a noite que não quis desembocar
em dia claro
em sol radiante
e permaneceu trancada
em milhões de medos precoces
de portas que jamais se abrirão
os vendavais já não derrubam ao chão
as folhas mortas das árvores
do bosque de todas as minhas quimeras
não sonhei com o fim do mundo
que agora me empurram
garganta abaixo
morto digo sim
a todos os nãos grafados em negrito
nas placas de trânsito que erguem
aos olhos da minha imaginação
morto continuo vivo
no sonho inacabado
absurdo devaneio infantil
ingênuo e tresloucado
de quem abre os olhos cegos
durante nevasca imponderável
e vê cores vivas
e vê flores em teus cabelos negros
e vê a primavera
onde nada mais existia
O caminho de pedra que aqui me trouxe
Segui-o por outro entando me não haver,
E sorrio, numa alegre dor de saber
Que há vida. A solidão há tempo atou-se
Com meu instinto de racionalidade.
Hoje, sinto como um bebê que mama
E não sabe que há fantasmas da tarde
E não vive a amar o amor de quem ama.
Ergue-se a nova mulher dos 40,
Presente em chamas de vida!
Sorriso sensivel e bravio,
Beleza emotiva,
Compasso festivo .
Aninha-se em sonhos incomuns e expressivos
Para além do verso des-palavreado
Do íntimo fazer poético.
A lentidão das suas lembranças
Afaga a brisa zeferi-ana
Que chega em alívio da ausência!
Esta mulher
Toca a maviosa terra
Que lhe aprofunda o saber / sabor!
Deserta a nostalgia,
Toma iniciativas,
Sonha o florir do seu corpo
Em vagas amaciantes e quentes
Que cobrem a arte do fazer amor!
Em gestos voluptuosos,
Navega vontades vagas
Em magias idílicas.
As suas mãos ecoam liberdade
Em amplidões irreais e misteriosas.
Esta nova mulher
Contempla-se em mar horizontes,
De bailados inconfundíveis
De leveza transparente e sincera...
Quer o prazear do sentir,
A inconstância do movimento
E o prosseguir do crescer,
simplesmente!
Perturba-se em hesitações eloquentes,
Passeia-se na hipersensibilidade silenciosa,
Embaraça-se ternamente.
Nos caminhos que não percorreu
Espraia a sensualidade galante
E transforma-se em força multipla
Que ultrapassa vontades ínvias.
A mulher dos 40
Expande-se em alegrias e tristezas,
Contorna as incontornáveis ambições,
Transubstancia quimeras.
Suave,
Aporta num olhar infinito
Que sabe partir
Para ficar
Eternamente!
Sonha o amanhã indestrutível!
Dias lindos!
Abrem-se em janelas
Distraidamente excentricas de satisfações.
Noites calmas!
Cantam a lua de fino traço,
Que embarriga arredondada e crescente
A vida eternecida de contrastes inegualáveis.
Esta nova mulher dos 40
Amanhece pausadamente!
A nudez de uma fantasia
Embriaga-lhe o pensamento!
A sua alma,
Melodiosamente nova,
Brota em chão de estrelas
O bem-querer-estar.
Não domestiquem esta mulher
Em pios de espanto e desalento!
Ela desabrocha,
Inexplicavelmente feliz,
O perfume da rosa
Vermelha maturescente
A UMA PINTORA
(10.02.99 no dia da morte de Maluda)
Na geometria dos teus telhados
Na simetria da tua paisagem
Na luminosidade dos teus quiosques
Na serenidade das tuas janelas
Encontraste a força intelectual
A sabedoria exponencial
A beleza espiritual
De pintar Lisboa
De pintar Portugal.
À tarde,
eu me escondo como o sol,
tentando ocultar minhas falências,
minha solidão,
meu desespêro;
procurando afugentar as mágoas
que caminham nos meus passos,
as dores,
as saudades,
os antigos abraços,
as lembranças que vagueiam,
almas perdidas
dos meus abandonos.
À tarde,
aguardo as estrelas
como quem espera
a última chance de ser feliz.
Os pássaros se escondem à tarde
voltando aos seus recantos,
aos seus abrigos.
À tarde,
eu não tenho para onde voltar
senão para dentro de mim,
tentando
a mim mesma me encontrar.
Sexta Hora
Naquela tarde
meu pensamento vaciliava pela sala
querendo um lugar no sofá
mas os papéis brancos resmugavam
lembranças...
O tempo que corria lá fora
resolveu parar nos instantes
eternizados nos portas-retratos
que insistiam em dizer-se
saudade...
Lá fora já era noite
quando o ultimo papél
ainda branco
me acenava
no dorso do vento
pela calçada.
ENQUANTO OS ÉBRIOS VIVEREM...
(Para minha Mãe, Angolana falecida em Dezembro de 1992)
Mãe...
Do mais medonho dos sonhos,
Acabei de despertar,
Vi nossa Terra morrendo,
Milhares de Mães a chorar.
Seus Filhos, foram para a guerra!
Se voltam? quem vai saber...
Enquanto outros, felizes,
Passam noites a beber.
Bebendo a sorte e a vida,
Dos que não fazem fortuna...
Bebendo para esquecer,
As crianças, que de fome,
Morrem, em qualquer esquina.
Suas camas são as praias.
As estrelas são seus tectos,
As mesas são Contentores,
Que os alimentam de restos.
Restos daqueles que bebem,
Indiferentes à dor.
E em seus Ninhos de Luxo...
Fingem não ouvir gemidos,
Das gentes da mesma côr.
Mãe...
Do mais medonho dos sonhos,
Acabei de despertar,
Vi nossa Terra morrendo,
Milhares de Mães a chorar
Filhos a pedirem pão.
Netos a pedirem pão.
Velhos a pedirem pão.
No rosto daquelas Mães,
Vi a tristeza estampada,
Quando filhos pedem pão,
Elas estendem as mãos,
E oferecem-lhes mãos cheias,
De carinho, sem mais nada.
E lá ficam a definhar...
Com os corpos a definhar.
Com as almas a definhar.
Com as Mães a definhar.
Quase nuas de pobreza,
Com os ventres a inchar,
Mas com a revolta hidratada
Com lágrimas de tristeza.
Mãe...
Do mais medonho dos sonhos,
Acabei de despertar.
Vi nossa terra morrendo,
Milhares de Mães a chorar.
A verem carros de Luxo,
Muito bem refrigerados,
Circulando nas cidades,
Sempre com vidros fechados.
Ébrios no seu interior,
Alheios à aflição,
Dos que perderam as pernas,
Dos que perderam os braços,
Dos que perderam os Pais.
Dos que perderam irmãos.
Mas um dia, irão talvez
Sentir o ódio das Mães,
Mães que perderam o tecto.
Mães que perderam o pão.
Mães que perderam os filhos.
Mães que perderam a vez...
Ébrios, com lindas mulheres,
Desfilando entre a miséria,
Longas tranças multi-côr,
Deslumbrantes "St.-Laurent",
Lindos Brilhos de "Dior",
Saltos - altos de "Kenzo",
Acabados a verniz,
Exibindo Belos Corpos,
Que os ébrios, Ricamente,
Enfeitaram, com a fome daquele povo,
No "prêt-à-porter" de Paris.
Mãe...
Se com Deus puderes falar,
Pede a "Ele" para os matar,
Enquanto os ébrios viverem...
As "malambas" não vão mudar,
Disso, eu tenho a certeza.
Se com Deus puderes falar,
Pede a "Ele" para os matar,
Que "ele" os mata concerteza.
Sonho que sou...rasguei toda a ilusão...
Que sou além do sonho e pensamento
e tenho a grande luz na minha mão,
abrindo o céu do quarto em firmamento...
Sonho talvez nos braços da emoção,
que dias de torpor e de lamentos,
jamais aos meus anseios servirão
como resposta a dores e a tormentos...
No despertar risonho da manhã,
volto dos voos vividos,errantes,
felizes,como as noites dos amantes...
Por isso é alto e nobre o meu afã:
é ser eu mesmo nos sonhos do avesso...
Romper os véus é tudo que mereço !
Queria você! Mas a vida me roubou,
tentei sonhar, mas a ilusão me impedia,
Quis tua esperança, a dor não deixou,
Quis lutar, mas você roubou minhas armas,
Quis pedir para falar contigo,
Seus ouvidos ensurdeceram,
Quis tão pouco, você achou que era demais...,
Quis apenas amar você,
Mas você se assustou,
Desejei que me amasse, você não quis
chorei, eu só queria você
Mas infelizmente, nosso amor no tempo morreu e partiu sem dizer
absolutamente nada, nem se quer adeus!
O meu desejo
Tem unhas compridas
Pelo teu corpo
Fica a te tentar...
Tantas carícias
Te são prometidas
Que o teu desejo
Começa a aflorar...
São tantos beijos
Já perdi a conta !
Pernas e braços
Ficam a se trançar...
A pele brilha
O amor me encanta !...
Como é gostoso
A gente se gostar ...
O teu ciúme
Vem me perseguir
Nem mesmo posso
Ver um grande amigo!
Não faz assim...
Isso me faz fugir
Quando eu queria
Era estar contigo ...
Arrumo a mala
Saio bem cedinho
Vou para longe
Vem brisa do mar...
Se quer brigar
Então brigue sozinho!
Não é desse jeito
Que eu sei amar !
Para minha tristeza
Teu corpo me chama
E como um imã
Fica a me puxar!...
Só uma palavra
Se diz que me ama...
É o bastante
E me faz voltar.
Me arrumo bem
Sei que estou cheirosa!
Já nos teus braços
Me sinto morrer ...
Arranco a roupa
Sou indecorosa !...
Se no teu corpo
Quero é me perder...
Cheiro de amor
E suor na boca...
Quatro paredes
E tantas loucuras !...
Quem somos nós ?
Isso é coisa pouca
Dois no planeta
Mente nas alturas...
Antes que o sol
Tocasse as flores,
Ele planava
Beijava e beijava-as
Uma a uma.
Como a canção das águas
Vem aos nossos ouvidos
Suscitando arrepios e
Sorrisos aos respingos.
Asava feliz. Voltas
E voltas, fixava
Os olhinhos em mim.
Bebia nas gotículas
Meus segredos
Escorrendo pelos dedos.
Nesses enlevos,
Hilariantes momentos
Em que se rompiam
Conceitos, medos
Um ritual de amor
Amanheci abrindo a porta do mistério
no qual guardo a minha vida enquanto durmo
procurando nele o meu sorriso matutino
meu olhar sereno e deslumbrante
minha intenção mais genuína e solidária
e também minha alegria renascida
mas por mais que buscasse nas gavetas
e nos restos da noite que findara
nada achei pendurado nos cabides
a não ser a lembrança de outros tempos
e atônito ante a ausência de mim mesmo
sentindo-me num beco sem saída
apertei o gatilho da memória
e correndo até o espelho da esperança
meti nele minha sombra amarrotada
e lá estou esperando-me sentado
até a hora de voltar nem sei de onde.
Às vezes, sou um visionário, desolado e apedrejado,
Passo a vida a fazer e disfazer quimeras,
Enquanto a artista produz o azulejado,
E Deus, em cima, faz verdes as primaveras!
Às vezes, encontro-me isolado,
E erro como estrangeiro ou homen doutrs eras,
Talvez por um contrato irónico lavrado
Que fiz e já não sei noutras subtis esferas.
A espada da Teoria, o austero Pensamento,
Matam em mim o Humano e Sentimento,
A artista, às vezes, embriaga-me com cânticos da noite no dia...
E obedecendo ainda a esses velhos namores,
Procuro em toda a parte a música das cores,
- E das tintas da flor, surgi essa Poesia.
o deserto
seco
é o oceano todo
que abarca
a barca
e dentro
leva-me a vida
navegando
pelos mares
e rios
e rio-
-me
no limiar
entre loucura
pura
e morte
lenta.
o vazio
na barca
flutua
sobre o mar
o silêncio
navega
e
atracada
num porto
sem palavra
sem som
muda
e
sem coisa
nenhuma
contigo
só
à beira
dum precipício.
a minha barca
que te abarca
todo
navega perdida
pelos oceanos fora
sem nunca sair
sempre presa
ao mesmo porto.
Tenho a loucura dos poetas
Que pintam o belo enquanto tudo é triste,
Que vêem estrelas em céu de chuvas muitas,
Que provam o gozo quando a dor existe.
Tenho a loucura desta gente
Que canta alegre enquanto há tristeza,
Que brilha sóis em tepestades muitas,
Que olha a dúvida quando se tem certeza.
Tenho a loucura da poesia
Que busca rosas enquanto é inverno,
Que sente o frio em primaveras muitas,
Que chora o medo quando tudo é terno.
Tenho a loucura deste mundo
Que fica em riste enquanto há igualdade,
Que ri do amor entre belezas muitas,
Que luta só quando quer liberdade.
Fernando Tanajura Menezes, New York, USA
email: FMenezes@aol.com
Menino
Menino suado, correndo apressado
Buscando um refúgio, um amigo, um lugar...
Menino danado, teimoso, pelado
Sem roupas, sem afeto, sem irmãos, sem lar...
Menino travesso, que brinca, que sofre
Esperando alguém para lhe ajudar...
Menino carente, tristonho, doente
Que o destino privou de alguém para amar...
Menino vadio, sem nome, sobrenome
Querendo brinquedo , carinho, comida...
Vivendo cada dia com a incerteza, a fome
Temendo os perigos, buscando a vida...
Menino descalço, chorando, implorando
Pedindo esmolas, cheirando colas, sofrendo abuso...
Pivete de rua, que dorme pelos cantos
Não tem cama , nem cobertas, a não ser papéis sujos...
Menino inocente, que a vida somente
Não soube te dar...
Te dar um lar, amor e carinho
E assim tão sozinho, não mais ficar...
Menino da vida, não sofras calado
Procure um amparo, alguém para amar...
Não tenhas medo, o destino é sagrado
Depende de você, de saber se cuidar...
Confie menino no amanhã que virá
Um amanhã sem fome, sem crimes, sem medo...
Talvez você questione, como será?
Te digo menino, os homens de hoje já estão sentindo
Que precisam mudar...