Portugal em Linha
Novos Poetas Lusófonos

POEMA DE NATAL

trevas perpétuas
cobrindo o planeta
num estábulo pequenino
um menino
distante do mundo
dos sonhos conturbados
cercado de pastores e de reis estranhos
nó na garganta
que se agiganta
de nada adianta
gritar pelas ruas
a noite virá
até Deus me abandonará
até o dia em que eu vivia se foi
que dirá o vento frio
que dirá o desconforto
abandonado no Horto
sem oliveiras orientais
fundos de um lugar esquecido
morto que não nasceu
a vida de mim se esqueceu
e não podem me ouvir
até onde se estendem os horizontes enevoados
que nada prometem
flutuo ao acaso
sem eira nem beira
sem crença nem sentença
atrelei-me ao dia passado
sem que ninguém tenha percebido
a hora da aurora brilhante passou
e nem notei que passava
lança que me perfura o peito nu
e que me impede de voar até o paraíso
em que nuvem deixei repousando a minha felicidade
em que escura caverna de minha memória apagada
teu corpo bonito e aconchegante se escondeu
desejo único desta vida de misérias
sem que tivéssemos nos enroscado
pernas e braços e bocas e cabelos e suores e líqüidos e seios e nádegas e
olhos cegos
e mentes alucinadas
numa loucura total
entre corpos que se devoravam
na ânsia desesperada
do prazer absoluto
do orgasmo celestial
que nos levaria a ultrapassarmos o céu infinito
sonho mudado em pesadelo constante
em pleno verão de sol escaldante
sinto frio
incompreensível frio sepulcral
a falta que me fazes
impede a noite de Natal
de vir até a mim
nem mais lágrimas
nem mais dor
nem mais sonhos
nem mais paixão
nem mais esperanças
nunca mais
o nascimento de uma vida nova em mim
perdeu o sentido
que já não te vejo mais
minha boneca de louça
que já não desejas mais
o meu amor

Walter Núñez Martínez, São Paulo, Brasil
email: waltermarti@hotmail.com



PESSOANA

Esta chuva me lembra um não sei onde
sob céu nenhum, aquela dor
que nunca se sentiu em corpo algum
o sonho impossível que dois viveram
na enorme solidão de apenas um.

Sou feito dessas lembranças de nada:
o meu passado forjou-se do que não fui
e vivo para a ventura que jamais terei.


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Vinda das noites de miscigenação da Ibéria
das paixões do latim distante
dos gritos bárbaros nas manhãs do Tejo
das vozes de Camões, Quental, Pessoa,
- ó pátria sonora dos homens, língua portuguesa!

Professor Mestre Dr.Olavo Rubens Leonel Vieira, Lorena, Brasil


OUTRAS PESSOANA

A nuvem veio e o sol parou.
No intervalo da sombra
quantos pensamentos houve?
Quanto esqueci, quanto sonhei?

Na volta da luz, fuga da nuvem
não foi mais eu que o sol iluminou.


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O que vemos das coisas são as coisas.
Não há sentidos ocultos, nem segundas intenções
na natureza. Há somente uma certeza:
tudo está sendo o que realmente é.


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Acordo de noite subitamente.
No cais da escuridão sem limites
não há portos de luz nem palavras.
É como se a vida fizesse um intervalo,um corte
no seu ciclo de horas, na sofreguidão do dia.

Acordo de noite subitamente como se acorda
na morte.


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Temo, Lídia, o destino. Nada é certo.
As tragédias sobrevêm em marés
e a razão não explica o mundo.
Um plano de mistérios foi arquitetado
por alguém que não sonha como a gente
e não tem qualquer compromisso com a poesia.


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Sinto possível o ser um sonho de outrem
numa noite maldormida de plenilúnio:
quando ele acordar desaparecerei como uma nuvem
e o amanhecer do seu dia será a minha morte.


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Num espaço falso entre o que fui e o que sou
perduram as frases que eu não disse
aqueles gestos que eu não quis fazer
e toda a história da minha vida
que o destino não pôde escrever.

Professor Mestre Dr.Olavo Rubens Leonel Vieira, Lorena, Brasil


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