Portugal em Linha
Novos Poetas Lusófonos

REFLEXÃO

Se assumo, sumo.
Se não assumo, me consumo.
Viver e não ser...
Ser e não viver.
Eis a questão...

Amaury da Silva Rego - Rio de Janeiro, Brasil
email: guada@vetor.com.br



"A Casa do Lago"

Há uma casa num lugar acastelado
Num ermo deserto e rodeado de pinheiros
Onde morrem as arribas e se inclinam os outeiros
Sobre um lago sombrio prateado

É lá que moram os meus sonhos
barcos antigos abandonados...
Com o lago vão sendo assoreados
em sucessivas camadas de milénios

Os afoitos pescadores que deambulam
Por entre tais sombras quixotescas
Devolvem o limo à fresca terra
Como o lago escurecido a cor das nuvens

Assim devolvo ao lago os meus olhos
Que se espraiam num horizonte enevoado
Ouvindo os cantos de sereias de outrora
Do tempo dos palácios que sonhara

Há segredos ondulantes na maré
Há brisas que desfraldam velas gastas
O Sol arrasta as caravelas
Para um novo milénio de Saudades

Nos tempos das Novas Descobertas
As caravelas são pensamentos à conquista
Da inspiração e da sua fantasia
Da fé e daquilo em que a alma Acredita

A baía da casa dos meus sonhos
É encruzilhada de partida e de regresso
Num lago de cor plúmbea e agreste
Velas brancas vão rendilhando as ondas

Assim partem de novo as Esperanças
Assim regressa o Sol ao Coração
Deixo no lago estas lembranças
Que serão limo dos futuros que virão...

Carlos Silva - Caldas da Rainha
email: np78an@mail.telepac.pt



Poema

Quando vi o brilho dos teus olhos
Fiquei surpreendido
Quando toquei nos teus cabelos
Fiquei espantado
Quando beijei os teus lábios
Fiquei encantado
Agora que te olho por todos os lados
Estou loucamente apaixonado.


Márcio Sousa - Baixa da Banheira
email: marciosousa@mail.telepac.pt



SOLIDÃO



Hoje aplaquei minha solidão.
Sou homem-natureza, sombra-luz.
Sorrio como criança com brinquedos
de cores, de movimentos e de sons.

Hoje aplaquei minha solidão.
Sai distribuindo amor nos cachos de ternura.
Beijei a velhinha triste, muito triste no

                              jardim.
Corri empinando papagaios com as crianças da
                              rua.

                              rua.
Hoje aplaquei minha solidão.
        Dei bom dia aos desconhecidos que por mim passa
                                             ram.
Fui ao porto observar movimentos de navios e
                                  mundanas.
No ninho das doidivanas, chorei!

         Hoje aplaquei minha solidão.
         Alcei o púlpito e preguei a paz.
         Levei flores para os homens que se foram.
         Cantei com os pássaros, os cânticos da vida...



Amaury da Silva Rego - Rio de Janeiro, Brasil
email: guada@vetor.com.br



"Lisboa"

Guardo Lisboa na palma da mão
Basta abri-la para dela me lembrar
Lisboa é energia e mansidão
Que ao menos eu pudesse descrever...

O bulício das ruas e avenidas
O fervilhar dos quiosques e cafés
A doçura das tardes lânguidas...
Que serenam esta alma de ansiedades

Um poema a desenhar toda a cidade
Solfejo que desvia as andorinhas
O eco do encanto de um piano...
No recanto das pupilas dos teus olhos

Crianças que pululam em calçadas
Descalças,caladas ou cantantes...
Berlindes que rolam insistentes
Por labirintos em festividades

Lisboa...Grande sede de Amar...
em tardes quentes amorosas
Canto o gozo da frescura
à sombra das tuas árvores

Mas é ao Crepúsculo da Noite
Que o casario me fascina
cada luz é um Sonho
Uma estrela em cada janela

Teus olhos se abrem lestos
Ao clarão-adeus do dia
Nas janelas que rebrilham...
Acende-se a fantasia

Trazes as faces rosadas
da correria e suor...
Teus olhos me beliscam...
Que se vai cantar o Fado!
Lisboa que bebeu a dor do Tejo
Em milénios de saudade...
Quantas partidas sem regresso...
E conquistas sem idade...

Lisboa...acolhedora e prazenteira
Te abres em leques de Sonho
em castelos e miradouros
A quem te ama de verdade

Lisboa...minha amada
és também acordeão
Nas mãos de um vagabundo
No pico da inspiração...

Lisboa por inventar...
Sadio rosto lusitano...
misturas sangue nas ondas
Quando o Mar te vem lavar...

Carlos Silva - Caldas da Rainha, 20 de Maio 98
email: np78an@mail.telepac.pt



RASCUNHO PARA UM TESTAMENTO
27/03/81


Já vivi 38 anos.
Neste milésimo cigarro do dia
começo a preocupar-me com as coronárias.
Preparo um whisky para completar o ritual...

Senhor advogado estas são as primeiras notas, para o caso do inevitável evento:

1 Não deixo bens. Plantei poucas sementes, entretanto, o solo anda meio árido.

2 Deixo minha pele. Está um pouco marcada: Alguns riscos. Foram artes da infância. Outros, porradas da vida.
Vê-se que não é muito bonita mas bem tratada servirá como agasalho.
Outra opção é curtí-la bem; poderá redundar em boa sola.

3 Meus olhos eram bonitos. Hoje apresentam vestígios do pterígio operado e outro por operar.
Mesmo assim, são expressivos - Enquanto vivos.
Leve-os imediatamente a um banco de olhos, pois as córneas são aproveitáveis.

4 As vísceras poderão alimentar qualquer cachorro faminto. Não as deixe estragar.

5 A gordura ( Fiquei um pouco obeso nesta puta vida pequeno burguesa) fornecerá bom óleo para qualquer candeeiro precisado.

6 Meu cérebro- pobre cérebro -tem muito fosfato. Adube qualquer terreno estéril.

7 Do resto façam o que quiser.
Os ossos darão bons artesanatos ou, se triturados, bom adubo também.

NB: Quanto ao coração deixem-no sossegado.
As coronárias estão meio obstruídas, mas o
coração é grande...É bom.
Enterrem-no em lugar simples e bucólico.
Não demarquem o local.
Tenho certeza que lá brotarão flores.
Corpo presente de amores deixados.

Amaury da Silva Rego - Rio de Janeiro, Brasil
email: guada@vetor.com.br



QUERIDAS MANHÃS


          Esfuziantes manhãs.
          Na insônia, ou insânia
          fotofobicamente acompanho o caminhar da                    
                  luminosidade.
          Sonolentos - Eu e o silêncio - vamos dormitando;
          tentativa de segurar a noite.

          A manhã
          progride inexorável, desperta-nos:
          rainha de sons, brejeira cinética.
          É um latido, um pio, um carrilhão atrevido.
          Um galo no primitivo estribilho...
          É um canto geral.

          O silêncio se despede.
          Lá do escuro sai a sombra e, num crescendo,
                    a penumbra.
          A noite recua com a luz.
          A manhã contagia...

          Levanto; saúdo colorida joaninha.
          Beijo orvalhados gerânios,
          inebrio-me com o ar.

          É nova a manhã.
          Pego meu fardo, saio sorrindo.
          Cheio de esperanças...

                  Sou sempre menino!
                  Sou todo manhãs!



Amaury da Silva Rego - Rio de Janeiro, Brasil - 14/12/80
email: guada@vetor.com.br



AO MEU FILHO


      Voar alto...
      Procurar céus azuis e profusão de luz.
      Cantar forte e belo.
      Construir o ninho pacientemente,
      Escolhendo graveto por graveto.
      Selecionar e não desperdiçar os frutos que nos
            alimentam.
      Ser pacífico, mas suficientemente forte
            para nos defendermos.
      Estar adaptado aos tempos de inverno.
      Sair chilreando, alegremente, entre todas as  
            flores, anunciando a primavera.
      Mostrar a toda as crianças que a única coisa
            que pode interromper a alegria da vida
            é o segredo da morte.

                     Esta é a história que um passarinho
                          contou a um menino



Amaury da Silva Rego - Rio de Janeiro, Brasil - 17/10/79
email: guada@vetor.com.br



Caiapós

Esta poesia foi feita da floresta
Admirada por estrelas e pelo luar
Escrita em língua de origem Caiapó
É um idioma que é nosso
É a fala primitiva do Brasil
Canto do povo chamado Caiapó
Canto que se apagou com o canto europeu
A floresta então se escureceu
A poesia tornou-se lágrimas
Lágrimas que inundaram rios
Sonhos que se tornaram choro
Tabas, ocas e índios morreram
Não a carne e sim por dentro
Escravizados se tornaram
Estranhos da própria terra
Desconhecidos de si mesmos
Acreditavam na terra que é deles
Ainda são filhos da floresta
Ainda vivem da poesia do mato
Poemas que nascem dos rios
De um povo que brotou das folhas
Que dançam aos deuses em oração
Tentando fugir de todo o vazio
Que derrama sangue todo o dia
Sangue da canção e da poesia
Poesia na língua dos Caiapós
Palavras vindas da alma Tapajós
Estrofes com sabor de guaraná
Esse poema que eu escrevo
São palavras de vida e morte
Quero usar este pleonasmo
"Escrito com minhas próprias mãos"
Pleonasmo que chama a atenção
Atenção para essas mãos
Mãos que nasceram no Brasil
Filhas da mesma terra
Espero que essa poesia não se evapore
Que essas palavras permaneçam aqui
Que essas palavras mantenham vivas
O canto dos povos do Amazonas
Que nasceram das tabas, ocas e rios
São conhecidos como índios
Filhos legítimos de Guarací
Também legítimos filhos de Jací
É povo Tupi-Guarani
Povo que surgiu da floresta
Gente do Amazonas
Povo do rio Tapajós
Gente da tribo Caiapó.

Edmar Bernardes DaSilva - San Francisco, California - E.U.A.
Do seu livro "SENTIMENTOS E PAIXÕES" (Feelings and Passions), 1998
email: escritormg@hotmail.com



Tentativa

Tento justificar minha obsessão
Do gosto pela poesia
É uma tentativa que não alcanço
Tentativa além dos meus sonhos
É um vício inexplicável
É uma sensação muito agradável
É vontade de mostrar toda a maravilha
Também toda a energia
Que vem da poesia.

Edmar Bernardes DaSilva - San Francisco, California - E.U.A.
Do seu livro "SENTIMENTOS E PAIXÕES" (Feelings and Passions), 1998
email: escritormg@hotmail.com



Mediterrâneo

Água e vento no Mediterrâneo
Uma brisa soprando em italiano
Tento descobrir de onde venho
Do Mediterrâneo ou do Brasil
Fixo meus olhos na água azul
O mar índigo esconde segredos
Como o escorpião esconde veneno
O escorpião dança no deserto
Eu mergulho no Mediterrâneo
O Mediterrâneo me absorve
A sede me traga por dentro
Meu Corpo submerge
Minha alma dilui-se
Mediterrâneo me traga faminto
Satisfaço-me intrinsecamente em suas águas
Liquidifico-me completamente
Absorvo toda a energia
Meu corpo dilui-se no Mediterrâneo
Meu espírito submerge.

Edmar Bernardes DaSilva - San Francisco, California - E.U.A.
Do seu livro "SENTIMENTOS E PAIXÕES" (Feelings and Passions), 1998
email: escritormg@hotmail.com



Palavras

Podemos dizer palavras
Até se não temos voz
Palavras são como olhos
O retrato vivo da alma
Devemos falar e cantar
Pois estamos aqui
Engolidos por certezas e incertezas
Temos olhos de pássaros
Então falamos
De asas que voam
Do sol que brilha
De estrelas, astros e mais...
Falamos de asas que nos carregam
Falamos também de poesia
Poesia que nos mata a dor
Do coração que já conhecemos
Aquele que ama profundamente
Mesmo quando se encontra perdido
É preciso falar enquanto estamos vivos
Antes que morra nossa voz
Falarmos até no dormir
Para que não se esqueçam de nós
Falarmos na embriaguez
Sussurrarmos na própria orelha
Matarmos a surdez de quem não escuta
A mudez de quem não fala
Sermos mensageiros da fala
Comunicarmos com o coração
Gritarmos a palavra pelas ruas
Mostrarmos o poder da comunicação
Falarmos de toda alegria
Gritarmos Palavras de fantasia
Gritarmos a riqueza da palavra
É preciso gritar palavras
Falarmos dos direitos humanos
Falarmos de sonhos esquecidos
Os pássaros falam com asas e olhos
Os pássaros cantam palavras
Porém eu escrevo palavras
Palavras escritas em poesias
Falas do meu coração
Eu canto também palavras
Caminho minhas próprias palavras
Falas e lágrimas da paixão
Escritas com toda emoção.

Edmar Bernardes DaSilva - San Francisco, California - E.U.A.
Do seu livro "SENTIMENTOS E PAIXÕES" (Feelings and Passions), 1998
email: escritormg@hotmail.com



MAIÊUTICA

Desculpem-me,
sou poeta.
Nada mais que isto.
Perdoem-me,
se incomoda o canto

Só almejo a liberdade
de poder cantar.
Não me torturem
por continuar criança
e viver vivendo.

Já estou cheio de cicatrizes,
mas perdão, mil vezes perdão
se nelas sempre brotam flores.

A mochila é pesada,
mas sei carregá-la sem incômodo.
A lógica não entende...

Deixem-me prosseguir:
Sou todo inofensividade.
Nada quero. Nada deixo.

Não me maltratem,
por não saber responder.
Por não saber revidar

Se incomodo; se preciso partir,
dêem-me a cicuta. É mais amena.
Como último desejo, peço um epitáfio:

"Q U E S T I O N E M O S"

Amaury da Silva Rego - Rio de Janeiro, Brasil - 02/01/81
email: guada@vetor.com.br



Poema

Soltar ondas de azul
No rio claro,
Navegar
O vento da ideia
Azul agora,
Nesta cidade
De azulejo
Sempre inacabado


Luís Ferreira - Lisboa, Portugal
email: ale@esoterica.pt



RENÚNCIA

Não posso negar a angústia
que deixa esta saudade.
Não pelo egoísmo de não tê-la,
mas pelas coisas que não faço.

Por querer-te tanto quanto a vida quero,
trilharei solitário o meu caminho.
Cantando como pássaro sem ninho,
jamais a dor transparecerá no meu semblante.

E, apesar da metade de mim estar ausente,
continuarei sorrindo a cada instante.
Esconderei dos outros o ser que sente...

Confesso, estou sofrendo com a certeza
de só restar da vida o passado.

A lembrança do amor não amado, e do futuro,
a morte como fim.

Amaury da Silva Rego - Rio de Janeiro, Brasil
email: guada@vetor.com.br



Saudade

Depois de tanto tempo, a saudade
É uma lembança ténue, uma quimera
Que no pensamento fica, feita espera
De si mesma, de alguma outra realidade

Já não é disto ou daquilo, é eternidade
Esta saudade que nos acompanha, que se preza
Nos faz olhar pra vida, sua natureza
É o único rasto que nos ficou da felicidade

Qual um vinho que nos oferece, o seu torpor
Nos confunde, nos empresta uma clareza
Nos rouba ela a nós mesmos com seu ardor

Ah, saudade, só tu é que és Portuguesa
Ilha eterna, sumida num mar de dôr
Este cálice que bebo, esta tristeza

Silvério Gabriel deMelo, Vogelbach, Alemanha
email: silverio@mail3.bunt.com



RETRATO

Vinho e Água,
Reflexos ofuscantes em meu rosto
Desejos ríspidos Desta Mágoa
Herança empobrecida do Desgosto.

Fusão da Tristeza e da Cumplicidade,
Parte de um Todo que é um Nada,
Odor de uma Bíblia Sagrada,
Retrato de toda a Humanidade.

Sou Eu, és Tu, Somos Nós.
Por mais que a Natureza nos constrói
E pela beleza de uma Flor que nasce,
Há sempre num Sorriso um Disfarce
Do sofrer à angústia que Destrói.

Aí Sim!!!
Quando O Ser se desfizer em Nada
E anunciarem num Jornal que Eu Morri,
Serei apenas Lembranças Passadas,
E de uma coisa Saberei:
A DOR DE EXISTIR.

Marcos Flávio de Moura Freire, Brasil
email: deadlyfate@hotmail.com



POETA

Em qualquer lugar
Em qualquer agosto
Ainda é agosto
Posso ver sobre os montes
Poetas procurando
Buscam palavras mortas
Sou poeta também busco
Devem me perdoar
Acho que não sou poeta
Apenas um simples homem
Buscando palavras
Dentro das cinzas.

Edmar Bernardes DaSilva - San Francisco, CA, USA
email: escritormg@hotmail.com



LIMITAÇÕES


             Quero 
               explodir em verso
                 toda a angústia 
                    de procurar um canto
                      límpido de limitações.
             A poesia transgredindo
               o compasso das rimas,
                 correndo livre
                   nas veredas dos desejos.
             Música que te embale suavemente.
             Viver de amor por ti, eternamente.



Amaury da Silva Rego - Rio de Janeiro, Brasil - 02/01/81
email: guada@vetor.com.br



Confidente

Tu meu confidente,
sem voz e sem rosto,
estás sempre presente
do levantar ao sol posto

O mundo é uma roda
de sentimentos sem fim,
entram e saiem de moda
e tudo é fácil assim

Sou como um voo sem asa
De uma viagem sem regresso
talvez um dia chegue a casa
e pouco mais eu peço

A vida é uma intriga
de mistérios de veludo
Talvez um dia consiga
entender isto tudo

Adelino Sá - Lucern, Suiça
email: a_sa@gmx.net



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