Assobiando pela estrada fora
Vai um camponês-- aos ombros um sacho
Com uma aguilhada conduz o gado
Descalço vai, mas nem se importa
É um paraíso a sua ilha toda
Mas vai absorto, distraído, alado
Sonhando um dia poder mudar seu fado
Espera poder ir-se dali embora
Para terras longes, para terras grandes
Onde melhor sorte possa encontrar
Fugir ao destino que o prende ao mar
Ouvem-se p'los pastos chocalhos distantes
Bucólica a terra de encantos tais
Não o deixará, dele não sairá jamais.
Silvério Gabriel de Melo. Vogelbach, Alemanha
Mulher de Aldeia
Ia de tamancos p'ra fonte
A mulher da minha terra
O tempo lhe apagou o nome
Mas não, nunca a graça dela
Vi-a trazendo duas talhas
Ligeira p'la rua abaixo
Tantas, tantas madrugadas
De quanta lida e cansaço
De manhã de madrugada
De avental, passo ligeiro
Que bonita, que engraçada
Que ternura no seu geito
Foi um dia ainda jovem
Que à fonte se veio encontrar
Com aquele que foi seu homem
Com quem iria casar
Junto à fonte o seu primeiro
Seu primeiro beijo deu
Transbordava o pote cheio
-Como de tudo se esqueceu
Naquele momento da fonte
Naquele momento de vida
Embarcou e foi p'ra longe
Seu coração de batida
Depois entra e sai dia
Trouxe um dia um filho seu
Se tornou mãe a rapariga
Que na fonte a talha encheu
No lamento do encher de água
De qualquer bilha de barro
Juntou com lágrimas sua mágoa
Amarga mágoa --seu fado
Passaram-se anos atrás de anos
Tornou-se triste, cansou-se
A canção da água, seus prantos
Suavizavam, calou-se
Atado o seu lenço à nuca
Passava como fidalga
Na volta molhava a rua
Ela mais sua velha talha
Secou-se já essa fonte
Mas não a memória dela
A sua alma foi p'ra longe
Mas ficou sim a história dela.
Silvério Gabriel de Melo. Vogelbach, Alemanha
A Vida É Um Forno
A vida é um forno
Onde se coze o pão
Padeiro é o fôlego
Fermento o coração
Amassado com gosto
Com esforço e paixão
--Cada broa é um consôlo
Promessa, missão
O espírito é a massa
A côdea é o corpo
Conforme a chama
Sai duro ou sai fôfo
Conforme o ardor
Sai anjo ou diabo
Fresco e bom p'lo amor
P'lo vício queimado
Padeira, Padeira
De rosto abrasado
Olhai a braseira
tomais de nós cuidado
Este aqui já se abre
A brasa o queima
Padeira, comadre
Vem ao forno, espreita
Traz p'ra cá a pá
Padeira depressa
Que na hora está
Do pão ir p'ra mesa
Lavrador, lavrador
Prepara-me o vinho
Que seja do melhor
Que seja do mais fino
Sobre esta minha mesa
Coloca a toalha
Sobre ela a candeia
De luz e de graça
Fresquinho o pão
Mais uns bolos de massa
Depois da procissão
Sabe bem vir p'ra casa
Silvério Gabriel de Melo. Vogelbach, Alemanha
Eu
Quero escrever versos,
Versos de amor, de ironia,
Quero preencher todos os espaços,
Desta folha vazia.
Quero, ao escrever,
Ser completamente livre,
Lembrar-me do que quis ter,
Mas que nunca tive.
Quero com estas tantas palavras,
Que escrevo sem encontrar fim
Encher além destas folhas brancas,
Os espaços imensos que há em mim.
Lembrar, esquecer
Dormir, acordar,
Desejar morrer,
E depois lamentar.
Senti a presença da solidão,
Ri as lágrimas que não chorei,
Agindo com o coração,
Sempre errei.
Escrevo partes do que sou,
E dedico-tas a ti,
Mas só eu o sei,
Não sairá daqui.
Todas as lágrimas foram enxutas,
Neste pedaço de papel, que agora é um pouco de mim,
As minhas palavras sentidas, doces ou brutas,
Assim como eu chegaram ao fim.
De pé mãe-África
Séculos e Séculos
Sempre vigilante
De pé stabat Mater África
Tu, mãe-África, sempre de pé
Coragem nunca te faltou
Séculos e Séculos de pé
Ao teu colo tudo me deste
O amor me gerou dentro de ti
Os teus peitos de rijos a flácidos
As tuas mãos de macias a calejadas
Quentes
Ásperas
São duas páginas de ouro
Tu Mater, meu ouro, meu diamante
Lívio de Morais, 1996, Lisboa.
Conclusão
As varandas já não têm vasos.
Os vasos já não têm flores.
As flores já não têm pétalas.
As pétalas já não têm cores.
As praias já não têm gente.
A gente já não tem esperança.
A esperança já não espera.
Quem espera já não alcança.
O sol já não tem brilho.
O brilho já não tem magia.
A magia já não tem ilusão.
A ilusão já não traz nostalgia.
A justiça já não tem seguidores,
Os seguidores já não têm razão,
A razão já não tem certeza,
A certeza já não é tida em consideração.
Os humanos já não têm amor.
O amor já não tem felicidade.
A felicidade já não tem orgulho.
O orgulho já não tem vaidade.
Inspiração, dádiva dos deuses
Musa dos céus que levas à loucura
Que ousas desafiar forças jamais vencidas
Proporcionas um extasy que pouco dura
A todo o ser que te procura,
Tentando esquecer todas as emoções sentidas.
Inspiração, nome cheio de ternura
Crias obsessão àqueles que provam do teu néctar da vida.
Por ti lutam numa luta perdida,
Tu só concedes os teus beijos rubros cheios de doçura
A quem merece, a quem com as palavras lida.
Inocência, que privilegia os apaixonados sem cura,
Deixa-me adormecer nos teus braços já sem vida,
Braços de mulher velha, entristecida.
Não chores, por Deus. A tua vida ainda dura.
Toma o meu lenço, Inspiração. Sinto-te enfurecida.
Aquele que te prometeu amor eterno não cumpriu a jura?
Eu faço-te um poema para não te sentires ofendida.
Tu és a razão porque o meu ser ainda dura,
Pois tu és a única que me faz sentir assim...simplesmente viva.
Já não há fadas, nem naiades
Por ribeiras da minha terra
Lá só vivem sim as saudades
De outros tempos, outra era
Meios dias e meias tardes
Canta a água tagarela
Passa, vem de que lugares?
--Fresca do alto da serra
Se reflecte o mundo nela
A água que passa, se leva
Sem cessar, feita em espelho
Vai descendo, deslizando
Eternamente passando
Causa e efeito de si mesmo
Silvério Gabriel de Melo. Vogelbach, Alemanha
Rúbrica do Pensar
O sonho é a rúbrica do pensar
Do sentir, do viver, do existir
Olhai as crianças no seu brincar
Tudo sonhando podem assumir
Serem reis, correr, saltar, voar
Tudo podem ser e conseguir
O sonho pode tudo construir
--Para sonhar, basta se só acreditar
Por isso eu creio, espero e amo
Sonhar-- que a vida é ela todo um sonho
Nele toda a minha fé e esperança ponho
Oh sonho, oh ilusão, oh Deus, eu clamo
Ajuda-me a sonhar, manter o voo
Que me eleve--ave leve num mundo novo
Silvério Gabriel de Melo. Vogelbach, Alemanha
Portugal em flor
Tu que tens as flores
os campos e jardins
porque corres espavorido
sôfrego e insano
para outros territórios
confins ?
Tu que tens o ar puro
o verde ondulante das colinas
porque deixas morrer a flor
o canto do rouxinol
a borboleta e o pôr-do-Sol ?
Tu...
Corres para quê ?para onde?
tens mesmo aí o carinho
das madrugadas
o Sol nascente que afaga
as cortinas do teu doce
e mágico despertar...
Tu...Não sejas peça ocasional
de mobiliário urbano.
Andas eléctrico
não de eléctrico...
sorves a toda a hora
tóxicos em doses descomunais
inalas poluentes dolentes letais
e rasgas a carne
em ilusões cada vez mais brutais...
e procuras na tua fibra natural
a peça maquinal
da máquina que te consome...
e que não dorme...
Escuta o silêncio das madrugadas
a sinfonia dos frondosos bosques
a sonatina do triste pinheiro maninho
cuida do berço que te gerou
das tulipas,violetas e amoras
que enfeitam os sonhos
saudosos...peregrinos
da tua alma
tão chorosa...
lacrimosa...
afinal...
Tu ergue-te...
e vê como a cidade é constritiva
vem semear carinhos nas ruas
doces e incógnitas bandas musicais
encher de cor e fantasia o espaço.
Tu
vem distribuir flores nos cafés
traz o rosmaninho e alecrim
o Sol da Amizade e Amor
puro e casto...
e inunda de paz
a cidade ansiosa
aflitiva...
sensitiva...
A cidade é irmã do campo
mas deixaram de se falar...
procuraste o sintético e o néon
o monólogo de carbono...
Tu...
traz o teu perfume agreste
as andorinhas dos beirais
E vem plantar uma esperança
a tua doce lembrança
nos corações
essenciais...
Carlos Silva - Caldas da Rainha
Sem título
Não existem horizontes,
Só vistas interrompidas,
imaginações incapazes,
paisagens despercebidas...
onde milagrosamente o viver...
lá, ali, no outro lado,
onde amanhã não acaba,
onde o futuro desaba -
aqui -
onde complexa aventura
é coração a bater.
Manuel L. Ponte - St. Louis, Missouri, 7 de Dezembro de 1997
Sorriso
Foi num belo dia de verão ao entardecer
Que lindos olhos um sorriso me recusaram
Meu coração começou logo a entristecer
Pelas máguas que ali mesmo começaram
A dor sentida foi tão forte
Que sem forças p'rali fiquei
Sofrendo impune duma lenta morte
Mas com o olvidio um bálsamo apliquei
Em silêncio esperei um ano inteiro
Crescendo em mim uma triste paixão
Fruto verde deste amor primeiro
Que poderia ter-me levado ao caixão
Foi então que esse sorriso veio
Suave e lento como uma folha caída
Meu coração quedou-se num doce enleio
Vivendo nesse minuto toda uma vida comprimida
Foi um enlace tão terno e deminuto
Culminado por sorriso tão singelo
Foi uma vida inteira num minuto
Vivida tão intensamente e em sigilo
Sim! com o olvidio um bálsamo apliquei
Durante três longos anos de sobrevivência
Nessa luta mais homem assim fiquei
Foi um sorriso que aconteceu na adolescência.
Extraído da "Diáspora" de Afonso Almondino da Silva. Em Toronto no dia 15 de Setembro de 1988
Email: adelino.morte@utoronto.ca
XABREGAS
Acordei em sobressalto uma manhã
Depois de noite agitada e mal dormida
Dei um beijo de despedida a minha mãe
Segui para o trabalho logo de seguida
O torno gira em alta velocidade
Cortando o metal com precisão
E era no ardor da minha mocidade
Que eu vivia uma solitude sem razão
Deixei as máquinas ao toque da sereia
Sigo para a escola noturna para estudar
Física e Química durante mais de hora e meia
Desenho de Máquinas depois até a noite findar
Terminei as aulas nessa noite as onze horas
Ah! triste fado que a sorte me negas
Deveria voltar para casa sem demoras
A pé sigo meditando pelo cais de Xabregas
Não posso aguentar mais este triste fado
Na minha inocência não encontro solução
Sento-me ali numa pedra já estafado
Enchendo-se de grande amargura meu coração
Uma fragata indiferente lá seguia rio acima
Ao leme a silhueta do arrais fumando uma beata
A lua cheia no céu iluminava brilhantíssima
E as aguas do Tejo pareciam um mar de prata
Para o lado os livros estão caidos
Soluçando sinto na garganta um aperto
Saltam-me as lágrimas dos olhos doloridos
Chorei sozinho mas com o rosto encoberto
- Oh! Tejo que recebes minhas máguas -
Numa canoa um pescador canta seu fado
Enquanto vai pescando ao candeio nestas águas
- São as lágrimas que fazem o Tejo mais salgado -
É feio um homem chorar diz um ditado
Foi por isso que limpei o rosto e levantei-me
Segui a pressa para casa ja muito atrazado
Mal jantei e um jovem derrotado deitei-me
Vieste tarde meu filho mas que noitada?
Meu pai perguntou quando cheguei
Devagar eu vim a pé pela calçada
E atrazei-me respondi e mais calmo fiquei
Nessa triste noite terminou a adolescência
Mais homem me considerei desde então
Já lá vão quarenta anos e em consciência
Ainda choro ao luar mas por outra razão
Agora sou um pai que está a perguntar
Qual o atrazo dos filhos a crescer
Porque sei o que custa a vala saltar
Para do outro lado se ser
HOMEM A VALER
Extraído da "Diáspora" de Afonso Almondino da Silva. Em Toronto a 13 de Janeiro de 1989
Email: adelino.morte@utoronto.ca
Onde Está o Deus Feito Homem?
Estão a acimentar e a asfaltar a Terra,
--Gente que estupidez!
Estão a roubar a beleza que era
O mundo uma vez
Andam cada vez a fazer mais casas e carros
Gastam e estragam tudo
Todos querem mais ter, ocupados
Em conseguir mais categoria e vulto
Há cada vez mais poluição, mais lixo
Ninguém se contenta com pouco
Todos se entregam ao prazer, sem juizo
Anda este mundo louco
Todos se querem fazer-- ninguém
Quer ser só o que é
Hoje não vale a nobreza e o bem
Assim o determina a ralé
Assim em vez de se ir à missa
Abrir-se o espirito, abrir-se os ouvidos
Vai-se ao Discó com a malta em riça
Dançar, beber, cegar os sentidos
Anda de avesso a humanidade
Com u'a cauda frontíspicial
De onde lhe advém a faculdade
De se provar o melhor animal
Neste Natal, que presépio-- repara
Dorme um feto com u'a pistola
Traz uma camisa na mão, a palha
São cartões de crédito e nota
Tem uma televisão e um computador
Ali ao seu lado por vaca e por burro
A uma metralhadora por bengala, que dôr
Se apoia José, absorto e confuso
Cantam os anjos como Michael Jackson
Um rap activo, um rap indecente
Dão-se glória a si, dão glória ao homem
Que mais palhaço seja, que gente
É um Carnaval é que é o Natal
Onde o pior faz-se pelo melhor pior
A humanidade com um sorriso infernal
Dorme-- parasita de si mesmo, sem amor
Chegam os pastores de óculos escuros
Para se não lhe verem os olhos
Vermelhos, rajados de sangue, impuros
Encavacados pela droga, meios mortos
Vêm os reis magos de skin heads vestidos
Urrando "Heil Sieg!" em bestial euforia
Arremaçam cocktail monotofs , divertidos
Depois sorrindo negam-no --- ninguém pia
Matam as crianças todas com jogos
Lindos programas interactivos
Não escapa nenhum, inocentes--mortos
Se ouve o "quero e dá-me já! " de filhos
Estão a comprar e a vender o coração
Gente, ei-lo no mercado
Deitado sobre palhas de vícios, leilão
"Onde está o Deus feito homem?" brado.
Silvério Gabriel de Melo. Vogelbach, Alemanha
Árvore de Natal
Olha ali para a janela,
Mira, que árvore divina,
Coberta de luz, que bela!
Vestida de prata fina.
É um céu posto a um cantinho,
Esta árvore de Natal
Galáxias, 'strelas fulgindo
Bela-- encanto sideral
É uma fada encantada,
Encantando o mundo assim.
É filha do Sol, sonhada,
Jóia de luz, serafim
Com seu vestido rodado,
Com seu vestido de tule
Parece cantar um fado,
Com lantejoulas de azul
Fadista da noite fria
Que tens tu para cantar?
Serena envolta em magia
Pareces mais a sonhar.
Lá no mato tu deixaste
O teu corpo, a vida deste;
Uma clareira formaste,
A luz que te fez, trouxeste
Um infante de louça dorme
Ao teus pés, tu rainha
Mata toda a sede e fome
Que divina criancinha!
Árvore de Natal enfeitada
Como tu há-de brilhar
Na noite, serena, encantada
A sua luz, seu sonhar
Pregá-lo-ão num madeiro
O erguerão qual ladrão
Será luz, Deus verdadeiro
Feito homem, nosso irmão
Ó enfeitada árvore, fadista
Linda árvore de Natal
Cheia de graça, encanto, artista
Mistério original