Portugal em Linha
Novos Poetas Lusófonos

FARMACOTERAPIA DE VOCÊ

Você é o diazepan, me traz a calma.
Quando estou triste, faz-se imipramina,
antidepressivo que a dor espalma.
Haldol, se a louca paranóia chega e alucina.

Na tosse- pretexto ao silêncio- minha codeína sedante.
Ardendo em febre, ingiro o tylenol moderador,
transformando o exagêro do corpo escaldante
em um suave aconchego; de minha pele quente seu explendor.

Nos fastios de amor sorvo boa dose de cobalamina
a estimular o instinto enfraquecido.
Resfriado, anósmico, são as gotas de privina
que resgata um cheiro de canela conhecido.

Vindo a insânia da insônia roubar minhas energias;
duas colheres das de sopa com polivitamina são suficientes
na transmutação de "velhas posições" -estrategias...
Para trazer um sono cansado de sonhos indecentes.

O mundo gira, tudo em nós é hábito, é vício.
Ketamina no vinho, música no ar, ritual da taça.
Mistura com atropina envenena, provoca artifícios:
Taquicardiza, ruboriza, o tempo urge...a vida passa.
O cabelo embranquece nossa sensualidade.
Oxygen para travar a canescência.
Nootropil para não obstruir o desejo e a maldade
infiltrada na teratologia de nossa concuspicência.

Já nos preocupa o exagero, a despesa na farmácia.
Ficou onerosa a manutenção do desempenho:
Chá de alho, catuaba, placebo...tudo falácia!
Iatrogenia a resgatar forças que já não tenho!

Aguardo sempre um antibiótico de você, mas quando vencido.

Acaso a taquifilaxia permita a impotência da rotina,
não exagere a posologia do viagra conhecido.
Não deixe a frustração convulsionar-me em sua estricnina...

Amaury da Silva Rego, Rio de Janeiro, Brasil
email: guada@vetor.com.br


Ponta Delgada

Ponta Delgada, nossa inesquecível, linda cidade,
Quem não se lembra das suas "Portas" de três arcadas?
Da sua formosa baía, com saudade?
Das suas ruas estreitas, bonitas calçadas?

Das suas praças, sua Avenida, sua majestade
De igrejas, conventos, casas apalaçadas?
De estufas brancas a aquarar---do seu alarde
De cal, basalto e ardósia, colinas mágicas?

Quem não se lembra da Matriz, da alta torre do relógio?
Do Senhor Santo Cristo--- baluarte da nossa história?
Do Alto da Mãe de Deus--- "Alfama" de sonho e ócio?

...À frente o mar, ao longe o "Monte da Lagoa"?
---Quem nela viveu a traz presa na memória
Nossa Atlântida de sonhos, pequena Lisboa!

Silvério Gabriel de Melo, Vogelbach, Alemanha
email: silverio@mail3.bunt.com


No país da minha era

visto a selva no primeiro caminho da paisagem
não sei da matação sobre o vale
nem do segredo das árvores galopantes
no vento sobre o dia
de verde urgente no tal de presente
busco o luar em plena madrugada e acompanho
atravesso os rios de orvalho no inverno
a busca dum segundo caminho no poente
e um segredo na descida acometida
sobre o vento, galopante na monsão
O segundo me assesta o assento
sobre o caminho do terceiro
quando atravesso a foz do rio
verde, na selvagem do asfalto virgem
e me agacho,
no quarto em maráa de extensão
na onda estreita da vegetação.

Noé Massango, Maputo, Moçambique
email: nmassan@health.uem.mz


Na terra de vento cego

acocorado no chão da lua dividida
verdes lágrimas vertem no silêncio do poema
meu gesto candente no luar aceso
meu sol apartado pela noite viva
verde,
em que acesas estrelas luzem fundo
mostrando suas garras
no meu mundo fora da pátria.
Contemplo o mar verde do universo
seus versos de luto no universo
da minha era
navegando lágrimas de defuntos
céleres nos milagres de vento
e me agacho para fugir da onda
negro, na terra de vento cego.

Noé Massango, Maputo, Moçambique
email: nmassan@health.uem.mz


A RAZOÁVEL AVENTURA

O tempo urge e ruge,
Enquanto a primavera ensaia,
Ainda na invernada,
O amarelo vivo do ipê que surge.
Meus pecados em dia estão,
O que mais meus opositores dirão,
Se a minha franquesa é estranha ?
Corroendo, caoticamente, minhas entranhas
Correndo, efusivamente, minhas manhas
Coentros, efusões, ervas daninhas
Condimentos, alimentos, pajelanças.

Atormentam-me os costumes
E o relativismo das possibilidades.
Vejo as criaturas sem lume
Quando os tenho humanamente,
Um humanismo forjado,
Hipocritamente lajeado.

Criamos o criador
E com olhos semi-abertos
Propagamos a sua semelhança: nós.
Já não mais órfãos,
A catarse humana
Pelo silêncio do universo se esparrama,
Junto as estrelas -
O catálogo das divindades.

Se não sabemos
Sem alma nos sentimos.
Se temos
Não basta possuirmos.
Se descobrimos
Não é suficiente destruirmos.
Nos projetamos
Tão distantes de nós mesmos,
Porque queremos crer
Que não somos somente isto.
Porque nos julgamos
E temos a estética e a ética,
E a marmórea justiça.

O tempo urge e ruge
E eis que surge
A tirania do estar vivo.

Luiz Roberto Rosa Silva, Brasil
email: luizrobertors@netwave.com.br


GUICHÊ

Os nossos castigos para a nossa compreensão
A nossa viagem ao encontro ...
Contemplação
Pontos distantes no mesmo espaço
O que se passa dentro dum coração?
O amor só produziu cansaço.
Nossas vidas e olhares entrecruzados
E tanto tempo num relógio sem lógica
Caminhos que já foram desbravados
E nem tomamos conhecimento.
Anseia coração por uma pitada de sentimento
E o ódio é o único alimento
Para se fazer o preparo
Do sentimento mais raro.
Quem ama sempre odiará
E se destilarmos sentimentos
Veremos se poderá
O mais gélido coração sofrer de encantamentos.
A vida é a lógica nua
Os sentimentos são as luzes sobre a nudez
As respostas não estão na terra ou na lua
Respostas: guichê ao lado, espere sua vez.

Flávio Bredariol, Bauru, Brasil

Longe

Longe ficam os caminhos
Nem há Édens a germinar
Não há jardins sem espinhos
que não possam magoar

Um mundo num mapa
nos becos do Universo
Horizonte sob uma capa
na alçada do progresso

Cria-se com imaginação
como se fosse a realidade
Certeza do extraordinário
que não chega a verdade

Adelino Sá, Luzern, Suiça
email: a_sa@gmx.net


DESESPERO

Choro,
Por todos os mortos ignorados;
Choro,
Por todos os corpos mutilados;
Choro,
Por todas as crianças estropiadas e massacradas;
Choro,
Por todas as mulheres violadas e abandonadas;
Choro,
Por todos os horrores da Guerra
Que apagaram, dos olhos das crianças,
O fulgor da infância
E a alegria da esperança.
Depressa! É urgente!
Acabem com a Guerra,
Com as vidas destroçadas.
Abracem-se irmãos,
Apaziguem os vossos corações
E tragam-nos a Paz!
Já não tenho mais lágrimas
P'ra chorar
Por esta minha Angola martirizada!

Maria Teresa Marques, Macau
email: matmac96@macau.ctm.net


Preparativos de Natal em Portugal

Presépio pintado com cal
As broas ao homem do jornal
Aos amigos enviar um postal
O chá da Senhoreca de Tal
A grande árvore de Natal

O bolo-rei do Café Central
Farinha das filhós no avental
O perú bêbado no quintal
Nestes dias não existe mal
No circo que é Portugal

Há festa no arraial
Missa do Galo à Patriarcal
Dispensa de ponto excepcional
A carta ou telefonema anual
Prendas e laços com sinal

No sapato, na lareira ou no cordel
Caridades, compaixões a granel
O bacalhau do Senhor Manuel
Para enviar à família em S.Miguel
Tudo bem embrulhado em papel

Ana Pintão, Lisboa, Portugal
email: anapintao@mail.telepac.pt


AMBIÇÃO (Para Álvaro de Campos)

Sou cerebral e sozinho.
A Ambição minha, que é única,
É a epifania contida
Em cada momento frio.
Primaz é o sentir que fica
Em nós da coisa vivida:

Podemo-la em moda impor,
E este refaz o sentir,
Que é variado, de acordo
Com a'lma que'stá em torpor
Posto que sou almas, sim!
Almas que em mim me recordo

Em todos um lago morto
Havemos de ter, que em nós
Nos entristece bastante.
Mas se por nós é bem posto
Ledo sol, os arrebóis
D'ouro hão de no semblante

Frio esplender quente o rosto
Da feliz inconsciência.
Pois pensar é desgosto;
E quero bem a existência
Minha livre do pensar,
E sentir na pele o ar

Que como vento balança
O ninho. E que só me baste
Dele esta rica lembrança -
Que todo o pensar se afaste...
Se então quiseres assim,
Certo é que terás a mim.

João Paulo Cerqueira de Carvalho, Brasil
email: jpaulo@cdl.com.br


Éramos nós

E então, éramos nós
um corpo e outro,
entregues, envoltos
na noite, faróis

Éramos nós

E então, duas peles
de cores irmãs,
trocavam sabores,
rompiam manhãs

Éramos nós

E então, éramos nós
do tempo esquecidos
de carne ,tecidos,
ardendo, a sós

Éramos nós

E então, artistas que somos,
brincamos de cores, com nossos lençóis
Os pincéis que usamos?
Trouxemos guardados, bem dentro de nós

Éramos nós

E mais nada havia,
na casa vazia,
tão cheia de nós
E o tempo de ir,
se aproximava
e a saudade chegava
precisa, veloz

Éramos nós...

Ana Maria Vergne de Morais, Bahia, Brasil
email: angel@nway.com.br


O AMOR!...

Amor não é só o sexo
Entre o côncavo e o convexo
É também sentir no peito
Um coração a vibrar
Po outro, que diz amar.
Isso é que é Amor perfeito!

É sofrer com o sofrimento
De alguém que sinta o tormento
Que a vida, por vezes, é.
É dar de si quanto tem,
Quando preciso, a alguém
īSteja longe, 'steja ao pé!

É dar a vida por vida
Mesmo que haja a fé perdida
De esse alguém corresponder.
É sofrer de ansiedade,
É matar-se de saudade
Se esse alguém não vier

É querer viver mais e mais
Com querer e força reais
P'ra aumentar o seu valor
Para ajudar quem se ama
Sem 'star a pensar na cama
Isso sim, isso é AMOR!!!

Alfredo Louro, Oliveira de Azeméis, Portugal
email: alfredo.louro@mail.telepac.pt




Se o concreto agride, viola
Violo o concreto enviolando-o
Violando-o com cordas de aço
Aço fino e resistente sou eu:
Nordestino,
Com o destino
Violado...

ClauduArte Sá, Miami, USA
email: ClauduArte@aol.com




Fui
Em pânico
Para te dizer
Adeus
Pálida estavas
No meu pensamento
Mas ver-te fria
Mãe-menina
Faz-me sentir
O vento eléctrico
Dum deserto
Na alma
Fui
Num K.L.M
Colados os olhos
Nas nódoas brancas
Do espaço
Cheguei
As pessoas
Nas pedras dispersas
Encosto-me
Ao ar que me circunda
A Paula soluça
No centro da terra
Ainda fresca
Que cobre a minha irmã
Uma a uma as rosas que comprámos
à pressa
caem aos seus pés
Quero estender-me
Nesse leito de morte
Senti-la
Acariciá-la
Aquecê-la
Mas não consigo
Transpor
A barrreira Aérea
Que nos separa
E aqui me fico
Fria

Diana de Moura, Halifax, Canadá
email: diana000@ns.sympatico.ca


Meu Signo

Nasci com o vento norte,
meu signo:o signo da morte.
Por estranha contradição
também o da recriação.
Meus planetas?-Marte e Plutão.
Dão-me força interior,
combatividade;
Enfrento a vida com frontalidade;
Cultivo a amizade, o amor,
a fraternidade;
Aprecio o sentimento de gratidão,
num mundo em degradação,
detesto a mediocridade;
Estranhas dualidades;
A inveja e a deslealdade.
Do Sol e da Lua,
vem-me a espontaniedade,
sensibilidade, alegria,
e muita melancolia.
"Tudo ou nada" é o meu lema.
Sou de extremos?Pois então!...
Sou do signo Escorpião!

Maria Teresa Marques, Macau
email: matmac96@macau.ctm.net


A minha velhota

Minha Manelinha,
avó pequenina,
meio maga
meio criança,
sabia tudo da vida.
Acalmava as dores
os choros e os amores

Onde estiver agora
minha avózinha
não olhe, não veja
os erros da netinha.

Que falta faz ao pé de mim!
Parece que acabou a família
quando nos deixou assim.
De fininho, sem querer incomodar
sem ruído, sem odor,
sem saber o que fazer
para nos dar mais amor.

Se nos vir não fique triste
a vida faz-se de viver,
de amar, de chorar,
não se pode evitar.

Ana Pintão, Lisboa, Portugal
email: anapintao@mail.telepac.pt


Tristeza com Orquídias

Gostava de matar o sorriso que me envias
E rasgar as palavras que me dizes
Mandar-te ao diabo
E aceitar o convite que um outro me propõe
Gostava de mais não sentir
A tua ausência
Presente como um castigo
E acumular no vasto espaço que dedico à memória
Imagens que não são tuas
Gostava de passear na minha alma sem cicatrizes
E respirar o ar frio duma manhã formidável
Após uma noite calma
Gostava de te ouvir como uma linda cancão
ligeira e agradável
Que me causa agora fastio
Gostava de pensar que foste
E já não és
E não mais sentir em bolsos inventados
As minhas trémulas mãos
E o gosto amargo da tristeza
Oferta tua preferida
Acompanhada de maravilhosas orquídias

Diana de Moura, Halifax, Canadá
email: diana000@ns.sympatico.ca


OLINDA / jjeronimorais - 12/01/87

Cantaram outros
atua beleza e pousadio
cantaram tua ladeirosa
e colonial morfologia
a sintaxe de teu casario
da gente cordata
de tuas calçadas e quintais
cantaram teu léxico
praeiro e caetês
- o verde de tua folhagem
é lindeza pura e vera -
tua semântica, teu estilo aristocrático...
Quero eu apenas balbuciar
o hexagrama de teu nome,
sua p e n t e u f o n i a
O L I N D A !


Ana Maria Vergne de Morais, Bahia, Brasil
email: angel@nway.com.br


Página Anterior | Página Seguinte
Publique aqui os seus poemas

homeVoltar à página principal | Literatura Lusófona

Portugal em Linha - O Ponto de Encontro da Lusofonia
E-mail: info@portugal-linha.pt
Envie-nos o seu comentário para admin@portugal-linha.pt