Portugal em Linha
Novos Poetas Lusófonos

Partirei de Madrugada

Um dia partirei de madrugada
Enquanto o sol dormir.
Libertar-me-ei do pó, do nada
Que o tempo se encarregou de me cobrir.
Partirei só com a minha alma
Tal como nasci.
Leve como as borboletas,
Sem anéis, as mãos vazias
Para me encontrar com as violetas !

Fausta Ripado. Email: carlos.ripado@mail.telepac.pt

O Pinheiro Manso - (Pinus-Pinea) Lin.

Já vai longe a madrugada
Do meu querer amortecido
Anda nesta cavalgada
O meu ser entontecido

Não encontro nestes versos
Sentido nem direcção
Meus olhos andam dispersos
Noutros focos de atenção

Não devo sonhar alto
Como se estivesse já morto
Meu corpo físico anda falto
De descanco e de conforto

Deitado a sombra do sobreiro
Durmo na força do calor
Sonho com um Manso Pinheiro
Sereno de magéstico valor

No meio da copa redondinha
Deste Pinheiro acolhedor
Um casal de rolas s'aninha
Num momento libertador

Acordo com os guizos das cabras
Que vão p'la 'strada acima
Parecem umas sombras macabras
Com o luar que se aproxima

Vou continuando a jornada
P'la estrada da vida fora
Meu destino é uma morada
Onde a poesia ainda mora

Sinto o cheiro da maresia
Olho para o mar e não me canso
Neste lugar acontece Poesia
Junto daquele Pinheiro Manso

Oh! Meu Pinheiro junto ao mar
Onde as rolas fazem o ninho
É no poente que eu vou encontrar
A felicidade pelo caminho.

De Afonso Almondino da Silva in "DIASPORA" Em Toronto a 20 de Janeiro de 1989. Email: adelino.morte@utoronto.ca

AO COMER SARDINHA ASSADA

Brilhava sol ianqui
enquanto feiticeiras se casavam
televisivamente pela RTPi,
satélites artificiais trazendo
chuvas lacrimosas jogadas
entre pontapés...
Estrangeiros com cores nossas,
Sporting, União - itinerantes,
hoje cá, amanhã lá, gente nossa
em temporada - como a andorinha.
Dentro, conversas:
De destinos,
atletas marcados
vigorosamente vivendo vitórias
visivelmente invisíveis,
Sol, Chuva, Terra, Mar...
Serras sombrias interrompendo
infinitos horizontes,
traziam-nos tempos transferidos
a recordações intermináveis,
transportando-nos
no carro da Esperança
p'ra vermos pessoalmente
onde feiticeiras vivem
na nossa imaginação.
De repente, o apito. Bola parada
após hora e meia - regresso à realidade.
E no prato restam espinhas
no país da abundância - e da saudade...


Bar "Mimo" Restaurante New Bedford, Massachusetts 5 de Novembro de 1994

Manuel L. Ponte (Olivette, Missouri). mlp@netguard.net

THE PASSERBY

Tired,
staring disappointedly,
disappearing into Time's darkness,
'midst shouts, bottle pops, memories,
music... pretending
to stay Its unfinished term.

Yet leave It did... in images
lighting the electronic screen,
as golden voiced announcers
smile at Its demise
'mid hopeful wishes
for a successor still to be seen. Suddenly, quiet,
the world motionless,
while the dog at one's feet,
awakened by deadened noises,
stretched in puzzlement...
"Happy New Year!"
Memories of Lombardo,
the dropping ball heralding the end,
or the beginning,
when everything changes -
in the calendar.

Manuel L. Ponte. St. Louis, Missouri. December 31, 1997/January 1, 1998. mlp@netguard.net

TREN QUE PASA

En el brillo del día,
en el oscuro de la noche,
a la orilla de las carreteras,
ruidos pasan a la eternidad
al mover de ruedas
que jamás regresan al punto de partida -
Por ahí se van miles de cuentos
a veces compartidos
entre alegrías y tristezas del amor,
destinados a la inquietud del llegar
adonde todo comienza,
o se termina por una vez.

Suave nació el viaje
entre los saludos
y despedidas que se achicavan
en la distancia, mientras
se aumenta su correría
como si jamás terminará allá,
adonde almas pasan
a la ola humanitária de la última estación.

Ambición, o ilusión,
Paraíso, o Infierno -
Dependencías del viaje.

Luego se prepara para partir
"ABORDAR!", grita el boletero
al cerrar las puertas.
"Adiós, querida!" "Adiós, querido!"
"Que no te olvides...Que..."
Y nuevamente empieza al silenciar de voces
entre ruidos rodeados por ruedas...

Y en el tren se van nuevos secretos.

Manuel L. Ponte. St. Louis, Missouri. 11 de Octubre, 1990. mlp@fclass.net

FADINHO DA TERRA

Ouvi a cigarra cantar,
imaginei que dizia;
Cantava feliz por amar
tudo que a vida trazia.

Do passado não pensava,
nem de inverno por viver;
Só do presente cantava
Por só o presente querer.

Sabia que nunca temos
nenhum futuro na vida,
e que quando nos morremos
é esperança perdida.

Sem na formiga pensar -
cigarra acompanhei;
Passo a vida a cantar
sendo sempre o que serei.

Canto para me divertir
de tudo que me interessa
Canto para não me sentir
passando a vida com pressa.

Disfrutando do que tenha,
futuro deixo ficar
até que me tocar senha
p'ró futuro enfrentar...

E quando a mão querida
minha boca tapará,
cantarei lá noutra vida
ond' o futuro estará.

Caracas, Venezuela
25 de Julho de 1982

Manuel L. Ponte. St. Louis, Missouri, USA. mlp@fclass.net


Emigrante

Quando falam de Portugal
Falam sim também de mim
Um Português que afinal
Longe da terra é assim
Sente uma vontade sem igual
Uma saudade sem fim
Da sua terra Natal
Como uma flor seu jardim

Como uma flor seu jardim
Onde quer que esteja, configura
Eu o país de onde vim
Trago comigo com amargura

Amargura de não poder
Ter ficado e dado fruto
---Ser emigrante é morrer
Ser emigrante é um luto!

Silverio Gabriel de Melo
Vogelbach, Alemanha.


ADDICTION

...and so I bought
another book
despite all I had to do:
Letters to write,
music to learn,
problems to solve,
along with all
I must recall.
So much to do,
while birds go on singing
to cats sleeping
cooled by the sun's
afternoon shades...
So much to do,
while the dead sleep
as we go on, not knowing
what for,
or why...
And so I bought
another book -
where first I looked
at the last page,
Trying to find the answer.

Rio de Janeiro
4 de Abril de 1983

Manuel L. Ponte. St. Louis, Missouri, USA. mlp@fclass.net


Infância

de longe
o sorveteiro
com seus passos
gélidos
interfere no meu olhar
distraído
infinito:
conto cicatrizes
no corpo
na alma

lágrimas
sabor groselha
descem de patinete
rugas abaixo

Walter Ney
Londrina, Brasil


Daqueles Tais Lá Da Terra

Não oculto saudade
de tudo que conheci,
só sinto prioridade
de viver o que vivi.

Porque deixar o passado
é levar outrora à morte,
é viver, ter escapado,
é passar do certo à sorte.

É sentir que neste mundo
saudade não respeita
que nem fraco nem profundo
do mundo salva colheita.

Apesar de todo esforço,
não consigo escapar,
com amanhã no pescoço,
Mundo quero enfrentar,

Esquecendo saudade,
futuro então espero,
vivendo ansiedade,
gritando: Vida te quero!

Buenos Aires, Argentina
10 de Março de 1993

Manuel L. Ponte. St. Louis, Missouri, USA. mlp@fclass.net




A cultura portuguesa é permeada de encontros frívolos com a Europa
e faiscantes com a América.
Eu permeio Portugal
Brasileira europeia
Minhas pernas brancas estao permeadas de portugueses
Europeus frívolos e faiscantes

Minha cultura se faz de pernas permeadoras de sociedades absurdas:
um submundo de fugacidade, insensatez e descobertas...
Minha cultura se faz assim

Um livro me dá prazer?
Se me permear, talvez.

Espero de Portugal a poesia de Lisboa.
Um António, por favor.
Um António Maria em Lisboa e em mim.
Vou permeá-lo até cultivarem sua poesia
Quando tornar público, deixo-o.
Gosto de permear em segredo.

Sur-re-a-lis-mo: ele compete comigo
Matou Dadah e Tzara suicidou.
Eu não mato a não ser a mim.
Mato-me permeando Lisboa
A CULTURA FRÍVOLA E FAISCANTE DE PORTUGAL PERMEIA
OS ASSASSINATOS DAS FICÇÕES.

Brasil
surreal@iel.unicamp.br


TERRORISMO DA DIREITA

Em fogo violento
calcinaram bosques e rios.
Entre amigos abriram brechas
em nome da Justiça,
da Moralidade,
de águas embranquecidas
a caminho da foz;
levantando boatos e testemunhos
de crimes e delitos incomprováveis,
refinados e horríveis,
Fincando em coração inocente
Seu sujo estandarte.
Criaram abismo fundo
- um Caldeirão, de facto -
mais fundo que fundo,
de onde sua vítima jamais sairia...

Assim assumiam.
Enquanto, escondidos,
Nasceram novos "sacerdotes"
- moralistas imorais -
passagens bíblicas na boca,
recitadas a quem nem Bíblia sabia soletrar.
Um novo Culto inventando,
submentendo princípios fictícios
à Cruz de sua mentira preventiva.

Pela manhã, no entanto,
o planeta continuava girando,
matando o desvario
da raiva, do ódio, da psicose...
da politiquisse..

E quem tentava endiabrar sucedeu
- Em se afundar.

St. Louis, Missouri,
29 de Janeiro de 1998

Manuel L. Ponte. mlp@fclass.net


Portinho

Sempre que vamos ao Portinho
Encontramos uma recordação:
As ondas quebram devagarinho
Como a melodia duma canção

Com a briza do ocaso no Portinho
Sentimos que a poesia nos chama
É voz do Frei Agostinho
A falar ao Sebastião da Gama

Até à Anicha vamos a nado
Como se ate ao fim da vida
Ouvindo a voz deste fado
Honramos os poetas na despedida

Sempre que vamos ao Portinho
Encontramos uma recordação
Ao longe num monte branquinho
De areia procuramos solidão

Uma alga deu à praia vinda do mar
E para evitar que a maré a levasse
Recordou-se dos poetas e pos-se a cantar
Como se o rouxinol da serra a ensinasse

Quando já tarde todos se vão embora
E nos ficamos sós na beira mar
Deixamos o tempo voar nessa hora
Admirando as estrelas a brilhar

O mar está um lençol de prata
Nunca até hoje igualado
Maravilha duma noite ignata
Mesmo ali na foz do Sado

Ai! quem me dera ser poeta
E liricamente cantar com ardor
E numa cabana já provecta
Ser abençoado pelo teu amor

Há maravilhas por esse mundo
Bem o sabemos não o ignoramos
Mas na Arrábida o sentir é profundo
Pois é ali que nos amamos

O mar está um lençol de prata
Nunca até hoje igualado
Vamos ali para o pé da mata
Porque é mais do nosso lado

Frei Agostinho eu aqui penso
Que quando falas ao Sebastião
Fazes-nos sinais com um lenço
Qual gaivota voando no verão

Portinho da Arrábida é sol nascente
De poetas pescadores e amantes
E com este ardor incandescente
Cantamos a Serra e o Mar como dantes

De Afonso Almondino da Silva in "DIASPORA" Em Toronto a 10 de Janeiro de 1989. Email: adelino.morte@utoronto.ca

Encantação

Encontro no teu amor o ouro puro
O brilho que me dá luz, que me dá vida
Paixão que me ilumina qual Sol o dia
Tu és o meu desejo, tu és meu tudo

Não há amor igual no mundo, julgo
Que tal doçura tenha, tal magia
O teu carinho e ternura é que me guia
És razão do meu ser, te amo e adulo

Sem ti, nem é possível o paraíso
Pois em ti está todo o fim e princípio
És a razão do meu próprio coração

Sem ti, até o mundo, é tão escuro
Tão negro, tão vazio, tão confuso
Tu és, Amor, meu encanto e encantação

Silverio Gabriel de Melo
Vogelbach, Alemanha.


BATALHA
Esquilo Disse quando madruguei,
E vi o Sol despertar:
"O jogo eu ganharei,
Miolos eu vou usar,"
Com armadilha montada
P'ra inimigo captar.

Já com manhã programada,
P'rá vitória celebrar
Então, alegre, aguardei,
Meu inimigo chegar,
E com gana esperei,
Vingança p'ra desfrutar.

De repente, na distância,
Pronto p'ra enfrentar dia,
Demonstrando pouco ânsia,
Ele armadilha subia...

Mas nada aconteceu,
Nada valeu minha alerta,
Porque o esquilo comeu -
E me deixou boca aberta.


St. Louis, Missouri,
8 de Fevereiro, 1998

Manuel L. Ponte. mlp@fclass.net


DAYTIME ROBBERY
Here and there,
near and far,
looked everywhere,
wished on a star...
Used my wit,
educated brain cells,
ideas that will fit
'til my bony skull swells...
Used all my muscle,
challenged my will,
yet none of the hustle
will frighten the squirrel,
as he partakes the feed
for a birdie intended,
or all grainy seed
by hard shell defended.
Until in defeat
and utter frustration,
I find myself beat
by squirrel admiration...
Squirrel


St. Louis, Missouri,
8 de Fevereiro, 1998

Manuel L. Ponte. mlp@fclass.net




Esquecemos o que entristece
Olhemos ao lado bom da vida
Nascer-do-sol, quando amanhece
O pôr-so-sol, a despedida.
Mas se não tens ninguém ainda,
em silêncio fala com Deus,
porque as palavras mais lindas
são as que vêm do céu.
E tu que te sentes sózinha,
maldizendo a vida, chorando,
vem comigo por este caminho
em que nós vamos andando
se um dia na tua vida erraste,
e agora te sentes culpada,
lembra-te de quanto amaste
e de quanto foste amada.
E podes sentir-te tão sózinha,
sem um único ponto certo.
Mas há uma luz no caminho,
há sempre um sorriso aberto.

Danny Nogueira
Toronto Canada, 10-02-98

Dannogueira@hotmail.com


LIFE'S SOCCER GAME

Try as you will,
beating defenders,
ignoring those who trip you
as the ball reaches your feet.
They'll only delay your gain -
if at all...

Forget your falls,
You can rise again
regardless of the awaiting bumps.
Look not to those in stripes
authoritatively standing
ready to catch your errors,
or keep you in boundaries
limiting your world.
Count not the instants,
nor when cheers fade...
Rejoice gleefully, instead,
in the rage of someone else's pain
When the ball rolls again
towards a central stillness
from whence it starts anew,
as the beaten revive their hopes.

And, as it all ends,
fail not to remember
your victorious instants,
your frustrating defeats.
Smile knowing you've played well;
yours was a magnificent journey
into a moment
when you hear the final whistle
empty the arena,
where stillness
moves you into another life,
where all that was was,
where all that was no longer matters.

St. Louis, Missouri

Manuel L. Ponte. mlp@fclass.net


AS CORES DO SENTIMENTO...

Amarelo: côr do meu quarto,
côr dos belos malmequeres.
Côr da alegria e tristeza,
mas quem sabe qual
as suas cores?
Quem sabe que tom oferecer
a cada sentimento?
Se às vezes nem sabem
o que é pode-los sentir.
Que forma devemos ter
perante cada novo florir
de um novo estado d'alma,
de uma nova vida?
Púrpura: côr da paixão,
do sangue sofrimento.
Porquê púrpura e não
rosa, verde ou laranja?
Porquê? Se nem sequer
sabemos o que elas são?
Porquê tentar dar
a um sntimento uma côr,
se uma côr não significa
nem ternura nem amor.
Os sentimentos somente
significam um estado d'alma
não uma cor sem sentido,
sem vida. Uma côr,
por mais que tentemos,
não ri, não chora, não ama.
Nós pessoas vivas,
Sim! Nós amamos e somos felizes.
A felicidade não precisa
do doirado para existir, precisa somente
de dois alguéns. Precisa
que se possa sentir.
Até porque cor, jamais
a conseguirão definir.


Danny Nogueira
Toronto Canadá, Fev.16-1998

Dannogueira@hotmail.com


A Poem

A Poem can set you free
Can give you wings
Can raise you to the light
Can make you see
Learn to hold on to a little poem, a little song
follow it wherever it takes you
in your dreams

A Poem has the quality of a prayer
That you gently recite
Say to yourself
Listen to a poem and what it sings
--A seed will in the dark
Obey the tree

Silverio DeMelo
Vogelbach, Germany



REFLEXÃO EM DOIS TONS/DOUBLE VISION

MIRAVA
 
THE SECRET SHARER
 
Mirava
enquanto,
do outro lado,
figura
com movimentos opostos
em ritmo semelhante
me mirava...
Quem era?
Aquela cara
sorrindo meu sorrir
enquanto mirava...
Vivíamos juntos
como a consciência
que, invisível,
constantemente acompanha.
Quem era, então?
Perguntei-lhe
sem que notasse
minha pergunta...
Esperei...
"Quem és tu?..."
Mudo ficou -
como espelho onde reflexão existe -
nada mais.
I found a stranger
Someone I knew
who would
hear me
through night's loneliness.
In whispers we'd share secrets,
victories unearned,
defeats unmet,
joys, tears,
laughter, fears...
Then, suddenly,
into the darkness he vanished,
except in deeds,
conscience, and questions
within my soul.
Where I'd left him
shone fadingly
a spot
making others see me
outwardly
For what they wished...
imagined, wanted.
Yet in their midst I was free -
Only the stranger knew me.


Olivette (St. Louis), Missouri
Manuel L. Ponte. mlp@fclass.net


Sonhos

Exilada em meus muros de pedras tamanhas
sonho com margens de cálidos mares
onde me receberiam terras estranhas
onde me aqueceriam sóis invulgares

Fechada em meu templo, deusa que chora
sonho com zéfiros, pálidos cantares
onde acordaria com a frágil aurora
onde repousaria em ternos luares

Escrava liberta dos estéreis futuros
reinando na minha lânguida vegetação
sonharia às vezes com os áridos muros
do meu templo de pedra, da antiga prisão.

Alain Scherer
Brasil



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