Portugal em Linha
Novos Poetas Lusófonos

Poema Crioulo

Nha tera, nha sentimento
Nha papiamento, nha dóxi cau
Oh, nha bida, dj'u sabi, ma n'qrê torna flau
Ma n'ta amau, y nôs passado cata squecedo
Ai, sodade bô, ai, speransa
D'in torna odjau
La di riba na horizónti
Riba mónti
N'qrê canta na bo caminho
N'qrê badja, co tudo carinho
Di bo morabéza, ó, mai
Minha terra, meu sentimento
Minha fala, meu doce lugar
Oh, minha vida, já sabes, mas quero voltar a dizer-te
Que eu te amo, e o nosso passado não é esquecedo
Ai, que saudades tuas, ai, esperança
De voltar a ver-te
Lá em cima no horizonte
Em cima do monte
Quero cantar no teu caminho
Quero dançar com todo o carinho
De teus braços abertos, ó mãe.


Otávio, Brasil
email: okremer@nutecnet.com.br


CANTAREI


Quando o  " cantar " da charrua
e o som do arado esventrando a terra
substituirem o troar dos canhões
e acabar a guerra...
                            Cantarei o Hino da Reconstrução;

Quando os homens
deixarem de transportar aos ombros,
as espingardas
e carregarem ao colo
as crianças doentes e esfomeadas
                             Cantarei o Hino da Paz;

Quando as mulheres deAngola
souberem sorrir,
Aconchegando ao peito os meninos mutilados,
chorando os pais, os maridos e
os filhos massacrados
                             Cantarei o Hino do Perdão;

Quando as crianças,
em risos incontidos,
correrem pelas matas silenciosas,
sem medo de minas e armadilhas,
aprendendo a viver e a brincar,
                             Cantarei o Hino da Alegria;

Quando todos nós dermos as mãos
e como irmãos, d' alma levantada,
utilizarmos a nossa força
e a nossa coragem,
sem ódios nem rancores,
para  " levantar " a nossa Terra  massacrada,
ANGOLA, enfim, RESSURGIRÁ ! ...
                             e eu cantarei o Hino da  Ressurreição !



Maria Teresa Marques, Macau
email: victor47@macau.ctm.net



Fausto Num Episódio da Mosca no Verão

Eu sou a mosca, a nogenta mosca
Todo o lugar sujo, busco, sobrevôo
Meu alimento - tudo que enjoa, é nojo
Eu sou a mosca que tudo cheira, gosta

Meus filhos têm, sim, a côr do meu sangue
Os deixo com o lixo mais rico e imundo
Quanto mais podre, mais fértil, fecundo
Mais comem e vivem, têm a sorte grande

Sou até o pai do comer sem fome
Como o que vejo, tudo beijo e lambo
Por onde passo, até do mais limpo manjo
Sou o prazer que tudo devora e come

Sou a alma de tudo que é vil e nogento
Do vício ao desejo ou prazer mais sujo
Consigo tudo pela moléstia e o abuso
A carne me chama, só em carne penso

Eu sou a mosca, nasci do saltão
Sou o pensamento que no lixo mora
Transformo o próximo com desprezo em fossa
Na minha imundice sufoca a razão

Na guerra sou eu o mais forte e valente
Medalhas? Tenho-as, sou sim general
Todo o mundo me faz continência, mal
na cabeça de alguém passe até sómente

Na juventude mais na côr de pûs
Que faz de Hitler seu modêlo de mim
Vive o meu sonho, são meus filhos, sim!
Na porcaria mais porca os depûz

Eu sou a mosca, poeta traduz
Para o mundo todo, o que ao ouvido zumbo
Que eu sou o anjo do sujo e do imundo
A noite inteira deixa acesa a luz

Vem daí Fausto, comigo com gôsto
Que eu te dou asas como as minhas, de renda
Para te ergueres, e escreveres num poema
Sobre o meu reino de fartura e gôzo

Vem por estes países onde é puro o orgulho
No tenir do dinheiro, não tenhas não dúvida
Onde ele estiver, está a coisa mais pútrida
A gente mais fina se lho vende ao avulso

Tanto visito o forte como visito o fraco
Tenho a liberdade mais livre que existe
Uma mosca nunca se satisfaz ou desiste
Não há nada não que me tenha farto

Onde houver o homem, Fausto, escuta agora
Há uma riqueza em mau cheiro e em doçura
Eu fui feito à imagem dessa criatura
Fausto, até o bem só o mal o comprova

"Tu és sim a mosca, a maldita mosca
Que me não deixas não no Verão dormir
No teu vôo constante, eterno zumbir
Eu Fausto, me afasto, Deus, minha alma implora!"

Silvério Gabriel de Melo, Vogelbach, Alemanha
email: silverio@mail3.bunt.com


O Fim

Que desgraça!
Meu corpo se deformando em brasa,
Meus olhos cegos em fumaça,
Estou certo de que irei morrer.

Que vingança!
Enquanto esperava O Sossego,
Recebi apenas O Desprezo,
Fiquei só, a sofrer.

Tédio, solidão, desesperança,
Meus amigos desde a infância,
Uniram-se na esperança
De me verem mais rápido partir.

Sei que serei levado,
À fonte dos maltratados,
Sorrindo, despreocupado,
Morri, Morri, Morri...

Marcos Flávio de Moura Freire, Brasil
email: deadlyfate@hotmail.com


O Exotismo do Escorpião

Tudo é muito escuro
Escuto o escorpião
Conheço esse som
Também esses movimentos
Movimentos sem música
A dança da morte
O escorpião se move
Espalhando medo
Conheço essa dança
Um exotismo fervente
De repente tudo pára
Como no orgasmo
Sentem-se raios de luz
O escorpião se movimenta
Em uma dança de êxtase
Borboletas saem da escuridão
Não entendem a orgia da dança
Borboletas buscam a luz do Sol
Fugindo o escorpião, que dança
Fogem do exotismo que o cerca
Esse não é o mundo delas
Esse pertence ao escorpião
Mundo feito de desertos
Completo de areia quente
Debaixo de pedras escondem-se
Ocultando seu veneno
Veneno que embriaga de exotismo
Que mata de prazer e dor
Também se mistura com areia que queima
Veneno que nos cega de amor
Como a areia que cega de calor
O escorpião ainda dança
Uma dança elegante
Movimentos de êxtase
Exotismo espiritual
Dança sem música
Dança da alma
Dança da morte.

Edmar Bernardes DaSilva, Miami, FL, E.U.A.
email: escritormg@hotmail.com


P R E C E



     Que todas as manhãs sejam de sol para os libertos.
     Haja risos nos lares e que se multipliquem os pães.
     A vida agasalhe os sós, sensíveis e os incompreendidos.

     Todas as leis sejam abolidas e enalteça-se a consciência.
     Seja ouvido o clamor de miséria dos justos injustiçados.
     Deuses, santos e bruxas promovam a justiça onde os homens
     falharam.

     Que as crianças não envelheçam sob a máscara da hipocrisia.
     Todos os velhos sejam jovens por terem tido infância.
     Que as cores, tipos e formas sejam gravados em telas divinas.

     A arte exteriorize sentimentos no âmago e silêncio.
     Todos sejam poetas e cantem nas ruas a semente da liberdade.
     Ninguém critique ninguém e vivam sob o abrigo dos sentimentos.

     As casas tenham quintais e janelas coloridos.
     Os dias sejam de solidariedade:
        TUA DOR SEJA A MINHA DOR E
        MEU AMOR SEJA TEU AMOR

     Que os jovens vivam sem perder um segundo da existência.
     Sorriam, corram, sintam delícias de beijos e abraços.
     Sejam indenes aos fúteis, ignorantes e preconceituosos.

     Consumamos energia na natureza e nas camas em inesquecíveis
     aventuras. Soframos, vibremos, choremos, nos consumamos em
     saudades...mas AMEMOS!

               AMÉM !!!



Amaury da Silva Rego - Rio de Janeiro, Brasil
email: guada@vetor.com.br



CAMINHADA

Sou da noite peregrino,
Caminho só, sem destino,
Não tenho onde morar...
Caminho ao longo da estrada,
Em busca da madrugada,
Que me traga a alvorada
Que há muito, em vão, persigo,
E não consigo encontrar!...

Levo por manto, o tormento;
Por bordão, meu sofrimento;
No bornal, meu pensamento,
Qu'eu solto e deixo correr,
Qual cavalo puro sangue,
De crinas soltas, ao vento,
Correndo p'la pradaria
Numa louca correria
Que não consigo deter...

E quando o dia acontece
E a manhã, enfim, floresce,
Lá longe, atrás da montanha,
Minha alegria é tamanha
Qu'eu quedo-me para ver:
Tanta e tão grande beleza,
Que só mesmo a natureza
Me poderia oferecer...

As searas ondeando,
Trigos loiros, sasonados
De papoilas salpicados,
De um vermelho rutilante,
São pinceladas vibrantes
De um quadro feito: Matisse;

Escuto a brisa que passa
Em seu estranho rumor,
Como se de Orfeu se tratasse
Cantando a Euridisse
As suas trovas de amor.

E na berma do caminho,
Lírios roxos, macerados,
São sofrimentos passados
Por outros pés já pisados...

O ar cheira a rosmaninho,
A jasmim, a alfazema...
A vida é todo um poema
Que me apetece viver!

Maria Teresa Marques, Macau
email: victor47@macau.ctm.net


Dentro de mim...

Dentro de mim
há uma mistura
de sentimentos
que tímidos
e embaraçados
se vão mostrando
aos poucos.
Doidinhos por atacar
meu coração
vão confundindo
meu pensamento
e eu que tanto
tinha para dizer
fico parada
como que imobilizada
por eles.
A todo o custo
suportam a vida,
alimentam o sonho,
movem o mundo,
mexem comigo,
mexem com todos
e com tudo.
Dão vida à vida,
dão sonho ao sonho,
dão mundo ao mundo.
Sentimentos, sensações!...
Levam-me à lua
fazem-me viajar
e devolvem-me
por fim, à vida
onde os vou construir
e...sonhar.

Ana Filipa Ribeiro, Portugal
email: ana@portugal-linha.pt


OUTRA TENTATIVA

Ninguém passa pela vida impunemente;
Carregamos, sempre, nossas dores e devaneios.
Vã tentativa de açambarcar tudo o que agrada.
Mas a reta entorta, corta e rompe de repente
A lineariedade da fantasia em seus permeios.
Os castelos de areia...pela chuva destruídos.
Céu dramático, nublado e, pouco antes, iluminado
Transforma a rotina em postura desregrada
A consumir carícias, ternuras e desejos instituídos.
Tola esperança, intuída e combinada.

Qualquer paixão cobra o ônus da loucura.
Contamina o amor por nós criado.
Modificando o espaço-sonho, na bissetriz
Que transforma o nosso encontro uma ruptura
Do que possuíamos...escapou, é procurado.

Faliu, mais uma vez, a construção inconsciente
Ao confundir a realidade com o vivido.
Pensando ser em toda a vida um ser feliz
Exibe ao mundo um projeto inconsequente.
Não ousou transgredir, ateve-se apenas ao que lhe foi
permitido...

Amaury da Silva Rego, Rio de Janeiro, Brasil - 04/07/98
email: guada@vetor.com.br


Zé pecado e o dueto preto e branco

Zé pecado
Foi para o lado dos negros
e levou um empurrão
com um clamor de vozes:
sai daqui seu misto sem bandeira,
sai daqui seu misto sem bandeira!
Com lágrimas vertendo
foi para o lado dos brancos
onde ouviu um eco de vozes
clamando:sai daqui seu preto, sai daqui seu preto!
Perante tal situação
Zé pecado arregaçou as mangas
e desesperado gritou:
somos irmãos
negros e brancos
somos irmãos!
Reina desde então
um silêncio suspeito.

Delmar Maia Gonçalves, Lisboa, Portugal - 9-07-87

Mourejar

Vim dessabido,
De desassossego munido,
Para estas marginais
Páginas virtuais.

Interajo eletrizado,
De zero e um batizado,
Para aqui dizer :
Tenho o meu querer.

Que seja em html,
Que este espaço me compele.
Que já tô tardando,
Que já dizer : enganando !

Não ! Não engano ...
As vezes profano.
Mas mentira boa
Não é coisa à toa.

Desabotoando palavras
Dei por mim nesta lavra.
Até que me atinei
E inquietações sangrei.

Versos e estrofes
Clamando holofotes
Pra da dureza falar.
Pela vida salpicar

O odor do jardim
Que cultivamos sem fim
Pra além dos muros
Com faces de mouros.

Não quero morigerar,
Nem os mouros distratar.
Foi rima forjada
Nestas linhas cantadas.

Até pensei em me alongar,
E por aqui dicionarizar,
Rimas a esmo cultivadas
Por emoções aguadas.

Mas este aguado
Soa malfadado.
Busca-se o ambíguo.
Por linhas tortas o umbigo

Parindo as dores,
Partindo os amores,
Cicatrizes das brigas
A ceifar as espigas.

O pão da terra.
As migalhas da guerra.
A vida em contenda
Pelas comarcas e vendas.

O homem mostra a tez
Desdobra-se num entremez
De conquistas e perdas
Por bardos narradas.

Semeando dotes e dons
Alardeando seus sons
Abocanhando territórios
Invadindo promontórios.

Acendendo e apagando
O fogo manipulando.
A roda rolando.
As pedras lapidando.

Sois homo sapiens
Em constantes viagens.
Sofisticando os bramidos
Pelos genes aguerridos.

Inquietamente senhor.
Dos iguais, penhor.
Das armadilhas, fingidor.
Das vidas, caçador.

Parece ir longe,
Abstrato monge.
Coa mó do pensamento
A arguir todo momento:

Jugo e jogo.
Arbitra e roga.
Canta e dança.
Nas estrelas a fiança.

Findo e fico.
Os pés finco,
Virtuais comparsas
Desta interbalsa.

Luiz Roberto Rosa Silva, Brasil
email: luizrobertors@netwave.com.br


Quando tu vives

Quando tu vives e pensas que estás morta
olha para uma flôr e diz o que vêz nos meus olhos
pensa na água que por eles corre
e que de devagar, fica no teu pensamento

Deixa a pedra negra da multidão transparente
e a serpente que lhes cerca a alma
que não os deixa correr e acender a luz
de um jardim eterno florido pra vida

Abre os teus braços e aperta-me em glória
num jardim eterno florido para o amor.

Pedro Canteiro, Luzern, Suiça
email: Jopeca@swissonline.ch


Verdade

Numa ilha tanto tempo esperei
Para minhas mágoas te dizer
Depois te conheci, tantas incertezas
Amarguras sofri, e por aí andei sem saber

Um dia procurei teu sorriso e carinho
E senti gelo na alma quando sorriso não vi
Mas não sabia que vida rouba alegria do rosto
Amor desse é verdadeiro só que não percebi

Libertar a minha dor procurei outros caminhos
Lágrimas dos meus olhos enxugar tentei
Vi sol nascer e campos floridos e sorri
E no pôr do sol e noites frias chorei

Amei quem não conhecia
E quem não me conhecia me amou
Reconstruir vidas frágeis e ousadas
Não é para quem tão fácil desistia
Vendo horizontes o fim longe pra mim andava

Esperiências ganhei e tempo passou
Em noites frias chorei sem saber porquê
Talvez um vazio na alma resusitou
Tão distante uma dor renascia sem fim

Em novos horizontes, o sol brilhava...

Com os frutos de noites de amor
Muitos sorrisos e alegrias ganhei
Tanto aprendi quando a eles cuidava
E minha dor d'alma o adeus a dava

Finalmente senti tal amor verdadeiro
E então percebi que alguém tanto tinha perdido
Tentei de novo reconstruir esse amor primeiro
Mas deixei meu coração agir e outra vez a dor sentido

Agora sei mais o que é verdade e direito
Não quero viver com essa dor no meu peito
Irei tentar mais uma vez antes do fim
A ti te dar todo o meu respeito, e talvez enfim
um sorriso seu...

Luís Tavares, Attleboro, EUA
email: tigr@writeme.com


Quero crer

Quero crer que, quando me olhas
Vejas refletida nos meus olhos
A luz do teu olhar

Quero crer que, quando me afagas
Sintas em tuas mãos
O calor que emana do corpo meu

Quero crer que, quando te zangas
Um grande aperto em teu peito
Te impeça até de respirar quando andes

Pois, -se Eu sou Tu -
E - se Tu és Eu-
Deves profundamente sentir
Aquilo que senti
Quando injustamente
Por querer, ou sem
Num determinado e enfadado momento
Em que foste mais Tu e menos Eu
Meu querido, sem querer, minha sensibilidade se ofendeu

Lyz, São Paulo, Brasil
email: mariinha.eros@way-out.com


José Saramago

José Saramago-um navio ao longe
Vulto da minha terra, da minha Pátria
Passa junto à linha do horizonte
Um risco de sonho, que a distância apaga

Dono de romances, de palavras em viagem
Que eu mal conhêço-- mas estimaria conhecer
Marinheiro luso à deriva pelo mar da linguagem,
Deixa atrás por presença o meu olhar a arder

José Saramago, vapôr da Língua Portuguesa
Paquete de terras de Sul, atracado num porto
Firme, aprumado, com uma certa gentileza
Uma certa qualidade da nossa terra, do nosso povo.

De longe lhe envio um aceno em forma de poema
Fico a vê-lo afastar-se na superfície ondulante
Mais um navio que passa junto à minha ilha pequena
Se some, sem se aproximar, segue o seu rumo anelante.

Entre nós fica o mar imenso, depois com o Sol posto
Fica a glória do momento o marulho do mar como um côro
Parabéns!

Silvério Gabriel de Melo, Vogelbach, Alemanha - 09.10.98
email: silverio@mail3.bunt.com


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